A dinastia que o Paris Saint-Germain construiu dentro da França ao longo desta década não costuma receber tanto respeito. O abismo técnico e econômico em relação aos principais rivais na Ligue 1 facilita o trabalho e, além do mais, os insucessos na Champions League geram cobranças sobre os parisienses. Bem diferente era o clima ao redor do PSG em 1993/94, quando o clube conquistou seu segundo título no Campeonato Francês – o último, até a chegada dos investimentos catarianos.

O clube não era um pobre coitado na época, longe disso. Tinha também muita grana, com o apoio do Canal+. No entanto, media forças contra adversários mais duros e possuía a árdua missão de destronar o Olympique de Marseille, força hegemônica da época. A queda dos marselheses não aconteceu apenas dentro de campo. De qualquer maneira, não é isso que menospreza a qualidade do PSG naquele período. Era um timaço, cheio de craques e com um futebol competitivo sob as ordens do português Artur Jorge. E que, além do mais, acumulava feitos além das fronteiras.

Aproveitando a virada do ano, iremos lançar aqui na Trivela alguns textos de efemérides que, por algum motivo ou outro, não foram publicados durante a devida data por estarem incompletos. Nesta terça, fica a homenagem ao PSG campeão francês há 25 anos.

A ascensão do PSG

Criado a partir da fusão de dois times, como um projeto para representar a força da capital no Campeonato Francês, o Paris Saint-Germain tornou-se um clube relevante desde os seus primórdios. Os parisienses conquistaram o acesso à Ligue 1 logo em sua primeira temporada, liderados por Jean Djorkaeff, defensor da seleção francesa na Copa de 1966. No entanto, não demorou para que o PSG encarasse dificuldades financeiras e sofresse uma cisão. Um dos fundadores da agremiação, o Paris Football Club, retomou suas atividades e o Paris Saint-Germain precisou recomeçar sua trajetória na terceira divisão. Ao menos, a ascensão meteórica foi instantânea. Treinada pelo lendário Just Fontaine, a equipe confirmou o retorno à elite já em 1974. Desde então, não deixou mais a primeira prateleira.

Impulsionado pelos grandes públicos no Parc des Princes, o PSG contou com equipes fortes a partir da segunda metade dos anos 1970 e uma porção de jogadores célebres. Assim, as conquistas se tornaram naturais. Estrelado por Dominique Rocheteau, Luis Fernández e Safet Susic, os parisienses se tornaram bicampeões da Copa da França em 1982 e 1983. Já o título na Ligue 1 veio em 1985/86, com a adição do goleiro Joël Bats ao elenco. Era um time competitivo que, entretanto, envelheceu mal e despencou na tabela pouco depois, chegando a ser ameaçado pelo rebaixamento.

Ainda no fim dos anos 1980, o PSG perseguiu o fortíssimo Olympique de Marseille pelo título da Ligue 1. Em 1989, as duas equipes chegaram a se enfrentar na reta final do Campeonato Francês, em duelo que terminou por decidir a taça. A vitória marselhesa por 1 a 0 encaminhou o primeiro título do clube em 17 anos e iniciou o tetracampeonato enfileirado naquele período. Já os parisienses viam suas dívidas aumentarem e, numa época na qual diversos clubes franceses quebraram, só se salvaram da bancarrota em 1991.

O ponto de virada do PSG aconteceu em abril de 1991, quando o Canal+ desembarcou no Parc des Princes. Responsável pelo recém-implantado pay-per-view na Ligue 1, a emissora comprou a agremiação e passou a injetar o dinheiro angariado a partir dos jogos televisionados ao enorme mercado de Paris. Desta maneira, os novos donos sanaram as dívidas e passaram a realizar investimentos no elenco.

Os primeiros reflexos positivos seriam vistos no início da temporada 1991/92. Ao todo, 11 jogadores do elenco fizeram as malas, incluindo Safet Susic – considerado por muitos como o maior ídolo da história da agremiação. Por outro lado, a lista de contratações também era gorda. Os brasileiros Ricardo Gomes, Valdo e Geraldão puxavam a fila. Todos desembarcavam do futebol português, de onde vinha o treinador Artur Jorge, campeão europeu com o Porto em 1987.

Encurtar as distâncias em relação ao Olympique de Marseille, também turbinado pela grana do magnata Bernard Tapie, não foi missão simples ao Paris Saint-Germain. Em 1991/92, o clube da capital terminou sua campanha na terceira colocação, a 11 pontos dos então tetracampeões. Por isso mesmo, o mercado seria ainda mais intenso rumo a 1992/93. O timaço começava a ganhar forma, com a chegada de George Weah, que arrebentava com a camisa do Monaco, assim como de David Ginola, talento que despontava no Brest. Bernard Lama e Alain Roche seriam outras adições daquela abastada janela.

