Nesta terça, a segunda parte do especial recordando a história da Eurocopa, na semana em que o torneio completa 60 anos. Para conferir a primeira parte, você pode acessar por este link.

Iugoslávia 1976: O pioneiro da cavadinha

A Alemanha conseguiu chegar à fase final da Euro-76 para defender o título conquistado quatro anos antes. O time já não era tão brilhante: mesmo com a presença de remanescentes dos títulos europeu e mundial, como Sepp Maier, Berti Vogts, Rainer Bonhof, Uli Hoeness, Bernd Holzenbein e, ainda, Franz Beckenbauer, o clima já era de adeus para essa geração, que tinha, como companheiros para a Euro, jogadores que participariam da não tão boa campanha na Copa de 1978, como o zagueiro Manfred Kaltz, o meia Erich Beer e o atacante Müller. Não o Gerd, mas o Dieter, que até igualaria na Iugoslávia o bom desempenho do semi-xará: foi o artilheiro da Euro, com quatro gols.

Era preciso reconhecer que os germânicos teriam um rival melhor do que eles na disputa da taça. Um adversário bem conhecido: a mesma Holanda que enfrentaram na final da Copa de 1974. E uma Holanda com praticamente o mesmo time que encantara o mundo havia dois anos. Ainda estavam lá Johan Neeskens, Rob Rensenbrink, os irmãos René e Willy van de Kerkhof, Willem van Hanegem, Ruud Krol, Johnny Rep. E, sobretudo, ainda estava lá Johan Cruyff.

Com a presença de campeã e vice do mundo, as outras duas participantes ficavam irremediavelmente eclipsadas. O que não significava que fossem maus times. Donos da casa, os iugoslavos mesclavam gente vinda da boa campanha na Copa de 1974, como os atacantes Ivica Surjak e Danilo Popivoda – além de Dragan Dzajic, estrela maior do vice na Euro-68 -, a novos valores que ainda voltariam a uma Copa, em 1982, como o atacante Vahid Halilhodzic e os meias Jurica Jerkovic e Edhem Slijvo.

A Tchecoslováquia também apostou na mistura de gente que só jogaria uma Copa dali a seis anos, como os meias Frantisek Stambachr, Premysl Bicovsky e Antonin Panenka (de quem ainda se falará aqui) e os atacantes Marian Masny e Zdenek Nehoda, a gente presente no 4 a 1 sofrido contra o Brasil, ao estrear na Copa de 1970, como o goleiro Ivo Viktor, o meia Frantisek Vesely e o autor daquele único gol contra os brasileiros, Ladislav Petras.

A qualidade dos quatro semifinalistas rendeu uma Euro emocionante (não por acaso, nenhum dos quatro jogos foi definido nos noventa minutos). Emocionante e, porque não dizer, surpreendente. Na primeira semifinal, em Zagreb, debaixo de chuva torrencial, holandeses e tchecos fizeram um jogo brigado. Os últimos acabaram atuando melhor, com o zagueiro Anton Ondrus sendo decisivo no tempo normal. A favor (abriu o placar) e contra (a treze minutos do fim, jogou contra o patrimônio e ajudou a Holanda a levar o jogo para o tempo extra). Ao fim de 90 minutos, 1 a 1 e dois expulsos: Pollak, do lado tcheco, e Neeskens, pela Holanda.

Na prorrogação, o nervosismo acabou derrotando os holandeses, que já enfrentavam problemas de relacionamento entre os jogadores e o técnico George Knobel, que por sua vez também não tinha a melhor das relações com a federação (tanto que só pela imprensa soube que voltaria à Holanda demitido, qualquer que fosse o resultado). É bem certo que a irritação foi desencadeada pela polêmica no segundo gol tcheco: Cruyff teria sofrido falta de Ondrus, mas o árbitro galês Clive Thomas mandou o lance seguir. Na seqüência, Vesely cruzou na cabeça de Nehoda – 2 a 1.

Injuriado, Van Hanegem reclamou até levar o amarelo. Continuou reclamando, recusou-se a voltar para o próprio campo para que o jogo recomeçasse e levou o vermelho. Com dez contra nove, a Tchecoslováquia teve a tarefa facilitada e decidiu a vaga na final ampliando, com um gol de Vesely.

