Cólera do Dragão
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O derby lisboeta será abordado mais abaixo. É que não se pode deixar passar ou de destacar o início de temporada do Porto. Se havia alguma dúvida quanto ao poder de fogo da equipe após ficar fora da Liga dos Campeões e contar com um treinador muito jovem e com pouco mais de um ano de experiência, estas têm caído por terra à medida que os Dragões emplacam vitórias atrás de vitórias. Até o momento, em nove jogos oficiais, foram nove triunfos, incluindo-se aí o sossegado 2 a 0 sobre o rival Benfica, na Supercopa, e um disputado 3 a 2 contra o sempre complicado Braga.
Desde 1976, quando então ainda era conhecido como time das Antas, o Campeonato Português não via um início de temporada tão positivo. Nem tanto pelas cinco vitórias em cinco jogos, afinal, os bracarenses já haviam feito o mesmo em 2009/10, por exemplo. É que há 31 anos, o Sporting, também com 100% de aproveitamento nas cinco partidas iniciais, mantinha o Varzim em segundo, três pontos atrás. À época, essa diferença representava uma vitória e um empate (os triunfos valiam dois pontos). Proporcionalmente, comparável aos quatro pontos que o Porto já botou no atual segundo colocado, o Vitória de Guimarães.
O desempenho portista é justificável em vários aspectos. O ataque, usualmente, conta com um goleador em potencial (Radamel Falcão Garcia) e dois atacantes bastante ágeis e úteis, como Silvestre Varela e, principalmente, o forte brasileiro Hulk, que faz grande temporada até o momento. Além disso, o argentino Belluschi enfim se tornou o reforço que não conseguiu ser em 2009/10, com gols importantes, atuações eficientes – principalmente por, agora, atuar próximo aos atacantes – e muita movimentação.
O meio-campo também vive momento bastante salutar. Fernando se firma cada vez mais como um volante a ser observado por Mano Menezes, e na armação, João Moutinho vem em franca ascensão. E o setor ainda tem um Ruben Micael que a cada dia dá uma enorme dor de cabeça em André Villas-Boas, já que raramente entra mal em campo. A defesa é o departamento, talvez, mais preocupante, mas Maicon e Rolando seguem evoluindo no entrosamento, e a chegada do argentino Otamendi e a manutenção de Fucile para a lateral direita tendem a dar mais qualidade ao setor.
Por falar em Villas-Boas, há também de se destacar o trabalho que o jovem comandante, de somente 32 anos, vem fazendo. Investindo bastante em um jogo que valoriza o ataque, mas com a manutenção da posse de bola e dando liberdade para que os jogadores criativos e de maior qualidade possam jogar o que sabem, o antigo auxiliar de José Mourinho tem impressionado nas laterais do campo. Soube utilizar a pré-temporada para conhecer o que tinha em mãos e não tardou a identificar as melhores maneiras de colocar seu Porto em campo.
Se o Estádio do Dragão voltará a ver a equipe da casa comemorar um título nacional, ainda é muito cedo. Até porque, pegando o exemplo da temporada 1976/77, citada acima pelo semelhante início do então líder Sporting com o do atual Porto, o campeão acabou sendo o Benfica. No entanto, o jogo eficiente, veloz e bonito que tem apresentado os portistas merece ser acompanhado até mesmo por aqueles que não têm costume de ver o futebol português. E se os encarnados confirmarem a evolução esperada no pós-derby, a temporada tem tudo para ficar bem interessante e proveitosa de se assistir.
A vez de Paulo Bento
Por algumas horas, os portugueses se empolgaram com a possibilidade real de ter o ídolo José Mourinho como comandante da equipe das Quinas nos próximos dois jogos das eliminatórias da Eurocopa. Não deu, como se sabe, por resistência do Real Madrid. Mas a situação pode ser vista com algum otimismo. Afinal, se havia dúvidas quanto ao interesse do “Special One” chegar à seleção nacional, estas se encerraram. O fato de Paulo Bento ter sido contratado inicialmente até 2012 dá a entender justamente que ainda há esperança de ver Mourinho como técnico para a Copa.
