O Liverpool estava perdido. A temporada anterior não era uma exceção em sua história recente. A derrota por 6 a 1 na rodada final da Premier League de 2014/15, último jogo de Steven Gerrard pelo clube, havia sido mais do que simbólica. O dinheiro da venda de Suárez havia sido desperdiçado. A nova campanha não começara bem, e Brendan Rodgers havia sido demitido. Mais um treinador que chegava e ia embora sem que o título inglês fosse conquistado, por mais que ele tenha sido um dos que mais chegou perto. Era difícil continuar tendo fé. O sucessor de Rodgers seria Jürgen Klopp. Havia em seu currículo alguns milagres operados pelo Borussia Dortmund, mas sabe como são os gatos escaldados. Por que o torcedor do Liverpool acreditaria que agora seria diferente? Que ele não seria mais um treinador triturado por uma seca que não parecia ter fim? Menos de cinco anos depois, até muito antes disso, vieram as respostas. Nesta quinta-feira, pela primeira vez em 30 anos, o Liverpool entrará em campo como campeão inglês – além de europeu e mundial. A promessa que Klopp havia feito em sua apresentação havia sido cumprida. Os céticos foram transformados em crentes. E em campeões.

09/10/2015: Klopp é apresentado

Jürgen Klopp está cheio de sorrisos na sua apresentação ao Liverpool (AP Photo/Jon Super)

Jürgen Klopp estava oficialmente em um sabático, após o longo e desgastante trabalho com o Borussia Dortmund. Pensava em recarregar energias, jogar um tênis, se atualizar e esperar a proposta certa. A demissão de Brendan Rodgers, após um 0 x 0 com o Everton, no começo de outubro, precipitou seus planos. O agente Marc Kosicke estava atento a possíveis interessados. As tratativas com o Liverpool foram rápidas. Klopp reuniu-se com Mike Gordon, presidente da Fenway Sports Group, em um prédio de Manhattan, porque uma viagem a Boston daria muito na cara. Os dois se deram bem. Klopp elogiou a estrutura do clube e disse o que achava necessário para devolvê-lo ao primeiro patamar. Gordon achou que o alemão tinha o entusiasmo e a personalidade necessários para o que precisava ser feito. Seu perfil combinava melhor com a visão do clube do que o outro candidato, Carlo Ancelotti. Quando Kosicke fechou os termos financeiros, conta o The Athletic, Klopp saiu para uma caminhada pelo Central Park. Não vagava sem destino. Passou por Strawbery Fields, onde fica o memorial a John Lennon, em direção ao Dakota Building, onde o ex-Beatle morava. Aproveitou a proximidade para absorver um pouco da cidade que em breve o adotaria. Cinco dias depois da última partida de Rodgers no comando dos Reds, Klopp era apresentado em Anfield. “Neste momento, toda a família do Liverpool está um pouco nervosa, um pouco pessimista, duvidando um pouco demais. Todos torcem durante o jogo e há um clima fantástico no estádio, mas, neste momento, eles não acreditam. Eles apenas veem cinco anos atrás, dez anos atrás, 20 anos atrás. A História é ótima, mas apenas para ser lembrada. Agora, temos a possibilidade de escrever uma nova história se quisermos. Temos que transformar os céticos em crentes. Agora”, determinou. “Se eu ficar aqui quatro anos, acho que venceremos um título”.

17/10/2015: A estreia

A janela de transferências estava fechada quando Klopp chegou a Anfield. Em janeiro, abriria a de inverno, quando os clubes hesitam em fazer grandes revoluções. Os preços costumam ser mais altos porque os vendedores não querem abrir mão de jogadores no meio da temporada. O primeiro reforço da Era Klopp seria a única compra daquele mês – Marko Grujic, do Estrela Vermelha; Steven Caulker foi contratado por empréstimo. Klopp teria que se virar com o que tinha. Acreditava que o elenco tinha mais qualidade do que vinha apresentando, mas precisava de confiança. Apresentado em meio a uma Data Fifa, teve mais de uma semana para preparar seu primeiro jogo, contra o Tottenham, no White Hart Lane. O time titular foi Mignolet; Clyne, Skrtel, Sakho e Alberto Moreno; Lucas Leiva, Emre Can, James Milner, Adam Lallana e Coutinho; Divock Origi. Joe Allen e Jordan Ibe entraram no segundo tempo. Nenhum deles enfrentou o Crystal Palace semana passada. Origi ficou no banco. Milner foi desfalque por lesão. A primeira partida de Klopp terminou 0 a 0. Não foi um grande jogo.

08/11/2015: Klopp se sente sozinho

Klopp, técnico do Liverpool (Foto: AP)

O Liverpool de Klopp demorou um pouco para engrenar. Emendou alguns empates e vitórias apertadas, com exceção de um 3 x 1 contra o Chelsea, em Stamford Bridge. No sétimo jogo, veio a primeira derrota. Em Anfield, Scott Dann fez 2 x 1 para o Crystal Palace, aos 37 minutos do segundo tempo, e muitos torcedores começaram a ir embora antes do apito final. “Depois do gol, a 12 minutos do fim (com acréscimos), eu vi várias pessoas saindo do estádio. Eu me senti muito sozinho naquele momento”, disse Klopp. “Nós decidimos quando acabar. Entre os 82 e os 94 minutos, você pode fazer oito gols se quiser. Eles têm motivos para ir embora, e talvez seja mais fácil sair, não sei. Não quero que isso seja algo grande, mas somos responsáveis por fazer com que ninguém saia do estádio porque tudo pode acontecer. Temos que mostrar isso e não o fizemos”. Um mês depois, o West Brom vencia por 2 a 1, quando o cronômetro marcou o sexto minuto dos oito de acréscimo previstos, e o Origi arrancou o empate. A torcida havia ouvido o treinador e ficou até o fim, criando o que Klopp descreveu como o melhor clima em Anfield desde sua chegada. Ao fim do jogo, reuniu os jogadores, formou uma corrente e agradeceu as arquibancadas, como fazia com a Muralha Amarela. Muitos tiraram sarro de uma reação aparentemente desproporcional a um empate contra o West Brom, mas ali estava se formando uma ligação. Klopp havia feito um pedido, e os torcedores haviam atendido.

20/12/2015: Fazemos tudo juntos 

O Liverpool oscilou bastante com Klopp na primeira temporada. Em um intervalo de um mês, foi da melhor apresentação até então, a goleada por 4 a 1 sobre o Manchester City, à pior, uma derrota por 3 a 0 para o Watford em que tudo deu errado. A festa de Natal do Liverpool estava marcada para aquele dia. O clima não estava bom, muitos achavam que seria cancelada. Não se dependesse de Klopp. Uma mensagem de texto foi distribuída para o elenco dizendo que ninguém tinha permissão para ir embora antes da 1h da manhã: “O que quer que façamos juntos, faremos da melhor maneira que pudermos e, esta noite, isso significa ir a uma festa”.

