Portugal

Árbitro leva joelhada no rosto e Portugal vê onda de violência contra juízes

O Canelas 2010 ficou famoso no final do ano passado porque a maioria de seus adversários da semiprofissional quarta divisão portuguesa se recusaram a enfrentá-lo, alegando serem vítimas de intimidações e ameaças. A história foi contada pela coluna. Agora, o time formado por componentes da Super Dragões, principal torcida organizada do Porto, protagonizou um triste capítulo da história do futebol português: a agressão de Marco Gonçalves ao árbitro José Rodrigues.

O caso aconteceu logo aos dois minutos da partida válida pela 3ª rodada da fase de subida da divisão de elite da Associação de Futebol do Porto. Jogando contra o Rio Tinto, na casa do adversário, Marco fez falta e agrediu um jogador da equipe da casa. O árbitro o expulsou imediatamente e, logo depois, foi atingido por uma joelhada do atleta do Canelas. O lance pode ser visto neste vídeo:

A força com que bateu o joelho direito no rosto do juiz foi tanta que Marco provocou uma fratura no nariz de José Rodrigues. Atendido pela ambulância após deixar o campo sob aplausos, o árbitro foi levado ao hospital e submetido a uma cirurgia. O jogador saiu do gramado acompanhado por policiais, que o levaram para prestar depoimento. O jogo foi encerrado.

Como medida preventiva, a Justiça portuguesa proibiu Marco Gonçalves de contactar árbitros e de frequentar recintos esportivos, enquanto responde ao processo por ofensa à integridade física qualificada, que pode render até 12 anos de prisão. O Canelas, por sua vez, o expulsou do elenco e prometeu que ele jamais voltará a vestir a camisa do clube.

Esta não é a primeira vez que Marco Gonçalves se envolve em confusão. Há três anos, ele foi acusado de se envolver na agressão a um policial nas imediações do estádio da Luz, quando de um clássico entre Benfica e Porto. O processo foi arquivado.

Marco falou somente uma vez sobre a joelhada, em rápida entrevista à SIC. “Lembro-me de agarrar o árbitro, agora não sei como é que aquilo aconteceu. Não me lembro de ter agredido o árbitro”, disse, além de pedir desculpas. O jogador é considerado uma espécie de braço direito de Fernando Madureira, o Macaco, líder da Super Dragões e capitão do Canelas.

É óbvio que o que aconteceu é um grande absurdo. Mas, mais do que isso, o caso reabre caminho para uma discussão que precisa ser feita em torno de como o futebol português vem lidando com a violência. Afinal, como o conselho de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol classificou em nota oficial, o que aconteceu é “inaceitável no futebol e na sociedade”.

Dados da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol mostram que o ocorrido no jogo do Canelas foi a 43ª agressão nesta temporada somando partidas de futebol e futsal. Claro que nem todas têm a mesma gravidade física (um ligeiro empurrão ou uma peitada, por exemplo, já se encaixam na estatística). Mas há casos bem preocupantes.

Em janeiro, o árbitro Artur Soares Dias foi ameaçado de morte por torcedores do Porto, que invadiram o centro de treinamento da arbitragem. Em março, o pai do árbitro Jorge Ferreira teve seu estabelecimento vandalizado depois que o filho apitou a vitória do Benfica por 2 a 1 sobre o Estoril pela Taça de Portugal (os vândalos deixaram referências à Super Dragões). No mesmo mês, um torcedor agrediu o árbitro Luís Fonseca após uma partida válida pela segunda divisão distrital.

Punir exemplarmente os agressores é um importante passo para Portugal banir esse tipo de conduta. Se não agir rapidamente, o futebol lusitano corre o risco de, em breve, ficar mais conhecido pelas agressões a árbitros do que pela bola rolando.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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