Na semifinal disputada em Belgrado, no estádio do Estrela Vermelha, o resultado não foi menos emocionante. Parecia que a Iugoslávia havia definido o jogo ainda no primeiro tempo, com Popivoda e Dzajic fazendo 2 a 0. Entretanto a Alemanha protagonizou mais uma de suas lendárias reações. No segundo tempo, Heinz Flohe diminuiu e, a oito minutos do fim, Dieter Müller fez o empate. Na prorrogação, suspense até o fim do primeiro tempo, quando o mesmo Müller desempatou no último minuto e, aos 4 do 2º, ampliou. Mudava o Müller, mas não mudava o nome do artilheiro. Nem mudou o cenário de parte da final: a Alemanha ia tentar o bi.

Decidindo o terceiro lugar, holandeses e iugoslavos fizeram um jogo até interessante. Mesmo enfrentando os donos da casa, sedentos por um lugar no pódio, com um time misto, a Laranja conseguiu abrir 2 a 0 ainda no primeiro tempo. Os anfitriões até empataram, mas, graças a Ruud Geels, que fez seu segundo do jogo na prorrogação, os batavos conseguiram um 3º lugar que até ficou de bom tamanho, dados os problemas internos.

Mas a final é que seria o chamado “jogo proibido para cardíacos”. No primeiro tempo, a Tchecoslováquia se valeu da irregularidade do time alemão e abriu 2 a 0, com Svehlik e Dobias. Mas, três minutos depois do segundo gol tcheco, Dieter Müller mais uma vez botou a Alemanha de volta à briga. Ao contrário da semifinal, a reação tedesca foi mais tardia. Mas nem por isso menos deliciosa: no penúltimo minuto do tempo normal, Holzenbein decretou que seriam necessários mais trinta minutos. Que não foram suficientes. Iríamos aos penais.

De cada lado, os quatro primeiros da série foram convertidos. Até que, pretendendo chutar forte e no canto, Hoeness isolou o quinto pênalti alemão. Dependeria de Antonin Panenka a decisão ou não da Euro-76. E ele criou moda, batendo o pênalti decisivo com a primeira cavadinha (sim, aquela cobrança vagarosa, apenas empurrando a bola, popularizada no Brasil por Djalminha e Marcelinho Carioca) a ficar famosa. A bola mal tocou a rede, mas iludiu Sepp Maier: 5 a 3 nos penais. A Tchecoslováquia levava o título europeu e Panenka criava uma cobrança que, até hoje, leva o seu nome, na Europa. Tanto que ele já disse: “Se pudesse, patenteava a cavadinha”.

Itália 1980: Mudanças no formato

Com o bom nível da Euro-76, a UEFA cresceu o olho para a qualidade da competição que tinha em mãos e mudou algumas coisas no formato. Para começar, mais quatro times seriam acrescentados ao torneio, possibilitando que, ao invés de semifinais e finais, a competição fosse iniciada por uma fase de grupos: dois grupos de quatro, com os vencedores de cada um fazendo a final e, os vices, a decisão do terceiro lugar. E agora o país-sede não seria mais definido entre os finalistas, mas sim pela própria UEFA, já ganhando vaga direta, sem eliminatórias. Doze anos depois, o torneio voltava à Itália.

No grupo A, a Alemanha já tinha uma nova geração. Bernd Schuster e Karl-Heinz Rummenigge se destacavam. Mas enfrentaria uma Tchecoslováquia que mantinha boa parte do time campeão em 1976, além de uma Holanda que, mesmo com a geração vice nas Copas de 74 e 78 perto do adeus, ainda conseguia manter certo nível, além do acréscimo de gente como o atacante Kees Kist. Ainda havia a Grécia, sem elenco de qualidade suficiente para fazer frente às três

Os germânicos tiveram certa dificuldade para garantir a vaga na terceira final consecutiva. Nem tanto para vencer os tchecos (1 a 0), mas ao transformar a partida contra os holandeses de um tranqüilo 3 a 0 – três gols de Klaus Allofs, que o fariam artilheiro daquela Euro – em um apertado 3 a 2, com Johnny Rep e Willy van de Kerkhof descontando, no que foi a estreia de um certo Lothar Matthäus com a camisa alemã. O empate sem gols contra os gregos deu o ponto necessário para a vaga, ao passo que Holanda e Tchecoslováquia, disputando o lugar na decisão do bronze, empataram em 1 a 1. Os tchecos levaram, no saldo de gols: 1 positivo, contra 0 da Laranja.