28/02/2016: A primeira final

Caballero, o herói improvável, é festejado pelos companheiros pelo título da Copa da Liga (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

Os pênaltis foram necessários, com um erro do velho conhecido Peter Crouch, para passar pelo Stoke City nas semifinais da Copa da Liga Inglesa. Jürgen Klopp havia chegado à sua primeira final como treinador do Liverpool e enfrentaria o Manchester City. Simon Mignolet teve uma atuação de altos e baixos, com um erro no gol de Fernandinho e defesas importantes para manter a desvantagem sob controle até Philippe Coutinho empatar. Raheem Sterling, que havia trocado de clubes alguns meses antes, perdeu chances claras. Na disputa de pênaltis, Can abriu a contagem e Fernandinho errou o primeiro do Manchester City. A esperança se esvaiu à medida em que Caballero defendia as batidas de Lucas, Coutinho e Lallana. “Estamos tristes, mas precisamos nos levantar. Apenas idiotas ficam no chão e esperam a próxima derrota. Sentimos como é a derrota. Não é o melhor momento, mas a partir de segunda-feira podemos mudar tudo. Vamos em frente e melhorar. Temos que trabalhar duro, seguir em frente e há luz no fim do túnel. Isso é importante”, disse Klopp.

14/04/2016: Anfield pulsa

Lovren, do Liverpool comemora a classificação com Klopp (AP Photo/Jon Super)

“Por que eu gostaria de enfrentar o time mais forte do mundo?”, respondeu Jürgen Klopp ao ser questionado sobre um possível reencontro com o Borussia Dortmund nas quartas de final da Liga Europa. É claro que o futebol não deixaria essa passar. O retorno ao Westfallenstadion foi emocionante, com as duas torcidas se unindo para saudá-lo e cantar You’ll Never Walk Alone em uma única voz. O jogo terminou empatado por 1 a 1. Em Anfield, o Dortmund abriu 2 a 0 no primeiro tempo. O Liverpool precisava virar. “Criem um momento que vocês possam contar aos seus filhos, aos seus netos”, motivou. Origi ouviu o chefe com atenção e descontou no terceiro minuto da etapa final, mas Marco Reus fez 3 a 1 para os alemães, a cerca de meia hora do fim. O Liverpool precisava de três gols. Coutinho fez o primeiro. Sakho, o segundo. Aos 46 minutos do segundo tempo, Dejan Lovren marcou mais um, e o Liverpool venceu o Dortmund por 4 a 3 na primeira pulsante noite europeia de Anfield sob o comando de Klopp.

15/05/2016: Oitavo lugar

Jürgen Klopp, técnico do Liverpool (Foto: Getty Images)

A primeira temporada de Klopp passou bons sinais, mas os resultados na Premier League não foram brilhantes. Muitos pontos que pareciam certos foram desperdiçados. Vantagens de dois gols de diferença acabaram dizimadas por Sunderland, Southampton e Newcastle. O empate por 1 a 1 contra o Chelsea, no jogo que o clube estava devendo e perdeu a chance de se classificar à Champions League por meio da liga inglesa. Havia uma chance de terminar entre os sete e jogar pelo menos a Liga Europa, mas o empate com o West Brom na rodada final deixou os Reds em oitavo, dois pontos atrás do West Ham. Para ter competições europeias, o Liverpool teria que vencer o Sevilla, em Basel, no jogo que valia o título da Liga Europa.

18/05/2016: Apenas o começo

Alberto Moreno não foi nada bem em Basel.

Daniel Sturridge abriu o placar, com um chute maravilhoso com a parte de fora do pé, na primeira final europeia do Liverpool desde Atenas, em 2007. Não demorou, porém, mais do que 30 segundos para o Sevilla empatar depois do intervalo, com Mariano aproveitando uma péssima ação defensiva de Alberto Moreno e cruzando para Kevin Gameiro. Coke fez mais dois gols para os espanhóis, leões desta competição. Depois da meia-noite e algumas bebidas, em um hotel em Basel, Klopp começou a cantar “We’re Liverpool!”. Passou aos jogadores a mensagem de que eles estavam no começo da jornada, não no final, e que eles deveriam tirar lições daquela derrota. Haveria mais finais. Após o oitavo lugar na Premier League, porém, não haveria futebol europeu na temporada seguinte, e Klopp tentou olhar pelo lado bom: “Não teremos jogos às quartas e às quintas, então temos que usar esse tempo para treinar e, com certeza, voltaremos mais fortes”.

28/06/2016: Corrigindo um erro

Sadio Mané, do Liverpool (Foto: AP)

 Quando estava no Borussia Dortmund, Klopp chegou a se reunir com Sadio Mané, ainda no Red Bull Salzburg, mas passou a chance de contratá-lo. Afirmou em uma entrevista ao documentário Made in Senegal, segundo o The Independent, que ele “parecia um rapper”, com o boné torto e uma mancha loira no cabelo. “Pensei: ‘Não tenho tempo para isso’. Nosso time não era ruim. Eu precisava de alguém que aceitasse não ser titular no começo, alguém que eu pudesse desenvolver. Eu tenho um bom instinto com pessoas, mas eu estava errado”, admitiu. Em outra entrevista, disse que não “sentiu” quando terminou a conversa com Mané. Com o orçamento mais apertado do Dortmund, podia contratar “apenas um, não dois ou três” e que não conseguia mensurar o que o Campeonato Austríaco “significava” para o futebol. Klopp seguiu acompanhando a carreira de Mané, que o levou ao Southampton, e quando surgiu a oportunidade de contratá-lo no Liverpool, aprovou imediatamente. “Eu cometi mais erros como esse em minha vida. Eu acho que ele teria sido mais caro se o tivéssemos contratado no Dortmund e depois ele teria sido vendido ao Liverpool, então tudo certo para o Liverpool”, brincou. “Minha primeira decisão no Liverpool, quanto mais penso nela, legal!”. Mané custou £ 34 milhões e foi o quinto jogador do Southampton a se mudar para Anfield nas últimas temporadas. De longe, o melhor.

08/07/2016: Primeira renovação

O primeiro contrato de Jürgen Klopp com o Liverpool tinha apenas dois anos e meio de duração. Terminaria ao fim da temporada 2017/18. A diretoria precisou de apenas nove meses para se convencer de que era muito pouco. Apesar de duas derrotas em finais e do oitavo lugar na Premier League, estava claro que ele havia transformado o clima do clube. O time teve momentos de excelente futebol, mesmo sem contratações relevantes. Era essencial minimizar as oscilações e cuidar da defesa, o que demandaria tempo. O novo vínculo lhe concedeu mais quatro anos.