A rivalidade entre PSG e Olympique ganhou contornos incendiários em 1992/93, pelas brigas em campo e também fora dele. Os clássicos carregavam a rivalidade entre Paris e Marselha, com as duas potências lutando pelos principais títulos do país. Pela primeira vez desde 1986, os parisienses levantaram uma taça, ao derrotarem o Nantes por 3 a 0 na decisão da Copa da França. Enquanto isso, os marselheses faturaram o penta no Campeonato Francês, fechando a campanha quatro pontos à frente dos rivais. De quebra, também se tornaram os primeiros franceses a levar a Champions League, com o triunfo por 1 a 0 sobre o Milan na final em Munique.

A sequência de glórias do Olympique de Marseille, todavia, também significaria a perdição do esquadrão. Seis dias antes do triunfo sobre o Milan, o time selou o título da Ligue 1 ao bater o Valenciennes por 1 a 0. Só que a vitória foi tão sossegada que levantou suspeitas sobre uma facilitação dos adversários. Já depois da partida, a polícia entrou nos vestiários marselheses e interrogou os jogadores. Duas semanas depois, um dos atletas do Valenciennes admitiu ter sido subornado e as investigações começaram. Bernard Tapie era acusado de comprar seus adversários para tranquilizar a missão de sua equipe e evitar complicações às vésperas da final da Champions.

A peça final do timaço

A temporada do Campeonato Francês 1993/94 começou sem que o destino do Olympique de Marseille estivesse definido. Em contrapartida, o PSG terminava de delinear o seu timaço. E o último destaque a ser contratado veio do Brasil. Raí liderou o maior São Paulo de todos os tempos, bicampeão da Libertadores e herói no Mundial de 1992, contra o Barcelona de Johan Cruyff. Em 1993, o meia chegaria a peso de ouro ao Parc des Princes. Juntaria-se a Valdo e Ricardo Gomes na legião brasileira treinada por Artur Jorge.

Diante das incertezas ao redor do Olympique de Marseille, o Paris Saint-Germain se colocava entre os favoritos para quebrar a hegemonia na Ligue 1. Apesar disso, outros times sonhavam com a taça naquela campanha. O próprio Olympique começou a temporada com sua força praticamente intacta. Sem qualquer certeza sobre o veredito das investigações, seus principais destaques permaneciam no elenco, incluindo aí nomes como Fabien Barthez, Marcel Desailly, Basile Boli, Didier Deschamps, Alen Boksic e Rudi Völler.

O Nantes começou a campanha sonhando alto. Treinado pelo ofensivo Coco Suaudeau, os Canários possuíam uma equipe jovem, na qual surgiam Noureddine Naybet, Christian Karembeu, Claude Makélélé, Reynald Pedros e Patrice Loko. O Cannes foi outro a liderar por algumas rodadas durante o primeiro turno, com Patrick Vieira e Johan Micoud em seu plantel. O Auxerre do eterno Guy Roux possuía os seus prodígios, como Corentin Martins e Lilian Laslandes, ambos convocados à seleção. Já o Bordeaux ressurgia, três anos após ser rebaixado por problemas financeiros. Márcio Santos, Bixente Lizarazu, Richard Witschge, Philippe Vercruysse e Christophe Dugarry eram jogadores de seleção no elenco, ainda que a maior aposta fosse um jovem Zinedine Zidane, levado do Cannes em 1992.

O PSG, de qualquer forma, se garantia pela forte espinha dorsal que Artur Jorge colocava em campo. Bernard Lama era um goleiro experiente e confiável sob as traves. Ricardo Gomes liderava a sólida defesa, na qual o também zagueiro Alain Roche era o outro destaque. Antoine Kombouaré servia de alternativa por ali, mas uma séria lesão no joelho o manteve fora de combate durante a maior parte da temporada. Pelas laterais, Jean-Luc Sassus e Patrick Colleter eram cumpridores na posição.

No meio, Paul Le Guen usava a braçadeira de capitão e dava a sustentação ao losango geralmente formado, com poder de marcação e chutes potentes. Valdo era o principal responsável pela armação, sobretudo por seus passes açucarados e assistências. Já Raí, ainda sem ser intocável no time, era outro craque com muita qualidade na ligação e conquistava seu espaço. Vincent Guérin contribuía muito com suas chegadas à frente, enquanto Laurent Fournier era um coringa no setor, mais empenhado no combate.

