O que o Football Leaks revela sobre os planos de uma Superliga Europeia


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Não é de hoje que os principais clubes europeus discutem a criação de uma “Superliga”. A ideia de um torneio hegemônico no continente, com as principais forças do futebol local, ganhou forma principalmente na virada do século e se tornou motivo de mudanças constantes no regulamento da Champions League. À mínima ameaça de uma debandada dos poderosos, a entidade continental fazia concessões e adaptações no regulamento do torneio para ampliar os privilégios às grandes ligas. Ainda assim, isso não parece suficiente. Ao longo dos últimos anos, representantes de agremiações importantes da Europa mantêm conversas regulares, traçando os rumos da tal Superliga. E segundo os documentos revelados pelo Football Leaks, detalhados em matéria publicada pela revista Der Spiegel, o projeto estaria sendo aprimorado (inclusive juridicamente) para sair do papel em 2021.

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Um marco, segundo as investigações do Football Leaks, aconteceu em fevereiro de 2016. Michael Gerlinger é o chefe do departamento jurídico do Bayern de Munique e um dos cérebros por trás do clube. Naquela data, ele enviou um e-mail a um dos maiores escritórios de advocacia da Alemanha, discutindo as possibilidades legais que os bávaros possuíam para deixar tanto a Bundesliga quanto a Champions League. Além disso, queria saber se era possível recusar as convocações de jogadores à seleção.

Não era só um devaneio. Era um plano que ia de encontro a Karl-Heinz Rummenigge, chefe-executivo do Bayern e então presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA) – entidade que representa 232 agremiações. Em fevereiro 2016, não coincidentemente, o ex-atacante defendeu abertamente a ideia da Superliga. Sua posição ecoou através de Andrea Agnelli, que se tornaria seu substituto na entidade meses depois. O que a maioria dos clubes representados pela ECA talvez não soubessem é que os dirigentes arquitetavam projetos também às escondidas.

“Você não pode descartar essa ideia. No futuro, podemos criar uma liga europeia com os principais clubes de Itália, Alemanha, Inglaterra, Espanha e França, sob os cuidados da Uefa ou de uma organização privada. Poderia ser uma competição com 20 times e, talvez, nós jogaríamos algumas partidas na América e na Ásia”, declarou Rummenigge, na época. “Os melhores times do continente estão ficando mais e mais fortes em relação aos outros nas principais ligas. E outra liga, de fato, já está nascendo além da Champions”.

Logo da Uefa com o presidente Aleksander Ceferin em primeiro plano (Photo by Milos Bicanski/Getty Images)

Neste sentido, com os planos fluindo nos bastidores, as declarações públicas de Rummenigge seriam mais uma cortina de fumaça e um alerta. Em agosto de 2016, o presidente da ECA apontou em reunião da entidade que “ofertas pela Superliga tinham sido feitas aos grandes clubes e a Uefa havia convocado uma reunião para manter o futebol europeu unido”. Os clubes médios e pequenos ficavam à mercê deste jogo de interesses, que levou a Uefa a rever detalhes da Champions. Enquanto isso, conforme o Football Leaks, o dirigente alemão usava uma estratégia de “desinformação calculada” para evitar um maior detalhamento do que realmente ocorria secretamente.

O momento parecia propício para uma movimentação independente dos clubes, diante do Fifagate e das consequências dos casos de corrupção sobre a Uefa. Não foi isso que abalou os lucros exorbitantes com direitos de TV ou outras receitas. “A batalha que explodiu depois do e-mail de Gerlinger, por todo o dinheiro das competições europeias e pelo poder do futebol de elite, poderia praticamente ter sido escrita por um roteirista de House of Cards. Todos os truques, a postura implacável e as conversas de bastidores podem ser reconstruídas com auxílio dos arquivos da Football Leaks. Estes documentos fornecem uma noção sobre quem são aqueles que tomam as decisões nos negócios do futebol. Eles desnudam o quão impiedosamente e desavergonhadamente esses indivíduos acumulam poder para perseguir sua ganância por ainda mais dinheiro”, escreve a reportagem da Der Spiegel.