26/07/2016: Implacável  

Sakho, do Liverpool (Foto: Getty Images)

Rei dos abraços, você nunca verá Klopp falando mal de um de seus atletas em público e nunca houve atleta falando mal dele. A administração de vestiário é seu ponto forte. Como diz, porém, é amigo dos jogadores, mas não o melhor amigo, e sabe ser implacável quando acha que a situação exige. Mamadou Sakho atrasou-se três vezes em uma turnê de pré-temporada para os Estados Unidos. Chegou tarde ao voo, a uma sessão de treino e a uma refeição. E foi mandado de volta para casa. “Tenho que construir um grupo aqui, começar algo novo, então pensei que fazia sentido que ele voltasse para Liverpool e, após oito dias, quando voltarmos, podemos falar sobre isso”, disse. “Temos algumas regras e precisamos respeitá-las. Se alguém não as respeita, ou me passa a sensação de não as respeitar, eu tenho que reagir”. Sakho nunca mais jogou pelo Liverpool. Suspenso por doping em abril, foi inocentando em agosto, mas passou o primeiro semestre da temporada no time reserva. Em janeiro, foi emprestado ao Crystal Palace, o qual, contratado em definitivo, defende até hoje.

10/09/2016: Anfield renovado

Anfield (Foto: Getty Images)

Um dos muitos paralelos que podemos traçar entre Jürgen Klopp e Bill Shankly é que ambos pegaram o clube em baixa e o desenvolvimento do time foi acompanhado por investimentos em estrutura. No caso de Shankly, foi mais uma revolução, mas, durante a Era Klopp, Anfield foi reformado para receber mais 8.500 pessoas. A nova Main Stand estreou na quarta rodada da Premier League de 2016/17, e o Liverpool fez uma festa à altura goleando o Leicester por 4 x 1. Uma segunda extensão pretende levar a capacidade total além das 60 mil pessoas e estava prevista para terminar em 2022. A pandemia adiou o prazo em um ano. Também há o plano de trocar o lendário Centro de Treinamento de Melwood por modernas instalações em Kirkby, onde ficam as categorias de base, em busca de mais integração entre o time principal e os jovens. A mudança estava marcada para a próxima temporada (2020/21), mas também pode ser adiada por causa da pandemia.

25/10/2016: Mais um scouser

O mural de Trent Alexander-Arnold perto de Anfield (Foto: Reprodução/Liverpool Echo)

Em um clube tão próximo de sua comunidade, ter um jogador nascido e crescido na cidade sempre foi um elemento especial do Liverpool. Como Chris Lawler, Tommy Smith e Ian Callaghan. A saída de Gerrard deixou esse vácuo, e ele seria preenchido por Trent Alexander-Arnold. A sua estreia, como a de muitos jovens, foi na Copa da Liga Inglesa, com 68 minutos contra o Tottenham. Menos de três meses depois, Jürgen Klopp o chamou e perguntou: “Está pronto?”. “Eu fiquei confuso. Ele disse: ‘Está dentro?’. Eu disse ‘sim, sim’. E ele disse: ‘Ok, eu preciso que você comece hoje’. Ele disse que meu queixo caiu. Foi como eu me senti. Eu fiquei chocado. Voltei para meu quarto e liguei para a minha mãe e ela começou a chorar. Todos tentaram me ajudar”, contou. Requintes de crueldade: o primeiro jogo como titular de Alexander-Arnold pela Premier League seria contra o Manchester United. Empate por 1 a 1, mas Arnold atuou os 90 minutos. Ainda precisou de um tempo para se desenvolver e, a partir de 2018, seria titular absoluto da lateral direita – e um dos melhores do mundo na posição.

04/02/2017: O pior dos meses 

O Liverpool encerrou 2016 em segundo lugar, vencendo o Manchester City, por 1 x 0, a seis pontos do líder Chelsea, e nas semifinais da Copa da Liga Inglesa. O mês de janeiro da primeira temporada de Klopp havia sido ruim. O da segunda foi pior. A única vitória foi contra o Plymouth, da quarta divisão. Foram três derrotas consecutivas em Anfield, o que não acontecia desde 2012, eliminações para o Southampton, na Copa da Liga, e para o Wolverhampton, na Copa da Inglaterra, além de cinco jogos sem vitória pela Premier League. E não é que o calendário era difícil: perdeu para o lanterna Swansea, empatou com o Sunderland, que seria rebaixado, e foi derrotado pelo Hull City, já em fevereiro, outro que cairia para a segunda divisão. Os resultados melhoraram apenas em março, altura em que o Liverpool estava eliminado das duas copas e a 14 pontos da liderança no Campeonato Inglês. Não haveria título naquela temporada.

21/05/2017: De volta à Europa 

Coutinho renova com o Liverpool

O Liverpool perderia apenas uma vez a partir de março e se solidificou entre os quatro primeiros colocados, mas um empate na antepenúltima rodada contra o Southampton garantiu certo suspense na reta final. O Arsenal estava apenas um ponto atrás e duas vitórias seriam necessárias para não correr riscos de ficar fora de mais uma temporada da Champions League. Elas vieram, e com classe: 4 a 0 sobre o West Ham e, no último fim de semana, um 3 a 0 sobre o Middlesbrough. Na hora decisiva, o Liverpool subiu de rendimento e carimbou a vaga tão necessária para o seu desenvolvimento. Coutinho, de contrato renovado, fez três gols nessas duas partidas. Em sua primeira temporada completa, Klopp havia inserido o clube no grupo de elite da Inglaterra.

22/06/2017: Salah chega, mas e o Mané?

Klopp abraça Salah, do Liverpool (Foto: Getty Images)

Havia dúvidas sobre a chegada de Mohamed Salah. Dependendo da cotação considerada, ele superou as £ 35 milhões pagas por Andy Carroll, a contratação mais cara da história do Liverpool até aquele momento. A passagem apagadíssima pelo Chelsea levantava sobrancelhas. Era nele que esse tipo de investimento deveria ser feito? Klopp, segundo o The Athletic, tinha Julian Brandt, então no Bayer Leverkusen, como primeira opção, mas foi convencido pela equipe de recrutamento a apertar o gatilho com Salah. Especialmente por Michael Edwards, o homem do laptop que foi de analista a diretor de futebol e teve papel importante na maioria dos bons negócios do Liverpool nos últimos cinco anos. “Tínhamos certeza que ele poderia nos ajudar. Michael Edwards, Dave Fallows (chefe de recrutamento) e Barry (Hunter, olheiro-chefe) ficaram no meu ouvido, ‘Vamos lá, vamos lá, Mo Salah, ele é a solução!’. Quando você tem 20 jogadores na mesa, jogadores diferentes, é difícil tomar uma decisão tão cedo, mas estávamos todos convencidos”, disse, ao Express. Desde que saíra do Chelsea, Salah havia tido boas temporadas na Roma, quase sempre pelo lado direito. Em Anfield, porém, aquela posição tinha dono. “Minha primeira pergunta para Klopp foi: ‘E o Mané?’. Porque estávamos jogando na mesma posição, mas ele disse que Mané jogaria pela esquerda”, disse Salah. Mané na esquerda, Salah na direita, Firmino pelo meio. O Liverpool havia formado seu ataque.