Já no ataque, a combinação mortal entre os dribles de David Ginola e as arrancadas de George Weah, referências ofensivas que produziram muitos gols e excelentes jogadas em conjunto. Apesar das táticas um tanto quanto conservadoras de Artur Jorge, que priorizava a proteção defensiva, o talento individual falaria mais alto naquela caminhada. Bem estruturado, perigoso nas bolas paradas e letal nos lances de velocidade dos atacantes, o Paris Saint-Germain faria uma campanha soberana.

O Olympique de Marseille perde a taça

Quando a Ligue 1 começou, no final de julho, ainda não havia um parecer sobre o caso de suborno envolvendo o Olympique de Marseille. E o Paris Saint-Germain demorou um bocado a engrenar na competição. Durante as sete primeiras rodadas, o time de Artur Jorge venceu apenas três compromissos. A lista de tropeços, aliás, incluía duas derrotas para rivais diretos ao topo da tabela.

Logo na estreia, o PSG encarou o Bordeaux no Estádio Chaban-Delmas. E a vitória dos girondinos por 1 a 0 foi definida logo aos sete minutos, numa cobrança de falta certeira de Zidane. Ginola comandou o triunfo por 2 a 1 sobre o Lille no compromisso seguinte, antes que os parisienses empatassem com o Strasbourg e derrotassem o Sochaux. Já na quinta rodada, o Olympique de Marseille garantiu o triunfo por 1 a 0 no clássico disputado dentro do Vélodrome. Por mais que os celestes não tenham começado bem a liga, o gol de Boksic dava forças ao clube no momento. Na sequência, uma vitória sobre o Caen (em noite marcada pelo hooliganismo no Parc des Princes) e um empate com o Angers não evitavam a modesta oitava posição ao PSG.

Até aquele momento, Ginola carregava o Paris Saint-Germain. O atacante anotara cinco dos oito gols feitos pela equipe até ali. E o tumultuado calendário da época também prejudicava bastante Artur Jorge. Em tempos nos quais as Eliminatórias da Copa na América do Sul não tinham uma Data Fifa, a legião brasileira estava a serviço de Carlos Alberto Parreira durante o início do Francesão. Ricardo Gomes, Valdo e Raí permaneceram concentrados com a Seleção até 5 de setembro, ausentes em todas as sete primeiras rodadas. Só então viajariam a Paris, para auxiliar a ascensão do clube.

O mês de setembro seria transformador ao PSG, não apenas pela adição dos brasileiros, que permitiram ao time emendar uma sequência de três vitórias. Neste período, um abalo sísmico também afetou o Olympique de Marseille. Primeiro, a Uefa optou por excluir os marselheses da Champions League 1993/94, em razão do suborno comprovado pela polícia. O PSG ganhou o convite para substituir os rivais, mas recusou, porque o Canal+ temia que, em represália, sua audiência caísse na Provença. Já em 22 de setembro, pressionada pela Fifa, a federação francesa anulou o título dos celestes na Ligue 1 1992/93. De novo, os parisienses recusaram herdar a taça e o campeão acabou vago naquela temporada.

Até pelo embalo dentro de campo, parecia que uma conquista do Paris Saint-Germain não tardaria. Raí estreou com gol, em cabeçada certeira que determinou a vitória por 1 a 0 sobre o Montpellier. Na rodada seguinte, Raí e Ricardo Gomes estavam no Maracanã encarando o Uruguai para carimbar a vaga do Brasil na Copa de 1994, mas o PSG buscou a virada por 3 a 1 na visita ao Lyon. E o bom momento foi ratificado nos 4 a 0 sobre o Auxerre, em noite com dois tentos de Weah, além de mais uma pintura de Ginola. O resultado sublinhava as condições dos parisienses rumo ao topo.

Em tempos nos quais as vitórias valiam apenas dois pontos na Ligue 1, o Paris Saint-Germain tomou a liderança após a goleada. Era uma disputa equilibrada, em que o saldo de gols deixou a equipe à frente de Bordeaux e Cannes. O empate com o Martigues na rodada seguinte, com novo gol de Raí, deu a brecha para que os girondinos assumissem a ponta isoladamente, um ponto acima do PSG. Contudo, as vitórias sobre Lens e Metz, combinadas à derrota do Bordeaux na visita ao Caen, entregariam novamente a dianteira ao time de Artur Jorge. Não sairiam mais de lá.