Ainda conforme a publicação, o interesse dos clubes não se concentra necessariamente em melhorar o futebol, e sim em aumentar suas margens de lucro. Com as hegemonias nas principais ligas nacionais da Europa, a Superliga seria o caminho para que o tédio não afetasse o espetáculo dos gigantes. Em 2015, ganharam o reforço de Charlie Stillitano, responsável por alguns dos principais eventos do “soccer” que ocorreram nos Estados Unidos a partir dos anos 1990.

Em dezembro daquele ano, Stillitano enviou um e-mail a dirigentes do Real Madrid, detalhando o projeto. Naquele momento, 17 clubes com maior audiência na TV seriam permanentes no torneio. Dividiriam-se entre representantes de Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França. Além disso, também haveria um time de Portugal, Rússia, Holanda ou Turquia. O torneio seria disputado em 34 rodadas, com um mata-mata ao final da temporada. O mais atraente, todavia, eram mesmo as cifras. Segundo os cálculos do executivo, os clubes poderiam faturar € 500 milhões por temporada. O Real Madrid, mesmo vencendo a Champions em 2016, embolsou “apenas” €80 milhões.

A partir da proposta de Stillitano, o Real Madrid organizou uma reunião com dirigentes de Barcelona, Bayern de Munique, Juventus, Milan, Arsenal e Manchester United. Como um cartel, exploravam as possibilidades com a Superliga, sem deixar de fazer seu jogo duplo ao lado da Uefa. Posteriormente é que Gerlinger faria sua consulta sobre os entraves legais que o novo torneio poderia enfrentar – desde a responsabilização por perdas financeiras da Uefa à anulação de contratos dos atletas. Já Rummenigge alinhava publicamente a ECA à Uefa, como se a entidade que ele presidia estivesse comprometida a realizar uma “evolução” nas competições continentais. Um mês depois do e-mail de Gerlinger, o Bayern recebeu a resposta dos advogados sobre os possíveis obstáculos legais da Superliga. Havia segurança de que Uefa ou Fifa não poderiam impedir uma debandada. E mesmo com outros pontos contrários, como a anulação de contratos de jogadores, os bávaros não desistiram da ideia.

Charlie Stillitano, que organiza eventos de futebol
(Photo by Jan Kruger/Getty Images for Soccerex)

Ao mesmo tempo, Stillitano se movimentava independentemente. Depois do contato com o Real Madrid, visitou dirigentes de cinco clubes da Premier League. A reunião aconteceu em um hotel de luxo em Londres, com representantes de Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City e Manchester United. Fotografias dos cartolas foram publicadas na imprensa inglesa, o que deixou os clubes em pânico. Temia-se o impacto nas relações com a Premier League, assim como a impressão de que estaria formando um cartel. Mas não foi o que os afastou da ideia da Superliga. Depois, o próximo encontro de Stillitano aconteceu em Munique, justamente com Gerlinger. Chamavam a sociedade secreta formada na primeira reunião com o Real Madrid de “Big Seven”, explicando como seria a debandada dos clubes em suas federações.

Em Zurique, mais um encontro. Por lá, os dirigentes discutiram se a Superliga deveria se fechar em seu clubinho ou se aceitaria um sistema de acesso / rebaixamento a outras agremiações. Apontavam os custos de uma organização mais ampla e a obrigatoriedade de dividir as receitas com quem não estaria na elite. Além disso, atentavam à necessidade proteger suas agremiações de qualquer risco de sair da posição privilegiada. Ao final do evento, os dirigentes votaram em “revolução” ou “evolução”: quebrar acordos com as ligas e federações ou permanecer na atual estrutura, tentando explorar o cenário ao lado da Uefa.

Ao menos por ora, pesaram as negociatas com a Uefa. A saída completa das ligas e federações dependeria de uma organização maior – por consequência, de mais tempo. Em encontro da ECA, os cartolas das potências agiram como se nada tivesse acontecido. Pior, Rummenigge apontou que era interesse da própria Uefa criar uma competição paralela, voltada à elite, como se não trabalhassem em um negócio privado nos bastidores. A tal “terceira competição continental”, anunciada recentemente pela Uefa, seria este argumento também para oferecer um pouco de pão aos pobres. Ficou subentendido que a entidade continental possibilitaria a tal “evolução”, quando as tramas da “revolução” eram feitas por baixo dos panos.