O grupo B foi menos emocionante. Os italianos não contavam com Paolo Rossi, já punido pelo escândalo do Totonero. Tinham Roberto Bettega no ataque, além de Marco Tardelli, Gaetano Scirea, Fulvio Collovati, Antonio Cabrini, Claudio Gentile, Gabriele Oriali, Dino Zoff… enfim, boa parte do time campeão mundial dali a dois anos. Com uma Inglaterra respeitável, de Ray Wilkins, Trevor Brooking e Kevin Keegan, e uma Espanha já preparando o time para a Copa em casa, poucos deram atenção à Bélgica, de volta à Euro após oito anos. Bélgica que já formava o melhor time de sua história, com Jean-Marie Pfaff no gol (e Michel Preud’homme na reserva), Eric Gerets na defesa e, principalmente, Jan Ceulemans, Julien Cools e Erwin Vandenbergh no respeitável ataque municiado pelo veterano meia Wilfried van Moer, 35 anos, que já havia até se aposentado da seleção. Treinando todos, o lendário Guy Thys.

Em jogos equilibrados e de poucos gols, a Bélgica chegou na final. Após dois empates sem gols na primeira rodada, os Diabos Vermelhos e a Azzurra pularam na frente na briga pela vaga na decisão, vencendo, respectivamente, Espanha e Inglaterra. Na partida que decidiria o grupo, mesmo jogando em casa, o time de Enzo Bearzot não conseguiu fazer valer a vantagem, além da torcida, furiosa com o Totonero (o escândalo na Loteria Esportiva italiana), não estar apoiando muito o time. Resultado: 0 a 0. Por um gol feito a mais (3 contra 2), os belgas surpreendiam com a façanha de disputarem a decisão. Aos donos da casa, restava a chance do terceiro lugar.

E, na decisão por ele, em Nápoles, tchecos e italianos não saíram do 1 a 1 no tempo normal. Sem definirem o jogo na prorrogação, mais uma vez os europeus orientais decidiriam algo nos penais em uma Euro. E que decisão longa: 18 cobranças! De cada lado, tudo certo até que a decisão estivesse em 8 a 8. Aí, Jaroslav Netolicka defendeu a cobrança de Collovati e Marian Masny, remanescente do título de quatro anos antes, deu o bronze aos tchecos.

A final, no Olímpico de Roma, começou morna e terminou emocionante. Foi a decisão, acima de tudo, de um personagem: o gigantesco atacante Horst Hrubesch. Ele abriu o placar, aos 10 do primeiro tempo. E os tedescos conseguiram manter o jogo em banho-maria até os 30 do 2º, quando Uli Stielike derrubou François van der Elst na área. René Vandereycken conseguiu deslocar Harald Schumacher: 1 a 1. A Bélgica aumentava a surpresa.

Porém, para variar, os alemães definiram o jogo com requintes de crueldade. Aos 44 do 2º, Rummenigge cobrou um escanteio. Justificando o apelido de “A Besta dos Cabeceios”, Hrubesch, no primeiro poste, fez o seu segundo no jogo. A Alemanha era bi continental. Houve mudanças no formato. Mas nem tantas no resultado.

França 1984: EurocoPlatini

A Uefa fez mais ajustes para a Euro disputada na França: voltavam as semifinais e não haveria decisão de 3º e 4º lugares. A terceira posição ficou com o semifinalista derrotado de melhor campanha.

A França era considerada a grande favorita para conquistar o caneco. Não só por jogar em casa, mas por ter mantido grande parte do time que barbarizou na Copa de 1982. Estava lá Michel Hidalgo, técnico de ideais futebolísticos semelhantes ao ideólogo da outra grande seleção de dois anos antes, Telê Santana. E o “quadrado mágico” francês estava na ponta dos cascos: a habilidade prosseguia nos pés de Jean Tigana, Alain Giresse, Dominique Rocheteau e, claro, de Michel Platini. Como se já não bastasse, a defesa, ponto fraco de 1982, recebera ajustes fundamentais. No gol, ao invés do fraco Jean-Luc Ettori, Joël Bats; no miolo, Yvon Le Roux e Patrick Battiston davam mais sossego a Manuel Amoros e Maxime Bossis.