E aí, há quem questione o nome de Bento, considerando que ele não tem experiência profissional suficiente, ou que não possui um currículo de peso. De fato, o ex-volante do Sporting não é lá muito rodado. Abandonou os gramados em 2004, assumiu o time júnior dos Leões pouco após pendurar as chuteiras e em 2005, após o fracasso de José Peseiro, acabou promovido ao time principal, onde ficou até o começo da última temporada. Títulos, apenas dois: duas Copas de Portugal. Torneios importantes, claro, mas aquém do que busca o torcedor leonino.
Não se pode omitir, porém, que Paulo Bento ficou marcado também por erros de posicionamento de jogadores após determinado tempo (Pereirinha na lateral direita ou Yannick Djaló de centroavante, como já ocorreu) e certas teimosias, como insistir em um já desgastado losango no meio-campo sportinguista, sem apostar verdadeiramente nas alas. E sim, o treinador não conseguiu fomentar em seu time um espírito mais ambicioso, que fosse além da rivalidade de Lisboa, tendo assumido, após sua saída dos Leões, que a equipe sentiu o início de temporada que o Benfica teve em 2009/10.
No entanto, não se podem esquecer algumas coisas. Ao longo das últimas épocas, o Sporting esteve longe de contar com um elenco de ponta, tendo valores questionáveis inclusive para a liga nacional. Além disso, o time lisboeta viveu grandes apertos financeiros, que obrigaram Bento a recorrer à base em diversas oportunidades. E mesmo sem ter promessas fora de série, conseguiu colocar os Leões em três Liga dos Campeões, deixando para trás o Benfica, que insistia em errar a mão em contratações e, mesmo com mais recursos e por vezes mais time, era superado pelo rival.
A experiência no Sporting, vale considerar, deu-lhe uma experiência interessante. Tanto do dia-a-dia do futebol português – algo que, por exemplo, parecia por vezes faltar a Carlos Queiroz, que estava longe da liga local desde 1995, passando muito tempo no exterior – como até mesmo para reconhecer erros e limites. O próprio assumiu, após demitido, que ficara “tempo a mais” no Sporting, e que o ambiente pós temporada 2008/09 já deveria ter sido determinante para que deixasse os Leões “por cima”, haja vista que conseguira mais uma vez levar o time para a LC. E apesar de todos os “no entanto”, Paulo Bento passa ao menos uma perspectiva mais positiva, inclusive em se pensando na renovação da seleção, do que Queiroz. É aguardar.
O campeão voltou?
Fosse o Benfica um time brasileiro, a torcida teria deixado o Estádio da Luz no último domingo eufórica e aos gritos de “O campeão voltou!”. Voltou? Muita calma nessa hora, mas a apresentação ante o Sporting foi bastante inspiradora para os atuais campeões. Tudo bem, os Leões fizeram uma partida tétrica e foram bastante dominados pelos comandados de Jorge Jesus. Jogadores-chave, como Matias Fernandez e Yannick foram anulados e pouco criaram. Liedson correu, lutou, mas voltou a passar em branco. Boas atuações só mesmo de Carriço e até mesmo Rui Patrício, que evitou uma derrota por uma margem maior.
A equipe benfiquista como um todo apresentou qualidades que não demonstrara até o momento: tranqüilidade, controle e eficiência. Oscar Cardozo andava extremamente por baixo. Deixara sua marca contra o Hapoel Tel-Aviv, mas quisera “reclamar” com a torcida pelas vaias. Eis que contra o rival, o Tacuara voltou a mostrar a presença de área que o caracteriza. Fez dois gols, foi ovacionado e ganhou moral para retomar a boa fase. Fábio Coentrão, dessa vez alçado à meia esquerda, foi novamente um leão e uma das principais referências de criação da equipe. Teve ainda o apoio de um Aimar em boa noite e de um César Peixoto que não comprometeu na lateral.
O resultado, claro, ainda é insuficiente em se falando de campeonato, mas dificilmente deixará de ser um motivador para que o Benfica siga se encontrando na temporada. Ainda é preciso notar, no entanto, como o time renderá quando ficar novamente sem uma boa atuação de Aimar ou necessitado dos avanços de Coentrão. Ao Sporting, faz-se necessário parar com a alta rotatividade de titulares na ligação com o ataque. E em que pese ter ficado fora durante algumas partidas, Maniche é o jogador mais diferenciado que os Leões têm atualmente, e deve mostrar isso em campo. Não o fez.