O próximo passo aos clubes foi sondar a possibilidade de formar uma empresa própria, que ajudaria na pressão às entidades oficiais. “A Uefa está claramente temendo que nós comercializemos nossos direitos”, apontou Gerlinger, em e-mail a outros dirigentes. Em maio de 2016, membros do Big Seven se encontraram com dirigentes da Uefa em Budapeste. Estavam com todas as cartas na manga, até pela situação incerta da entidade internacional. Todavia, segundo e-mail enviado por Rummenigge e Agnelli, os interesses das potências não foram atendidos. A Uefa não teria capacidade para encontrar soluções. Os clubes deveriam, então, se tornar os condutores do sistema. “O desenvolvimento das competições europeias não é uma opção: é uma necessidade”, pontuaram.

A permanência na Champions, naquele momento, dependeria de algumas condições. A competição seria reduzida a 24 participantes; equipes bem-sucedidas no passado deveriam ter lugares privilegiados no torneio; os finais de semana também ganhariam partidas, enquanto o horário dos jogos passaria a ser regido para atender o mercado global na televisão, visando Américas e Ásia; e, sobretudo, os clubes ganhariam poderes para controlar a competição ao lado da Uefa. Assim, as potências teriam mais influência sobre o poder direto e sobre o dinheiro. Era uma alternativa menos drástica que a Superliga, embora resultasse em benefícios claros. Pior aos demais clubes representados pela ECA, ignorados por seu próprio presidente.

A Uefa preferiu se agarrar na própria estrutura, garantindo que não havia um objetivo claro na reunião inicial e que decisões tão importantes não poderiam ser tomadas nestas circunstâncias. A entidade sequer sabia quais os times representados pelo Big Seven. Preferia manter seus processos internos, nos quais questões tão essenciais não são tomadas da noite para o dia, e sim discutidas por comitês. Ficava clara uma queda de braço entre o peso do Big Seven e a organização da Uefa. As ameaças das potências, contudo, logo se tornariam eficazes. Em Nyon, na sede da confederação, os funcionários da Uefa apresentaram novas medidas complacentes aos interesses dos clubes. Vieram as reformas iniciais da Champions, concretizadas nesta temporada, e a promessa de mudanças mais profundas a partir do novo período de negociações de direitos televisivos, em 2021.

Troféu da Champions League (Photo by Harold Cunningham/Getty Images for UEFA)

Além de mais vagas, a atual divisão de direitos da Champions oferece mais dinheiro aos principais clubes. Os tradicionais recebem mais e também haverá mais grana a quem vencer os seus jogos no torneio – o que deixa o cobertor mais curto ao compartilhamento geral e à Liga Europa. Os abismos aumentam, e não apenas no cenário continental, como também nas ligas nacionais. Panorama que, de uma forma ou de outra, empurra cada vez mais a realidade à Superliga. A hegemonia de Juventus, de Bayern e de Paris Saint-Germain são bons pretextos. Some-se a isso a força do Top 6 da Inglaterra ou do Top 3 da Espanha. A estrutura cada vez mais favorece planos mais restritos. E a consumação do poder dos gigantes.

Também internamente, a Uefa abriu o galinheiro às raposas. Os gigantes ganharam quatro cargos de diretores dentro da Uefa. Três deles negociam concomitantemente pelo Big Seven, incluindo Gerlinger. Farão parte da organização e poderão analisar de perto todos os balanços e acordos feitos pela entidade. Saberão o que será necessário para impulsionar a Superliga, absorvendo a expertise na realização de eventos e nos custos relativos. A medida encontrou oposição, sobretudo da EPFL, entidade responsável por reunir 35 ligas profissionais da Europa. Já percebiam que a aproximação entre Uefa e potências, em teoria representando a ECA, seria um passo para a Superliga. “Essas emendas foram o resultado da pressão e da ameaça representadas pelos principais clubes que estiveram em posição de lucrar com o vácuo de poder na Uefa e impor suas reformas com o auxílio dos aparatos da entidade”, avaliou a EPFL, em relatório de dez páginas analisando a situação.