11/08/2017: Coutinho quer sair

Coutinho, do Liverpool (Foto: Getty Images)

Horas depois de os donos do Liverpool emitirem um comunicado garantindo que Philippe Coutinho não seria vendido naquela janela de transferências, prática pouco comum que evidenciou o peso que aquela novela havia ganhado, o diretor Michael Edwards recebeu um e-mail do jogador com um pedido formal para ser negociado com o Barcelona. A abordagem catalã foi agressiva e, àquela altura, duas propostas haviam sido recusadas. Havia vários motivos para fazer jogo duro. Em janeiro, Coutinho havia assinado um novo contrato de cinco anos que deveria valer para alguma coisa. Além disso, e talvez mais importante, o Liverpool não queria mais ser visto como clube vendedor, após perder Fernando Torres, Luis Suárez e Raheem Sterling em sequência. O desenvolvimento técnico sob o comando de Klopp tinha que ser acompanhado pela capacidade de segurar seus principais jogadores. Os donos sabiam que a venda não pegaria bem com a torcida e eram os mais resistentes a conversar com o Barça. Coutinho teve dores nas costas que o tiraram de todos os jogos do Liverpool em agosto. Não o impediram, porém, de viajar para Porto Alegre e disputar meia hora contra o Equador, pela seleção brasileira, cinco dias depois de ser desfalque contra o Arsenal.

22/10/2017: Ponto de inflexão

Lovren, do Liverpool (Foto: AP)

O placar de Wembley marcou 30 minutos, e partida havia acabado para Dejan Lovren, substituído por Oxlade-Chamberlain. Havia sido no mínimo mole no primeiro gol do Tottenham e falhado de fato no segundo. O Liverpool levou 4 a 1 naquela tarde e chegou à nona rodada da Premier League em nono lugar. Havia sofrido 16 gols – além de quatro do Spurs, cinco do Manchester City -, pior marca do clube nesta etapa de um Campeonato Inglês desde 1964. Jürgen Klopp ficou tão possesso que sua entrevista pós-jogo foi uma das raras ocasiões em que criticou com veemência os seus jogadores em público. “Se eu estivesse em campo de tênis, o primeiro gol não teria acontecido”, disse. “Foi ruim. Ruim. Ruim. Ruim. No primeiro gol, tínhamos que afastar a bola, no segundo, Dejan errou a bola. O terceiro gol, outro presente. O desejo deles foi maior que o nosso. Como defendemos naquelas quatro situações não foi bom o suficiente”. Aquele foi um ponto de inflexão para o Liverpool, como descreveu o goleiro Simon Mignolet, e um chacoalhão, segundo Lovren. A chegada de um zagueiro dominante, três meses depois, ajudou bastante no restante da temporada, mas, quando Virgil Van Dijk estreou, o Liverpool estava há 13 rodadas invicto, tendo sofrido apenas nove gols. Com os mesmos jogadores que haviam sido goleados pelo Tottenham.

05/01/2018: O colosso

Van Dijk, do Liverpool (Foto: Getty Images)

Em 1961, Bill Shankly buscou na Escócia dois homens que dariam ao Liverpool, ainda na segunda divisão, o impulso não apenas para retornar à elite, mas também para voltar a ser campeão. Um deles foi o atacante Ian St. John. O outro, um colosso, como ele descreveu Ron Yeats ao apresentá-lo aos jornalistas. “Deem uma volta em torno do meu zagueiro!”, convidou. Yeats era um homem alto, imponente e forte, competente na bola aérea e um líder, tanto que em pouco tempo se tornou capitão. Por coincidência, ou simples releitura pós-moderna, o projeto de Jürgen Klopp também decolou assim que ele contratou o seu próprio colosso. Durante a janela do verão europeu, Klopp e seus analistas haviam identificado Virgil Van Dijk como o reforço ideal. Ele tinha muitas das características de Yeats, ajustadas para a inflação, e era cotado em outros clubes do país, como o Manchester City. No entanto, o Liverpool cometeu um erro. Reuniu-se com o jogador antes de ter a permissão do Southampton e precisou recuar ao ser denunciado à Premier League. Emitiu um comunicado em que dizia – mentia – que o seu interesse pelo jogador estava encerrado. A partir de então, os diretores vermelhos trataram de reconstruir as pontes com os diretores vermelhos e brancos, que haviam negociado entre si meia dúzia de jogadores nas últimas temporadas. A transferência foi noticiada pelos veículos ingleses nos últimos dias do ano e anunciada oficialmente em 1º de janeiro de 2018. Quatro dias depois, a personalidade de Van Djjk foi testada. Com pouco tempo de clube, começou jogando o dérbi contra o Everton pela Copa da Inglaterra. Tirou 10: teve não apenas uma atuação defensiva soberba como também fez o gol da vitória, aos 39 minutos do segundo tempo. E fez Klopp engolir as próprias palavras. Criticando o quanto o Manchester United havia pago por Pogba, chegou a dizer que “abandonaria o futebol” quando tivesse que pagar £100 milhões em um jogador. Van Dijk chegou  perto. “Melhor mudar de opinião do que não ter opinião”, defendeu-se.

07/01/2018: O pequeno mágico vai embora

Philippe Coutinho, do Barcelona (Photo by Alex Caparros/Getty Images)

O Liverpool tentou, pelo relato de Jürgen Klopp e da imprensa que cobre o clube de perto, tudo que era possível para convencer Coutinho a ficar pelo menos até o fim da temporada. Não deu. O brasileiro estava irredutível, absolutamente convencido que aquele era o momento de realizar o seu sonho de defender o Barcelona. Não poder jogar o restante da Champions League era o preço que ele estava disposto a pagar. Parecia desanimado nos vestiários e, em certo momento, Klopp teve a certeza de que não poderia mais contar plenamente com ele. E, se não podia, era melhor que saísse. “Foi esta a decisão que eu tive que tomar: faz sentido, eu acho que ainda posso usá-lo, ele ainda pode nos ajudar? Para ser honesto, estava 100% claro que não havia chance. Era claro que ele não estava pronto para continuar fazendo isso. Em certo momento, temos que aceitar, e foi isso que fizemos”, afirmou. Aceitar ficou mais fácil quando o Barcelona elevou a proposta para £ 140 milhões, segundo maior negócio da história na época, atrás de Neymar. O Liverpool, vendendo ou não Coutinho, poderia ser processado por negligência futebolística se tivesse adiado os investimentos na defesa mais do que adiou, mas esse valor representa o que foi pago por Van Dijk e Alisson. Taticamente, a equipe se reorganizou e deu um passo à frente, embora às vezes tenha faltado a imprevisibilidade pela qual Coutinho era responsável. Mas justamente pela capacidade de tirar coelhos na cartola quando a coisa apertava, era a ele que passavam a bola. Então, paradoxalmente, ele também tornava o Liverpool mais previsível. “Era meio que uma solução dar a bola para ele. Não temos mais que buscar isso. Pode nos tornar mais imprevisíveis”, analisou Klopp. Havia sido também uma questão nos últimos seis meses como encaixar Coutinho junto com o trio de ataque. Foi quando surgiu a ideia de usá-lo no meio-campo. Klopp e Tite a testaram. Mas Coutinho não pressionava tanto ou era tão forte quanto o meio-campo do Liverpool viria a ser, com muito sucesso.