A sequência invicta

Apesar de um empate ou outro, o Paris Saint-Germain não sabia o que era derrota desde a visita ao Vélodrome na quinta rodada. O time seguiu em ritmo firme para abrir vantagem na primeira colocação, mesmo com a tabela complicada ao final do primeiro turno. Guérin garantiu o triunfo por 1 a 0 contra o Cannes, que vinha bem no campeonato. Logo depois, Weah também sobrou na vitória magra sobre o Nantes, que inspirava cuidados. Os empates com Monaco e Le Havre, em seguida, não tiveram um custo tão alto. Por fim, nos últimos compromissos de 1993, os parisienses realmente embalaram.

O PSG encadeou mais cinco vitórias seguidas, as duas últimas pelo primeiro turno e as três primeiras no returno. Toulouse, Saint-Étienne, Lille, Strasbourg e Sochaux foram as vítimas, com Ginola e Raí se destacando no momento positivo. Após 22 rodadas, o time de Artur Jorge entrava na pausa de inverno com 35 pontos, quatro de vantagem sobre o Olympique de Marseille, segundo colocado. O Bordeaux aparecia em terceiro, com 29. Paralelamente, o PSG também havia eliminado a Universitatea Craiova nas oitavas de final da Recopa Europeia.

A Ligue 1 recomeçou ao PSG em 14 de janeiro de 1994, quando o Parc des Princes recebeu o clássico contra o Olympique de Marseille. Os celestes atravessavam uma situação calamitosa não somente pelo caso de suborno e pela perda do título, mas também pelas consequências financeiras que a crise gerou. Bernard Tapie também corria risco de perder sua licença à frente dos marselheses e os investimentos cessaram. Pior, destaques do time começaram a fazer as malas, com as vendas de Marcel Desailly e Alen Boksic ao futebol italiano. Sonny Anderson virou uma rara aposta para tentar alavancar o time.

A diferença de pontos se preservou, com o empate por 1 a 1 em Paris. Uma linda jogada de Weah e Ginola permitiu que Le Guen abrisse o placar. Mas, ainda no primeiro tempo, Rudi Völler deixou tudo igual ao Olympique de Marseille. Os parisienses se reergueram com triunfos sobre Caen e Angers, protagonizados por Ginola e Guérin. Até que o defensivismo de Artur Jorge voltasse à pauta com uma série de três empates por 0 a 0, diante de Montpellier, Lyon e Auxerre. A sorte é que, ao mesmo tempo, os demais concorrentes também derrapavam. Mesmo o quarto empate consecutivo, nos 2 a 2 contra o Martigues, não diminuiu a gordura de quatro pontos do PSG na primeira colocação.

O sprint final

O Paris Saint-Germain recuperou o seu grande momento em meados de março. E não apenas porque voltou a colecionar vitórias na Ligue 1. Durante o início do mês, a equipe encarou o Real Madrid nas quartas de final da Recopa. Os franceses já tinham conquistado uma heroica classificação contra os espanhóis na Copa da Uefa anterior, quando reverteram a derrota por 3 a 1 na ida para um 4 a 1 na volta, em noite brilhante de Valdo. Pois, de novo, o time de Artur Jorge despachou os merengues.

A ida aconteceu dentro do Santiago Bernabéu. Lama teve muito trabalho ao longo da noite, com direito a bola na trave do Real e a outro lance salvo em cima da linha. Porém, os craques decidiram na frente. Aos 32, Ginola deixou dois marcadores no chão e cruzou na linha de fundo para Weah fuzilar e decretar a vitória por 1 a 0. No reencontro dentro do Parc des Princes, o PSG desperdiçou várias chances, até Emilio Butragueño desviar um chute de Fernando Hierro e inaugurar a contagem. Todavia, no início do segundo tempo, uma falta cobrada por Valdo deu a brecha para Ricardo Gomes empatar. Iván Zamorano até carimbou a trave no fim, mas o empate por 1 a 1 ratificou a classificação dos franceses à semifinal.

Ao mesmo tempo, o PSG retomou o fôlego na Ligue 1. As vitórias consecutivas sobre Lens, Metz e Cannes deram uma vantagem de sete pontos na liderança, com o Olympique de Marseille ainda perseguindo os rivais. A sequência de 27 partidas invictas (novo recorde histórico do campeonato naquele momento) só terminou no início de abril, durante a visita ao Nantes. Oposto dos parisienses por sua ofensividade, o time de Coco Suaudeau mostrou o seu ímpeto na vitória por 3 a 0, que serviria de prévia à grande campanha que realizariam na temporada seguinte. Depois, o PSG ainda cederia um empate no último minuto contra o Monaco de Arsène Wenger dentro do Parc des Princes.