No início de outubro, a equipe da Der Spiegel entrevistou Michael Gerlinger. Ouviu do dirigente como a cooperação com a Uefa se tornou uma medida excelente e que a autodeterminação dos clubes era sua preocupação nas negociações. Também não negou que a saída da Bundesliga foi analisada, dentro de uma porção de cenários, mas que ninguém estava realmente levando a sério. A Superliga seria “algo diferente”, envolvendo “marcas do futebol” se enfrentando e elevando a comercialização do esporte a um novo nível. Mas, segundo suas palavras, Rummenigge ficou incomodado com a ideia da competição particular e garantiu que o acordo com a Uefa seria priorizado. O dirigente do Bayern apontou que não era necessário temer a Superliga, porque as discussões com a Uefa visando novos formatos, a partir de 2024, já estavam em curso.

Semanas depois, contradizendo o alemão, o Real Madrid recebeu um e-mail acessado pelo Football Leaks. Trazia um rascunho de 13 páginas sobre o estabelecimento da Superliga entre 11 clubes. Seriam os fundadores da nova competição, que enterraria a Champions League a partir de 2021. Estas equipes não encarariam o risco de rebaixamento e teriam sua presença no torneio garantida por 20 anos. Também seriam incluídos mais cinco times, na condição de convidados especiais, sem os mesmos privilégios. Em novembro de 2018, as assinaturas deveriam ser recolhidas, para dar sequência aos planos.

Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Juventus, Chelsea, Arsenal, Paris Saint-Germain, Manchester City, Liverpool, Milan e Bayern de Munique são os 11 fundadores. Atlético de Madrid, Borussia Dortmund, Olympique de Marseille, Internazionale e Roma entrariam como cinco convidados. Os 11 fundadores registrariam uma empresa na Espanha, responsável por organizar e comercializar a Superliga. Além disso, os clubes fundadores teriam percentuais distintos nas ações dessa companhia. Real Madrid e Barcelona seriam os mais proeminentes, seguidos por Manchester United e Bayern de Munique. O rascunho do documento não menciona a Uefa.

A Champions League ameaçada? (Photo by Valerio Pennicino/Getty Images)

A Superliga teria uma temporada regular e, posteriormente, mata-matas. Também existem planos para criar uma outra Superliga, uma espécie de segunda divisão. Os participantes desta poderiam disputar o acesso, mas apenas contra os cinco convidados. Algo parecidíssimo acontece na EuroLeague, o campeonato europeu de clubes no basquete. Exatamente 11 times possuem seu lugar garantido, entre eles Real Madrid e Barcelona. Já as outras vagas são definidas conforme as ligas nacionais mais importantes e a EuroCup, uma espécie de Liga Europa da modalidade. No entanto, com o calendário mais maleável no basquete, absorvendo um número maior de jogos, ninguém precisou deixar suas ligas nacionais. Apenas o antigo formato de competição europeia principal, aberta a todos, deixou de existir. Dentro da realidade do futebol, contudo, as medidas são bem mais drásticas.

À Spiegel, o chefe-executivo do Borussia Dortmund, Hans-Joachim Watzke, se recusou a dar detalhes mais amplos sobre a iniciativa. Mas admitiu que as conversas seguem acontecendo nos bastidores e que alguns dos grandes clubes da Europa trabalham nisso. “Os planos não são aparentemente muito concretos ainda. A barreira está sobre as ligas nacionais. Enquanto eu for responsável aqui, o BVB não irá deixar a Bundesliga. A Superliga teria que acontecer em conjunto, mas o clube mantém todas as suas opções abertas. O novo torneio não poderia acontecer sem o Dortmund”, apontou Watzke.

A questão em relação às ligas nacionais, afinal, extrapola o mero ponto de vista jurídico. Também entraria em atrito com aqueles que realmente fazem o futebol, mas são cada vez mais ignorados: os torcedores. Com o caráter local extremamente forte em algumas ligas, sobretudo na Inglaterra e na Alemanha, não seria tão simples enfrentar esta resistência em um primeiro momento. De qualquer maneira, o Big Seven, os 11 fundadores ou quem mais for, na verdade, miram consumidores. E esses consumidores não se resumem à Europa, mas sim aos mercados em expansão, sobretudo as Américas e a Ásia. O cartel formado entraria com força em outros rincões no planeta, pelas marcas estabelecidas que as potências possuem. Ao mesmo tempo, estes renegam os princípios de competitividade e de integridade esportiva, recusando-se a deixar o trono. A criação de um grande campeonato, de fato, parece difícil de se contornar nos próximos anos. Mas não precisa necessariamente de tamanha arrogância.


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