Mas o grupo A em que os anfitriões estariam não era moleza. Havia a vice européia Bélgica, com gente vinda da Copa e da Euro-80, como Pfaff, Ceulemans, Erwin Vandenbergh, Leo “Lei” Clijsters (sim, o pai da ex-tenista Kim) e Ludo Coeck – que morreria um ano depois, em acidente de automóvel – mesclados a gente nova, como o zagueiro Georges Grün e o jovem (18 anos) Enzo Scifo. Tinha a Iugoslávia, de volta à Euro após oito anos e já com valores como o meia Dragan Stojkovic.

E havia, acima de tudo, a Dinamarca. Pouco tradicional em Euros, mas com o esqueleto da “Dinamáquina” de brilho fugaz, mas intenso, na Copa de 1986, já pronto. O treinador alemão Sepp Piontek, guiado por uma ideia interessante (se a maioria dos times joga no 4-4-2, para que desperdiçar vaga no meio com mais um defensor?), acabara de criar o hoje batido 3-5-2. E boa parte dos jogadores já figurava no time: o líbero e capitão Morten Olsen, os meias Soren Lerby, Frank Arnesen, Allan Simonsen e Jesper Olsen e uma grande dupla de ataque: Preben Elkjaer-Larsen e um novíssimo – 19 anos – Michael Laudrup.

No grupo B, o cenário era mais equilibrado, mas nem por isso menos empolgante. A campeã Alemanha, se podia ostentar o vice mundial, chegava ao Europeu cheia de problemas de relacionamento entre jogadores – problemas que, inclusive, haviam provocado a declaração de aposentadoria da seleção por parte de Bernd Schuster, naquele 1984, pouco antes da Euro. Ainda assim, a equipe comandada por Jupp Derwall era respeitável: comandados por Rummenigge, havia tanto vice-campeões mundiais de 1982 (os irmãos Karl-Heinz e Bernd Forster, Pierre Littbarski, Stielike) quanto gente que seria vice-campeã mundial em 1986 (Rudi Völler, Andreas Brehme, Matthäus).

A Romênia fazia sua primeira aparição continental mais importante, ainda cercada de mistério (a Cortina de Ferro e a ditadura de Nicolae Ceausescu impediam a saída dos jogadores do país) e já vendo nascer um tal de Gheorghe Hagi, na Euro aos 19 anos. A Espanha tentava reconstruir o time e mostrar força, mesmo com a fraca atuação no Mundial disputado em casa. E havia Portugal, de volta aos grandes palcos pela primeira vez desde 1966, num momento em que as boas campanhas continentais de Benfica e Porto já indicavam a recuperação da seleção. A base do técnico Fernando Cabrita se concentrava em ambos os clubes, embora o artilheiro Rui Jordão fosse o único representante do Sporting.

Iniciado o torneio, o grupo A mostrou que, acima de seleções, aquela seria a Euro de um jogador: Michel Platini. O craque e futuro presidente da UEFA justificou plenamente a esperança nele depositada. Foi o autor do único gol na partida de abertura, contra os dinamarqueses, em Paris. Depois brilhou e destroçou a Bélgica em Nantes, com três gols nos 5 a 0. E fez mais três gols contra a Iugoslávia, no 3 a 2 em Saint-Étienne. Mas a Dinamarca não ficou atrás: também aplicou 5 a 0, só que nos iugoslavos, e conseguiu 3 a 2 de virada contra os belgas. Franceses e escandinavos estavam, com louvor e distinção, nas semifinais.

O grupo B correspondeu às expectativas de equilíbrio. Em jogos renhidos e de poucos gols, o resultado surpreendeu. Na primeira rodada, dois empates e todo mundo com seu pontinho ganho. Na segunda, a Alemanha pulou na frente, com 2 a 1 contra os romenos em Lens, enquanto o duelo ibérico entre portugueses e espanhóis, em Marselha, ficou no 1 a 1.

Na última rodada, os lusos despacharam os romenos em Nantes, com um gol de Nenê, e conseguiram uma honrosa vaga nas semis. Já em Paris, os espanhóis precisariam de uma vitória para eliminar os alemães. E que vitória suada a Fúria conseguiu: no ultimíssimo minuto de jogo, Antonio Maceda fazia o 1 a 0 da classificação.

Se a fase de grupos já fora emocionante, as duas semifinais serviram para tornar a Euro-84 um dos melhores Europeus já disputados. A primeira partida, principalmente: num Vélodrome apinhado de gente em Marselha, França e Portugal fizeram um dos mais eletrizantes jogos da história da Euro. O zagueiro Jean-François Domergue abriu o placar, mas Rui Jordão empatou o jogo. Já na prorrogação, aos 8 do 1º, novamente Rui Jordão conferiu: 2 a 1. A torcida gaulesa temeu o pior.