Na Recopa, o Paris Saint-Germain não foi páreo ao Arsenal. Então treinado por George Graham, o clube inglês saiu com um satisfatório empate por 1 a 1 do Parc des Princes e celebrou sua classificação à decisão em Highbury, quando Kevin Campbell definiu logo de início o placar de 1 a 0. Mas não havia motivos para os parisienses se entristecerem. Dias depois, a Ligue 1 ficou praticamente definida. Em 23 de abril, o PSG cumpriu sua parte dentro de campo ao derrotar o Le Havre por 2 a 0, gols de Le Guen e Raí. Já nos tribunais, a federação francesa ratificou o rebaixamento do Olympique de Marseille rumo à Ligue 2 em 1994/95. Bernard Tapie foi banido do futebol pelo resto da vida, por sua participação na falcatrua de 1992/93.

Restando mais três rodadas para o final da campanha, o Paris Saint-Germain sustentava uma vantagem de seis pontos sobre o Olympique. Matematicamente, o título estava aberto. Mas nem existiam mais condições para os marselheses almejarem o troféu. A confirmação da conquista veio na antepenúltima rodada, durante a visita do Toulouse ao Parc des Princes. O PSG venceu por 1 a 0, em escanteio batido por Valdo que Ricardo Gomes cabeceou para dentro. Festa completa, com direito a invasão de campo da torcida.

Os outros horizontes

Nas duas últimas partidas, o PSG pôde emendar mais duas vitórias. Primeiro, visitou o Saint-Étienne e venceu os alviverdes por 2 a 1, com dois gols de George Weah. Por fim, a campanha se encerrou com a goleada por 4 a 1 sobre o Bordeaux. Diante de 40 mil no Parc des Princes, o placar ficou até barato. Le Guen acertou dois chutaços para abrir a diferença, Ginola deixou o seu ainda no primeiro tempo e Weah fechou a contagem em mais uma assistência de Valdo. Os parisienses ainda carimbaram a trave duas vezes e Lama chegou a desperdiçar um pênalti. De qualquer maneira, a noite era para celebrar.

O PSG concluiu a campanha com 59 pontos, oito a mais que o vice Olympique de Marseille. Teve um respeitável aproveitamento de 77,6% dos pontos, com apenas três derrotas ao longo da campanha. O ataque de Artur Jorge nem foi tão prolífico, com 54 gols, mas a defesa brilhou ao sofrer apenas 22 tentos. E o detalhe também é como os protagonistas dividiram bem os tentos entre si. Ginola (13) e Weah (10) chegaram aos dois dígitos, enquanto Raí, Guérin e Le Guen tiveram boa contribuição. E se Valdo balançou as redes apenas uma vez, seus passes e lançamentos foram muito úteis ao longo da temporada.

Ginola terminou eleito como o melhor jogador da Ligue 1. O prêmio ao atacante marcava sua redenção, após ser vilanizado pela ausência da França na Copa do Mundo de 1994. Afinal, tinha sido ele a entregar a bola para a Bulgária no último minuto da derrota dentro do Parc des Princes, permitindo o contragolpe mortal que derrubou os Bleus nas Eliminatórias. O lance do craque, um tanto quanto ingênuo, não deveria deteriorar a carreira de quem encantava com seus dribles e arrancadas.

Para 1994/95, o Paris Saint-Germain manteve sua forte base, apesar da contratação de Luis Fernández para o lugar de Artur Jorge – que havia anunciado sua saída em abril. O time não conseguiu competir com o Nantes, avassalador ao longo da Ligue 1. Ainda assim, a equipe faria história de outras formas: conquistou a Copa da França e a Copa da Liga Francesa, além de alcançar as semifinais da Champions, em campanha que alçou George Weah como ganhador da Bola de Ouro. Já em 1995/96, mesmo com as vendas de nomes importantes (Weah, Ginola, Valdo, Ricardo Gomes), os parisienses trouxeram outros reforços de peso e faturaram seu primeiro título internacional, a Recopa Europeia. Uma das novas faces, Bruno N’Gotty assinalou o gol decisivo na final contra o Rapid Viena.

O Paris Saint-Germain seguiu com grandes campanhas até 1998, quando a era de ouro sob as ordens do Canal+ cessou. Os parisienses até trouxeram craques e montaram times competitivos na virada do século, mas seus feitos se limitavam às copas nacionais. O fim do jejum na Ligue 1 só aconteceu após a chegada dos milhões catarianos, com a taça erguida 18 anos depois. Não é a hegemonia recente, entretanto, que reduz a importância histórica de 1993/94. Vários membros daquele time permanecem entre os grandes personagens do futebol francês. E, afinal, a representatividade internacional do período ainda é maior que os desempenhos nesta década. Aquele timaço segue gravado na memória.