10/04/2018: Três revanches 

Klopp e Guardiola

Quando o Liverpool melhorou sua defesa, era tarde demais. O Manchester City estava em meio à melhor campanha da história da Premier League (até aquele momento) e chegou ao confronto direto, em Anfield, com 20 vitórias, dois empates e 18 pontos à frente. Mas faltou uma caneta para anotar a placa: Chamberlain, Firmino, Mané e Salah fizeram 4 x 1 para os donos da casa, na metade do segundo tempo. O City ainda conseguiu descontar para 4 x 3, mas havia perdido a possibilidade de ser campeão invicto. Três meses depois, um novo encontro, e Klopp fez justiça ao papel de grande rival de Pep Guardiola. Outra ampla vitória em Anfield, por 3 a 0, no jogo de ida das quartas de final da Champions League. O retorno, no Etihad Stadium, teve uma arbitragem polêmica e terminou com uma terceira vitória dos Reds. Nada mal para quem havia levado 5 a 0 no primeiro encontro daquela temporada.

24/04/2018: A taxa Salah

Salah, do Liverpool (Foto: Getty Images)

Não serviu de muito consolo à Roma quando Mohamed Salah, aos 36 minutos do primeiro tempo, levantou os braços, recusando-se a comemorar o primeiro gol que marcaria na semifinal da Champions League, com um chute colocado no ângulo de Alisson. Em negociações pelo goleiro brasileiro, o Liverpool suspeitou que a Roma estivesse cobrando um valor extra porque havia concluído que vendera Salah barato demais alguns meses antes – a “taxa Salah”. O egípcio fazia a temporada da sua vida. O segundo gol contra a Roma, no apagar das luzes do primeiro tempo foi seu 43º na temporada. Terminaria com 44. E o Liverpool abriria 5 a 0 sobre os italianos na sua primeira semifinal desde 2007. Os gols de Dzeko e Perotti, nos dez minutos finais, mantiveram algum suspense para o jogo de volta e o sinal amarelo ligado de que a solidez defensiva do Liverpool ainda não era a ideal. De qualquer maneira, a derrota por 4 a 2 no Olímpico não impediu que os Reds alcançassem sua oitava final europeia.

13/05/2018: Missão cumprida

O Liverpool não queria viajar para Kiev para enfrentar o Real Madrid como havia feito naquela final de Liga Europa, dois anos atrás, pressionado não apenas para ser campeão, mas também para garantir classificação à Champions League, tão importante para a contabilidade. O meio da Premier League do Liverpool havia sido excelente, mas o começo ruim e uma sequência de apenas uma vitória em cinco rodadas na reta final significaram que ainda havia trabalho ser feito na última rodada. O Chelsea, quinto colocado, estava dois pontos atrás. Com vantagem no saldo de gols, um empate era suficiente, mas o Liverpool fez questão de entrar no avião com a moral lá em cima e goleou o Brighton por 4 x 0. Pela primeira vez desde 2009, disputaria a Champions League duas vezes seguidas.

26/05/2018: Quando tudo dá errado

Klopp, do Liverpool (Foto: Getty Images)

O Real Madrid era bicampeão europeu, e aproveitou suas chances com a maturidade de quem está acostumado a vencer, mas quantas coisas podem dar errado em uma única final? Aos 31 minutos do primeiro tempo, derrubado por Sergio Ramos, Salah, melhor jogador do Liverpool na temporada, precisou ser substituído por Adam Lallana. Depois de levar uma pancada na cabeça de…. Sergio Ramos, Loris Karius entregou a bola nos pés de Benzema para o primeiro gol do Real Madrid. Sadio Mané ainda conseguiu empatar e dar um pouco de esperança aos ingleses, mas Gareth Bale, que havia entrado três minutos antes, conseguiu fazer um gol de bicicleta da entrada da área. Depois, com outro chute de média distância, e outra falha de Karius, matou a partida: 3 a 1.

27/05/2018: “Vimos a Copa da Europa e vamos trazê-la de volta a Liverpool”

Jürgen Klopp, técnico do Liverpool (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images,)

A reação de Klopp à derrota para o Real Madrid foi parecida com a de dois anos antes, contra o Sevilla: não era o fim do caminho, apenas mais um passo da jornada.  Nem o fato de que havia perdido a sexta final consecutiva abalou o seu espírito. Ele até fez piada sobre isso. “Quando perdemos para o Real Madrid, ele me disse: ‘Não chore. Imagine como eu me sinto perdendo seis finais!’. Ele sempre disse que teríamos outra chance”, contou Dejan Lovren. As declarações públicas seguiram um tom parecido. Klopp brincou que era o único membro de sua família que não havia chorado, que tinha que aceitar que houve um time um pouco melhor, com um pouco mais de sorte, e que tentaria voltar à final para reverter sua sorte. Alguns meses depois, abriu o coração: “Eu não acho que Salah sempre se machucaria naquela situação. Desta vez, foi azar, mas é uma experiência que não podemos ter. Não tenho certeza que teremos essa experiência novamente. Enfiar o cotovelo no goleiro, derrubar o artilheiro como um lutador de luta livre no meio-de-campo e ganhar o jogo. Essa foi a história do jogo“, disse, em reação às peripécias de Sergio Ramos. “Em uma final, você precisa de um pouco de sorte e não tivemos. Eles tiveram sorte em várias situações. Eles marcaram um gol de bicicleta! Claro que isso foi sorte. Todos sabemos que Bale é capaz de fazer aquilo, mas ele provavelmente coloca mais bolas nas arquibancadas do que no gol daquela situação”. Às 6h da manhã do dia seguinte à partida, foi filmado abraçado com o cantor de uma banda alemã, seu assistente Peter Krawietz e um jornalista alemão, com o boné para trás, uma canção e uma promessa no coração: “Vimos a Copa da Europa. Madrid teve toda a p*** da sorte. Vamos continuar tranquilos e trazê-la de volta a Liverpool”.

28/05/2018: Fabinho é contratado

Fabinho, que saiu do Monaco para o Liverpool (Foto: divulgação)

Apenas horas depois das primeiras notícias saírem na imprensa, o Liverpool anunciou a contratação do volante brasileiro Fabinho, campeão francês pelo Monaco. Uma situação estranha em uma época em que a maioria das contratações são especuladas por meses. O jogador foi o escolhido para repor a saída de Emre Can que, ao fim de seu contrato, se transferiu à Juventus. Klopp o via capaz de atuar como volante, meia ou lateral direito. “Ele é taticamente muito forte e futebolisticamente esperto. Acho que ele melhora nosso time e você não pode dizer isso de muitos jogadores neste momento, porque a qualidade que temos é muito alta. Eu gosto que ele seja jovem, mas também experiente, com um alto número de partidas em um clube que compete para vencer. Além disso, tem partidas pela seleção brasileira, o que diz algo sobre ele”, disse. Com a chegada de Naby Keita, garantido do RB Leipzig há um ano, o meio-campo era fortalecido com características diferentes após a saída de Coutinho. Nabil Fekir, então capitão do Lyon, chegou a dar entrevista ao site do Liverpool e posou para fotos, mas a cúpula do futebol decidiu abortar a negociação no último segundo. Estava preocupada que o jogador não havia se recuperado direito de uma séria lesão no joelho.

