Futebol inglês

‘Mais pode ser feito’: Por que astro do City não se ajoelha em campanha contra o racismo

Guéhi explica por que deixou de se ajoelhar e cobra novas iniciativas da Premier League e da associação de jogadores para combater a discriminação

Marc Guéhi, zagueiro do Manchester City, pediu que o futebol avance no combate ao racismo e questionou a eficácia de um dos principais gestos simbólicos dessa luta: ajoelhar-se antes das partidas. O defensor inglês não participou do ato antes da vitória por 3 a 2 sobre o Ipswich Town, no último sábado (17).

Ele explicou seus motivos nesta segunda-feira (19), em entrevista coletiva antes do compromisso do City contra o AEK Atenas, pela Champions League.

“Não tenho certeza, para ser sincero. A campanha e a mensagem continuam ali, o que é ótimo. Mas será que mais pode ser feito? Mais sempre pode ser feito. Temos que ver como podemos fazer a campanha avançar”.

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Por que Guéhi deixou de se ajoelhar antes dos jogos do Manchester City?

O jogador de 26 anos explicou que já não se ajoelha há algum tempo, mas ressaltou que continua reconhecendo a importância da iniciativa. Para ele, a luta contra a discriminação não pode ficar restrita ao futebol, embora o esporte tenha alcance suficiente para ajudar a disseminar a mensagem.

“Não acho que seja necessariamente um problema do futebol. É um problema da sociedade como um todo, e o futebol é esse farol de esperança para tentar espalhar a mensagem”, afirmou.

O defensor também defendeu uma atuação conjunta entre a liga inglesa e a Professional Footballers' Association (PFA), entidade que representa os jogadores profissionais na Inglaterra.

Guéhi no Manchester City (Foto: Sportimage/IMAGO)

A manifestação de Guéhi ocorreu durante o fim de semana dedicado à campanha No Room for Racism (Sem Espaço para o Racismo), que promove ações contra a discriminação no futebol inglês. Além do zagueiro, Dominic Calvert-Lewin, do Leeds United, e Issa Diop, do Ipswich Town, também optaram por permanecer em pé antes de suas partidas. A decisão de cada atleta, porém, não representa necessariamente uma rejeição à causa antirracista.

Questionado diretamente sobre a possibilidade de o gesto ter perdido seu significado ao longo dos anos, Guéhi admitiu que essa é uma interpretação possível. O defensor, no entanto, fez questão de separar sua decisão individual do apoio à campanha.

“Talvez (tenha perdido o significado). Eu já não me ajoelho há algum tempo. Sempre vou aplaudir por causa do que isso significa”, explicou.

O gesto ganhou força no futebol inglês em 2020, durante a retomada das competições após a paralisação provocada pela pandemia de Covid-19. Naquele período, jogadores passaram a se ajoelhar antes das partidas em apoio ao movimento Black Lives Matter, que ganhou projeção internacional após o assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis, nos Estados Unidos.

A manifestação tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis da mobilização antirracista no esporte. Inicialmente realizada antes de todas as partidas da Premier League, a prática foi modificada em 2022, quando os capitães dos clubes decidiram, após consultas entre jogadores, concentrar o gesto em ocasiões específicas da temporada. A mudança buscou preservar a relevância da manifestação e evitar que sua repetição constante reduzisse o impacto simbólico.

Em outubro, ajoelhar-se volta a fazer parte de duas rodadas dedicadas à campanha, junto ao Mês da História Negra no Reino Unido. A iniciativa não se limita ao gesto antes do apito inicial: a Premier League também promove ações educativas, mensagens nos estádios e medidas para enfrentar episódios de discriminação, inclusive nas redes sociais.

A discussão sobre a eficácia do ajoelhamento, portanto, não é nova. Nos últimos anos, outros jogadores também questionaram se a repetição do gesto seria suficiente para produzir mudanças concretas. O debate coloca em evidência a diferença entre demonstrar publicamente oposição ao racismo e desenvolver mecanismos capazes de prevenir, investigar e punir comportamentos discriminatórios.

Guéhi pede novas medidas e defende o papel do futebol na sociedade

Guehi pela Inglaterra. Foto: IMAGO / APL

Ao comentar a campanha, Guéhi não afirmou que o ajoelhamento deva ser abandonado por todos. Sua principal cobrança foi por iniciativas adicionais, capazes de transformar a visibilidade do movimento em avanços mais amplos.

“Espero que algo possa ser feito. Espero que possamos fazer um pouco mais. Com sorte, a mensagem continua chegando às pessoas, o que é o mais importante”, disse o zagueiro.

O defensor também apontou a importância de uma ação conjunta com a PFA e a Premier League. A cobrança ocorre em um momento no qual a liga mantém a campanha antirracista como parte de sua estratégia institucional, mas continua enfrentando casos de abuso contra jogadores, tanto nos estádios quanto no ambiente digital.

A posição de Guéhi ilustra uma discussão que vai além da escolha individual. O gesto continua sendo uma demonstração pública de solidariedade para muitos atletas, mas outros consideram que a campanha precisa ser acompanhada por ações mais efetivas para manter sua relevância.

A mensagem central de Guéhi não é de afastamento da luta antirracista, mas de cobrança por resultados mais amplos. Para o zagueiro do Manchester City, o futebol tem condições de ajudar a combater um problema que atravessa toda a sociedade, desde que a mobilização simbólica seja acompanhada de esforços contínuos para produzir mudanças.

A mensagem central de Guéhi, assim, não é de afastamento da luta antirracista, mas de cobrança por resultados mais amplos. Para o zagueiro do Manchester City, o futebol tem condições de ajudar a combater um problema que atravessa toda a sociedade — desde que a mobilização simbólica seja acompanhada de esforços contínuos para produzir mudanças.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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