Foi aí que brilhou, novamente, a estrela de Domergue. Ele, que sequer iria ao Mundial de 1986, bancou o zagueiro-artilheiro e fez o segundo no jogo, empatando, aos 9 do 2º tempo. Daí em diante, a torcida inflamou e empurrou o time. E Platini, a um minuto da decisão por pênaltis, mostrou por que esta era a sua Euro. Fez um gol histórico, definiu 3 a 2 e deixou a França em êxtase pela vaga na final.

Na outra semi, em Lyon, espanhóis e dinamarqueses fizeram um jogo menos exuberante, todavia bem equilibrado. Lerby e Antonio Maceda fizeram o 1 a 1 que persistiria até o fim de 120 minutos. Nos pênaltis, tudo certo até o último dinamarquês, que fechava a série de cinco: a estrela Elkjaer-Larsen isolava a bola na sua cobrança e a Espanha comprovava a recuperação de 1982, indo para tentar o bi na final. Se serve de consolo, os daneses conseguiam um justo 3º lugar.

A final, em Paris, foi brigada até os 12 minutos do segundo tempo. Aí, o momento que talvez tenha definido não só o espírito do jogo, mas a própria Euro. Falta na entrada da área espanhola. Platini cobra, rasteira, ao largo da barreira. Bola fácil para o goleiro Luis Arconada, que encaixa… e deixa a pelota passar marota por baixo de si, ultrapassando a linha e sem tocar na rede para o desespero do goleiro. 1 a 0. Dali para frente, no jargão futebolístico francês, “Arconada” virou gíria para “frango”. No desespero de tentar os contra-ataques, a Fúria deixou espaço livre. E o tiro de misericórdia chegou pelos pés de Bruno Bellone, a um minuto do fim. Em casa, a França correspondia aos palpites e Platini erguia o troféu Henri Delaunay.

Troféu erguido, a maior artilharia em uma só edição da Euro (9 gols) e maior jogador do torneio. Está justificado o trocadilho que dá título ao capítulo?

Alemanha 1988: Enfim, Holanda

Já mostrando a dificuldade que teria em substituir a geração campeã quatro anos antes, a França não passou das Eliminatórias para a Euro. No grupo A, dois favoritos despontavam, não só para as vagas nas semifinais, mas para o título: a Alemanha, com a geração de Matthäus, Klinsmann, Völler e Brehme já no comando do time (por sua vez, já treinado pelo Kaiser Franz Beckenbauer), e a Itália, com o treinador Azeglio Vicini procurando deixar o time em ponto de bala para a Copa em casa, dali a dois anos.

A zaga que só levaria dois gols no Mundial já estava azeitada, com a linha Zenga-Bergomi-Baresi-Ferri-Maldini (este último, já titular da Azzurra com 19 anos). E o ataque transalpino também era respeitável, com Vialli e Roberto Mancini. Diante de dois times como esses, só restava o papel de coadjuvante a uma Dinamarca por demais envelhecida – muito embora já estivessem lá o lateral Heintze e o goleiro Schmeichel, ambos na reserva – e uma Espanha estagnada.

Já no grupo B, o cenário era mais equilibrado. Após oito anos de ausência das competições internacionais – ficara fora das Copas de 1982 e 1986, além da Euro-84 –, a Holanda voltava a frequentar as luzes da ribalta. Mas, embora gente como Rijkaard, os irmãos Erwin e Ronald Koeman, Gullit e Van Basten estivessem na ponta dos cascos (e treinados por Rinus Michels), a falta de experiência num torneio como a Euro poderia complicar.

Algo nada recomendável, contra a Inglaterra ainda de Peter Shilton, Gary Lineker, Beardsley e John Barnes; a União Soviética também sofrendo com o “excesso de veteranismo”, mas sempre perigosa e tradicional em Euros; e a novidade representada pela Irlanda, já formada pela geração de gente como Packie Bonner, Paul McGrath, Mick McCarthy, Frank Stapleton, Tony Cascarino e John Aldridge, que levariam o país a duas Copas consecutivas (1990 e 1994).