05/06/2018: Heavy metal melódico

Pep Lijnders (Foto: Divulgação)

Klopp listou os auxiliares com os quais queria trabalhar quando chegou ao Liverpool, mas ouviu de Mike Gordon, presidente da FSG, que ele precisava manter Pep Lijnders, que vinha comandando os treinos desde a demissão de Brendan Rodgers, que o havia promovido dos times da base. Gordon havia prometido a Lijnders que ele permaneceria e a Klopp que a nova relação daria certo. Dois meses depois, Klopp ligou para Gordon: “Você estava completamente errado quando disse que eu gostaria de Pep. Eu não gosto de Pep. Eu o amo!”, contou Lijnders em uma entrevista ao The Athletic. Os dois se separaram brevemente em janeiro de 2018. Lijnders gostava do seu trabalho, mas não resistiu à tentação de iniciar sua carreira de treinador principal ao receber proposta do NEC, da segunda divisão holandesa. Não foi mal. Terceiro lugar, perdeu o acesso para o Emmen, nos playofffs. Mas sairia de qualquer jeito. Em abril, o fiel tenente de Klopp, Zeljko Buvac, ao seu lado desde o Mainz, saiu do clube, uma história ainda não muito bem explicada – a separação foi oficialmente creditada a “problemas pessoais”, mas há também relatos de que ele estava perdendo espaço. Klopp ligou para Lijnders e o convidou para ser seu novo número 2. Estava tudo certo antes da final em Kiev. Coincidência ou não, o Liverpool teve uma sensível mudança de estilo a partir de seu retorno. O futebol heavy metal de Klopp ganhou alguns acordes melódicos. Não era mais aceleração total o tempo inteiro, o que o deixava vulnerável mesmo em vantagem no placar. O Liverpool melhorou no controle das partidas, na manutenção da posse de bola e criou mais armas para atacar adversários fechados. O próprio Lijnders explica: “Se estamos vencendo por 3 x 0, queremos continuar sendo dominantes. Vamos buscar o quarto gol, mas a maneira pela qual o faremos pode ser diferente de quando buscávamos o 1 x 0 ou o 2 x 0. Podemos fazer mais passes, mudar a jogada de um lado para o outro, criar mais dúvidas para os adversários. Ficamos melhores com a bola porque os times se organizam diferente contra nós. Eu diria que 75% da Premier League, mesmo os grandes, mudaram seu sistema para jogar conosco nesta temporada – linhas mais próximas, defesa mais recuada. Podemos, então, atacar, atacar, atacar? Não. Não podemos. Temos que respeitá-los e achar uma outra maneira. É por isso que a variedade é tão importante. O que gosto do nosso jogo é que temos muitas armas diferentes. Os times não podem simplesmente recuar contra nós porque Trent e Robertson vão aparecer nas pontas e temos os zagueiros avançando e criando espaço. Sabemos que, se tudo isso estiver presente, nossa mentalidade e a de Jürgen e dos rapazes nos colocarão acima de qualquer outro time”.

10/07/2018: Fim da linha para Karius

Karius chorou e pediu desculpas à torcida depois do jogo (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images) 

Cada um tem seus contatos e, no caso de Jürgen Klopp, foi Franz Beckenbauer quem o alertou que Loris Karius poderia ter sofrido uma concussão durante a final da Champions League, graças à delicadeza de Sergio Ramos. Cinco dias depois do jogo, o goleiro alemão visitou um hospital de Massachusetts, nos Estados Unidos, e foi diagnosticado com 26 dos 30 sinais de concussão. “Não usamos isso como desculpa. Usamos como explicação. Ele foi influenciado por aquela pancada, 100%”, disse Klopp ao site do Liverpool. A novidade fez o treinador ponderar dar mais uma chance a Karius, mas, com ou sem concussão, a confiança do goleiro havia desaparecido. Mais atuações nervosas na pré-temporada, como uma falha feia em amistoso contra o Tranmere Rovers, convenceram o Liverpool a ligar mais uma vez para Monchi, diretor da Roma.

19/07/2018: Enfim, a solução

Alisson, do Liverpool

Problemas com goleiros eram uma novidade para o Liverpool. Durante 40 anos, basicamente precisou apenas de três: Tommy Lawrence, Ray Clemence e Bruce Grobbelaar. Depois de Grobbelaar, digamos que acertou pouco. Deu a camisa 1 para nomes como David James, Jerzy Dudek e Pepe Reina, nenhum entre os melhores do mundo da posição. Quando Reina saiu, o nível caiu um pouquinho mais. Mignolet teve seus momentos, mas nunca foi confiável, e Karius não se firmou. O preço de ter negligenciado a posição durante tantos anos foi pago por Alisson. E olha que o Liverpool barganhou. A primeira pedida da Roma era € 100 milhões. O valor foi caindo, apesar da concorrência do Real Madrid e do Chelsea. A negociação acabou sendo fechada em € 75 milhões, com as variáveis. Por um breve momento, antes de Kepa ir ao Chelsea, foi o goleiro mais caro da história. “Eu acho que era algo que precisávamos fazer. Ele não tem nada a ver com o preço, nós não temos nada a ver com o preço, é o mercado, é o que é, e não vamos pensar muito nisso”, disse Klopp. Alisson não demoraria nada para se pagar.

11/12/2018: A defesa de milhões de euros

Alisson defende contra Milik

Alisson teve um começo normal no Liverpool. Fez algumas defesas decisivas e cometeu alguns erros. Se ainda havia alguma dúvida de que o dinheiro investido em seus serviços valia a pena, ela foi dissipada em dezembro. A campanha na fase de grupos da Champions League de 2018/19 não foi muito boa. Ganhou os dois jogos em casa, perdeu os três como visitante. Chegou à última rodada precisando vencer o Napoli por 1 a 0 ou por dois gols de diferença para passar como segundo colocado, nos critérios de desempate. Estava vencendo pelo placar mínimo, gol de Salah, até os minutos finais. Milik ficou cara a cara com Alisson. O gol que eliminaria o Liverpool. E Alisson defendeu. A defesa do goleiro de milhões de euros que valeu milhões de euros porque impediu que a campanha europeia do clube terminasse cedo demais. E, depois daquela defesa, a campanha europeia não terminaria mais.

03/01/2019: Onze milímetros

Ainda não dava para saber, era começo de janeiro, mas 11 milímetros fariam muita diferença na briga pelo título. Confronto direto no Etihad Stadium, o Liverpool tinha sete pontos de vantagem. Mané recebeu de Salah na marca do pênalti e bateu cruzado. A bola bateu no pé da trave esquerda e voltou. Mané preparava-se para o rebote, e Stones se desesperou. Chutou em direção à cabeça de Ederson. A bola voltou e estava cruzando a linha quando Stones se redimiu e a cortou em cima da linha. A tecnologia mostrou que ela realmente não havia entrado. Por 11 milímetros. Agüero dominou e bateu forte para fazer 1 a 0, no fim do primeiro tempo, e Firmino empatou. Leroy Sané, com um chute cruzado, fez 2 a 1 para o Manchester City. O Liverpool chegava ao fim de uma sequência de nove vitórias seguidas e tirou apenas um ponto dos jogos contra seu principal competidor pelo título que não conquistava desde 1990. O City havia somado quatro.

06/05/2019: Ainda não era a hora

Kompany, do Manchester City (Foto: Getty Images)

Apesar da derrota, o Liverpool manteve quatro pontos de vantagem para o Manchester City e não perderia até o fim do campeonato. Acabou anotando 97 pontos, segunda melhor campanha da história da Premier League. Ou melhor, a terceira. O Manchester City venceu 16 dos 17 jogos restantes e contou com quatro empates dos Reds para terminar um ponto à frente. A última chance na penúltima rodada. O Liverpool havia vencido o Newcastle por 3 x 2, graças a um gol salvador de Origi, e o City tinha um difícil desafio contra o Leicester de Brendan Rodgers dois dias depois. Estava 0 a 0 até os 25 minutos do segundo tempo, quando o capitão Vincent Kompany deu um chute de muito longe. “Eu conseguia ouvir todo mundo dizendo ‘não chute, não chute’. Foi chato para mim. Não cheguei tão longe na carreira para jovens jogadores me dizerem se posso ou não chutar uma bola. E eu simplesmente chutei”, contou o zagueiro. Kompany havia dado 36 chutes de fora da área na Premier League sem fazer um gol. Naquela segunda-feira, fez o gol do título do Manchester City. Na partida final, o Liverpool venceu o Wolverhampton. O City, porém, fez 4 a 1 no Brighton.

07/05/2019: A maior noite europeia de Anfield

Origi, do Liverpool, comemora com companheiros (Foto: Getty Images)

“São 22h10, as crianças provavelmente estão na cama, mas esses caras tiveram uma mentalidade de gigante do caralho (tradução adaptada), foi incrível, incrível, podem me multar, não sou nativo, então não tenho palavras melhores, foi incrível”. Foi incrível. Foi mais do que incrível. Foi a maior noite europeia da história de um estádio famoso por noites europeias. Esta era a situação: o Liverpool havia feito uma boa partida no Camp Nou, mas o Barcelona tem um camisa 10 muito bom chamado Lionel Messi que arrebentou nos minutos finais da partida. Derrota por 3 a 0. Salah e Firmino eram desfalques. Sem dois dos seus principais atacantes, precisava fazer quatro gols. Contra Messi, não podia sofrer nenhum. Com poucas chances na Premier League, era grande a probabilidade de Klopp terminar sua quarta temporada pelo Liverpool sem títulos. “O mundo lá fora está dizendo que é impossível. E vamos ser francos, é provavelmente impossível. Mas porque são vocês? Porque são vocês, temos uma chance” foi a preleção. Origi pegou rebote e fez 1 x 0. Wijnaldum pisou a área duas vezes, depois de ter entrado no lugar de Robertson, machucado, no intervalo, e marcou duas vezes. Aquele placar valia a prorrogação. Aos 34 minutos da etapa final, Trent Alexander-Arnold teve um escanteio para bater. Parecia que deixaria a cobrança para Shaqiri, mas percebeu Origi livre na pequena área. Retrocedeu, bateu rasteiro, e Origi completou. O Liverpool, sem dois dos seus principais atacantes, fez quatro gols. Contra Messi, não sofreu nenhum. E pela segunda vez seguida, os gigantes mentais estavam na final da Champions.

01/06/2019: Let’s talk about six, baby

Klopp levanta a taça da Champions League pelo Liverpool (Foto: Getty Images)

Talvez o que melhor ilustre a diferença de abordagem do Liverpool de uma final para a outra é que Klopp deu a preleção do jogo contra o Tottenham, em Madri, com uma cueca do Cristiano Ronaldo esticada até os mamilos. “É verdade. Alguns anos trás, comprando cuecas, eu peguei uma do Ronaldo. Eu ainda tenho, mas não uso desde a final. Foi engraçado. Eu parecia engraçado”, confirmou, ao Bild. Segundo Georginio Wijnaldum, o dedo-duro que denunciou Klopp ao The Athletic, foi a maneira que o treinador encontrou para quebrar o gelo e deixar os jogadores mais relaxados. Se na temporada anterior ninguém apostaria que o Liverpool chegaria à final, e o adversário era o então bicampeão, desta vez o feito parecia mais sólido. E contra um rival mais familiar como o Tottenham, o nervosismo seria naturalmente menor. Mané cavou um pênalti nos primeiros minutos. Salah converteu. Alisson fez algumas defesas importantes, e Origi selou o hexacampeonato europeu com um chute cruzado. O jogo foi ruim, mas Klopp estava cansado de finais emocionantes que ele acabava perdendo. “Não foi nosso melhor jogo, não foi o melhor jogo do Tottenham. Era uma final. Precisávamos aprender, como time, o que precisamos fazer para vencer esse tipo de jogo médio. Precisamos aceitar que, se não estivermos no nosso melhor, precisamos fazer outras coisas para vencer”, afirmou, alguns meses depois. Alívio foi o sentimento preponderante, depois de perder seis finais. No retorno a Liverpool, 750 mil pessoas abarrotaram as ruas da cidade com 491 mil habitantes – e 2,2 milhões na região metropolitana. O Liverpool estava no topo da Europa mais uma vez.

10/11/2019: Um gol inédito (para Klopp)

Mohamed Salah, do Liverpool (Divulgação)

O Liverpool começou muito bem a Premier League. Dez vitórias e um empate em 11 rodadas. O último jogo havia sido contra o Aston Villa quando a derrota parecia certa até os 42 minutos do segundo tempo quando Robertson empatou – e, depois, Mané virou. Ainda era o começo do campeonato, e o Manchester City distava seis pontos. As lembranças da temporada anterior eram suficientes para saber que seis pontos de diferença para um time capaz de ganhar 18 jogos consecutivos (como em 2017/18) ou 17 em 18 rodadas (como na segunda metade de 2018/19) eram nada. O Liverpool, porém, não precisava apenas aumentar a vantagem. Precisava também mostrar que, pelo menos naquela temporada, seria o melhor time. Fabinho abriu o placar aos cinco minutos com uma bomba de muito longe e, aos 13, Salah fez um gol que Klopp nunca havia visto. “O lateral direito deu um passe de 50 metros para o lateral esquerdo, dois toques, e um cruzamento de 35 ou 45 metros para a cabeçada. Foi bem especial”, disse. Mané fez 3 a 0 no começo do segundo tempo, e o Liverpool venceu por 3 a 1.