No grupo A, poucas surpresas. Após empatarem em um gol na primeira rodada, Itália e Alemanha despacharam com autoridade dinamarqueses e espanhóis. No grupo B, houve uma surpresa, a bem da verdade. Surpresa desagradável: agastada por problemas internos, a Inglaterra foi presa fácil para a URSS e para a Holanda. Contra a Laranja, aliás, o time inglês foi vítima da primeira amostra do talento que Van Basten reservara para aquela Euro: foi “San Marco” o autor dos três gols holandeses.

Os soviéticos garantiram a vaga nas semifinais sem muitas dificuldades, vencendo neerlandeses e irlandeses. O segundo lugar foi decidido num lance de sorte. Holanda e Irlanda se enfrentavam em Gelsenkirchen, e o empate sem gols dava a vaga aos irlandeses. Aos 37 minutos do segundo tempo, num rebote de escanteio, Jan Wouters chutou de bate-pronto. O arremate não foi bom, saiu quicando, bateu na nuca de Wim Kieft, ganhou efeito e acabou nas redes de Bonner. A oito minutos do fim do jogo, os holandeses estavam nas semis.

A primeira semifinal iria entrar para a história da Euro: Alemanha e Holanda faziam o repeteco da final de 1974, em Hamburgo. O jogo manteve-se truncado até os 10 do 2º, quando Klinsmann mostrou a sua maestria em cavar pênaltis. Matthäus cobrou com sua competência peculiar e fez 1 a 0. Dezenove minutos depois, a Holanda pagou na mesma moeda: Van Basten aproveitou uma bola que ia se perdendo pela linha de fundo (e um carrinho que o zagueiro Jürgen Köhler dava para tentar recuperá-la) e caiu. Novo pênalti. Nova cobrança perfeita, desta vez de Ronald Koeman – 1 a 1.

A prorrogação se aproximava. Até que, a dois minutos do fim do jogo, uma bola despretensiosa lançada por Jan Wouters estava perdida na área. Parecia à feição para a defesa do goleiro alemão Immel, mas Van Basten tratou de se antecipar à Kohler e tocar por baixo do arqueiro. Como em 74, havia um 2 a 1, mas desta vez os vitoriosos eram laranjas. Mais do que vencer, os holandeses expiavam os traumas de quatorze anos antes. A festa em Amsterdã é considerada, até hoje, a maior na cidade desde a libertação do jugo nazista, em 1944.

Na segunda partida, em Stuttgart, os italianos já mostravam a eficiência de sua defesa: com apenas um gol sofrido, conseguiam levar o 0 a 0 ao intervalo. Porém, no segundo tempo, os soviéticos mostraram a mesma eficiência para despachar os favoritos. Litovchenko e Protasov precisaram de apenas quatro minutos (13 e 17) para liquidar a Azzurra e dar a última demonstração de força do futebol soviético antes da derrocada futebolística e histórica, chegando para tentar o bi europeu.

No Estádio Olímpico de Munique, a final seguiu relativamente equilibrada, até que, aos 32 minutos, um cruzamento de Erwin Koeman fez com que a defesa soviética saísse em linha, para provocar o impedimento. Só deram liberdade para que Van Basten escorasse, de cabeça, para o parceiro Gullit fuzilar Dasaev, também testando: 1 a 0. O primeiro gol já dava mais tranqüilidade aos holandeses.

O segundo gol ficou na história, marcou época. Anotado aos nove minutos do segundo tempo, tem lugar garantido em qualquer lista que se preze de gols mais bonitos da história do futebol. Van Tiggelen passou rasteira para o veterano (37 anos) Arnold Mühren. De primeira, Mühren cruzou. Iria para fora… se o irresistível Van Basten não seguisse a jogada e, sem ângulo, emendasse um voleio que encobriu Dasaev. Seu quinto gol na Euro, que o tornou artilheiro da competição, não poderia ter sido mais brilhante.

Os soviéticos tanto pressionaram, após o gol, que conseguiram um pênalti: Van Breukelen derrubou Gotsmanov. Mas o próprio Van Breukelen consertaria o erro. Ele – que, havia exatamente um mês, em 25 de maio de 1988, defendera a cobrança decisiva que deu ao PSV Eindhoven o título da Liga dos Campeões – também pegou a cobrança de Belanov. Pouco se passou, depois daquilo, até o apito final do francês Michel Vautrot.

E a Holanda, que parecia um time ainda em formação, virou uma esquadra inesquecível. Que conquistou um título também inesquecível. Explicado, talvez, por um trocadilho que estampava uma faixa, na recepção aos campeões, em Amsterdã: “Vanbastische!” (“Vanbástico!”).