13/12/2019: O terceiro contrato

Jürgen Klopp de vínculo renovado com o Liverpool (Getty Images)

Não que fosse uma decisão difícil, mas depois de duas finais de Champions League, um título, uma Premier League muito bem encaminhada, e uma revolução em todos os âmbitos do clube, o Liverpool ofereceu a Klopp uma nova extensão em seu contrato. Antes de viajar ao Catar, o alemão firmou vínculo até 2024. “Para mim, é uma declaração de intenção, construída no conhecimento do que nossa parceria conquistou até agora e o que ainda podemos conquistar. Quando cheguei, em 2015, eu senti que éramos perfeitos um para o outro. Agora, sinto que subestimei isso. É apenas com total fé de que a colaboração continua totalmente complementar nos dois lados que sou capaz de me comprometer até 2024”, disse.

21/12/2019: Campeão do mundo

Henderson com a taça do Mundial de Clubes (Foto: Getty Images)

O Liverpool nunca havia sido campeão do mundo. Sequer disputou o torneio em seus dois primeiros títulos europeus nos anos setenta e perdeu do Flamengo e do Independiente na década seguinte. Depois de Istambul, foi derrotado pelo São Paulo. A nova chance pelo título inédito seria no Catar. Klopp deu prioridade à competição em relação à Copa da Liga Inglesa, na qual colocou um time jovem para apanhar do Aston Villa, e colocou todas as estrelas disponíveis no avião. Em campo, não chegou a atingir velocidade de cruzeiro em nenhuma das duas partidas. Arrastava-se à prorrogação na semifinal, quando Firmino fez o gol da vitória contra o Monterrey. Contra o Flamengo, correu alguns riscos. Perdeu chances no começo dos dois tempos que poderiam ter mudado a história da partida, mas, passivamente, permitiu que os brasileiros dominassem a posse de bola, mesmo sem criar muitas oportunidades. O duro 0 x 0 perdurou durante os 90 minutos. No tempo extra, Firmino, novamente, garantiu a vitória. O Liverpool era campeão da Europa e do Mundo.

26/12/2019: Boxing day

Trent-Alexander Arnold, do Liverpool, brilhou contra o Leicester (Getty Images)

Foi a última vez em que o Liverpool sentiu alguma pressão. Havia vencido o Flamengo cinco dias atrás e enfrentaria o segundo colocado Leicester no Boxing Day, logo depois do Natal. Tinha dez pontos de vantagem e um jogo a menos, mas era razoável a análise de que poderia chegar ao fim do ano em situação mais complicada. Se perdesse para as Raposas, ficaria sete à frente. Os cinco jogos seguintes seriam contra o Wolverhampton (duas vezes), especialmente competente contra os grandes, Tottenham, Manchester United e Sheffield United, que quase havia arrancado um empate no jogo do turno. O Manchester City também estava à espreita, e o Liverpool poderia estar cansado após a viagem ao Catar. Pois bem: Firmino marcou duas vezes, Milner fez de pênalti e Trent Alexander-Arnold fechou a goleada por 4 a 0. O Liverpool abriu 13 pontos para o Leicester, com um jogo a menos, e ainda ficaria 11 à frente do City, mesmo se o bicampeão vencesse o Wolverhampton, no dia seguinte. O City perdeu. E sabe aqueles cinco jogos difíceis? O Liverpool venceu todos eles.

19/01/2020: Vamos ganhar a liga

Salah e Alisson, do Liverpool (Foto: Getty Images)

É possível que parte da torcida do Liverpool tenha se convencido antes, e até cantado em alguns jogos, mas foi depois da vitória contra o Manchester United que ela finalmente soltou o grito há 30 anos preso na garganta. Van Dijk abriu o placar, aos 13 minutos, e muitas chances foram perdidas. O United chegou a sonhar, mas, nos acréscimos, Alisson deu uma assistência para Salah matar o jogo. E as arquibancadas cantaram a plenos pulmões: “Nós vamos ganhar a liga”.

29/02/2020: Fim da invencibilidade

Ismaila Sarr toca para marcar seu gol pelo Watford contra o Liverpool (Reprodução)

Apenas dois times foram campeões ingleses sem derrotas. O Preston North End, antes da descoberta da penicilina, e o Arsenal de 2003/04. O Liverpool, com 26 vitórias e um empate, caminhava para fazer o mesmo, mas, apesar de uma pausa de inverno, a gasolina finalmente começou a acabar entre fevereiro e março. Fez apenas 1 x 0 na frágil defesa do Norwich, sofreu mais do que seria razoável para ganhar do West Ham, perdeu o jogo de ida das oitavas de final da Champions League para o Atlético de Madrid e, então, a derrota na Premier League finalmente chegou. O Watford, na briga contra o rebaixamento, aproveitou um jogo particularmente ruim do Liverpool e venceu por 3 a 0. Na semana seguinte, vieram eliminações para o Chelsea, na Copa da Inglaterra, e para o Atlético. Sem outras ambições, a temporada se resumiu à contagem regressiva para o fim do jejum. E aí, a pandemia colocou tudo em compasso de espera.

25/06/2020: O melhor time da Inglaterra

Fabinho, do Liverpool contra o Palace (Foto: Divulgação/Liverpool)

Depois de 30 anos, houve mais três meses de espera, enquanto a Premier League discutia se era apropriado e seguro retomar as suas atividades em meio à pandemia de coronavírus. Houve alguns pedidos para que a temporada fosse anulada, o que deixou ainda mais nervosa uma torcida já ansiosa. O futebol acabou voltando, com portões fechados. A primeira partida do Liverpool foi o clássico contra o Everton, um terrível 0 a 0. Três dias depois, o adversário seria o Crystal Palace, há quatro jogos sem sofrer gol. E o Liverpool se reencontrou com o futebol que o fez campeão. Simplesmente eviscerou o adversário, não o deixou respirar e goleou por 4 a 0. Com a vitória, ganhou o primeiro match point. No dia seguinte, caso o Manchester City não vencesse o Chelsea, o título seria seu. Pulisic fez 1 a 0. O City precisava virar. De Bruyne empatou. Mais um gol e o título seria adiado. De novo. Pulisic driblou o goleiro e tocou para o gol vazio. Kyle Walker cortou em cima da linha. De novo em cima da linha. Título adiado. De novo. Aos 33 minutos do segundo tempo, Fernandinho tentou evitar um gol com a mão. Foi expulso e o Chelsea teve um pênalti. Willian cobrou. Willian marcou. E os céticos não eram mais apenas crentes. Eram, também, campeões.

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