Não são tão raros os clubes tradicionais que se cindiram e que possuem versões duplicadas de si, por diferentes motivos. A Europa é repleta de histórias neste sentido, da Universitatea Craiova ao United of Manchester, do CSKA-1948 ao Austria Salzburg. O Belenenses, entretanto, é um caso bastante singular. A tradicionalíssima agremiação de Lisboa abriu suas portas a um grupo de investidores em 2012, mas logo percebeu que entrou numa furada, com novos donos que pouco se importavam com a história e que ignoravam as opiniões dos sócios. A solução aos Azuis do Restelo, então, foi se dividir: o clube Os Belenenses resolveu recomeçar nas divisões amadoras do Campeonato Português carregando sua tradição, enquanto o Belenenses Sociedade Anônima Desportiva manteve seu insosso modelo empresarial na primeira divisão. E neste processo que já vem desde 2018, este mês de julho representa um marco histórico à agremiação.

Em Assembleia Geral no último dia 4, o clube Belenenses resolveu vender os 10% de capital que ainda tinha da Sociedade Anônima Desportiva – a entidade que funciona como clube empresa e que gerencia o time profissional. Conforme a legislação do futebol português, a massa de associados de qualquer clube fundador precisaria manter ao menos 10% das ações da SAD. Entretanto, depois de ter consultado a professora Maria de Fátima Ribeiro (chamada pelos Azuis de “a maior especialista em Portugal na matéria”), o clube Belenenses viu que era possível vender estes 10% do Belenenses SAD sem sofrer consequências legais e romper de vez os laços com o grupo empresarial.

A diretoria do clube Belenenses apresentou à Assembleia Geral dos sócios a oferta de venda desses 10%. Por 143 votos a favor e apenas três contra, além de uma abstenção, os Azuis decidiram se apartar em definitivo da equipe que atualmente figura na elite do Campeonato Português. A compra foi realizada por Ricardo Sá Fernandes, advogado que apoia a reconstrução do clube nas divisões amadoras e pagou mil euros para assumir os 10% de capital. Assim, o clube Belenenses e o Belenenses SAD não possuem mais um vínculo direto.

O presidente do clube, Patrick Morais de Carvalho, comemorou a decisão em carta à torcida: “Hoje os sócios do Belenenses deram mais uma prova inequívoca de que o caminho que querem para o clube é um caminho de refundação, assumindo erros cometidos no passado e com eles aprendendo para que o futuro seja azul do céu, como cantava o nosso amigo e consócio, o poeta Pedro Barroso. Com a venda dos 10% que o clube ainda detinha naquela sociedade desportiva, todo e qualquer vínculo fica quebrado e será no Restelo, pela voz dos sócios, sob a égide dos nossos fundadores, que vamos reconstruir o Belenenses”.

“Os sócios hoje formalizaram a separação definitiva e não há mais pontos de contato possíveis. A SAD que joga no Jamor, agora na Cidade do Futebol, é a partir deste momento uma SAD de raiz, sem clube fundador a deter direito de veto sobre as suas decisões. Que aproveite esta liberdade para encontrar uma identidade marcaria que não se confunda mais com este clube centenário. E que todos os confrontos que possamos vir a ter sejam dentro de um campo de futebol, com 11 valorosos atletas de cada lado”, complementou o dirigente.

Entendendo melhor a cisão

O trecho abaixo foi escrito com base no livro ‘Clube empresa – abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol’, organizado por Irlan Simões e publicado pela Corner. Há dois capítulos sobre o Belenenses: ‘Acabou o amor: o processo de divórcio entre clube e SAD em Portugal’, de Fernando Borges; e ‘Clube de Futebol Os Belenenses: síntese histórica de um clube grande e histórico em Portugal’, de Edgar Macedo e Rui Silva, membros da assembleia de sócios dos Azuis.

Se você quiser comprar o livro, que discute o sistema de clube empresa em vários países e amplia a visão sobre o que pode acontecer no Brasil, ele está disponível na loja da Corner. Apoiadores da Trivela têm 15% de desconto na compra. Os apoiadores podem conferir o código do cupom no blog do Apoia.se/Trivela – e se você não apoia, também pode se associar ao site.

A origem da cisão do Belenenses está na legislação estabelecida aos clubes de Portugal a partir dos anos 1990 e consolidada em 2013. Diante da transformação de um esporte cada vez mais profissional, as autoridades locais determinaram que as agremiações deveriam se transformar em empresas. O modelo de Sociedade Anônima Desportiva passou a ser imposto aos times que quisessem disputar as principais divisões do país. Os departamentos de futebol profissional se remodelaram como as tais sociedades anônimas desportivas, a partir da abertura de capital. Em paralelo, os clubes associativos sem fins lucrativos continuaram existindo de maneira concomitante às SAD’s. Eles ainda seriam donos do patrimônio material e imaterial das equipes, resguardando assim as instalações esportivas e os símbolos, além de terem poder de veto e um mínimo de 10% do capital.

O Belenenses transformou-se em SAD a partir de 1999, mas manteve seu capital com o clube fundador. A venda aconteceu apenas em 2012, quando o time enfrentava dificuldades financeiras. Como explicam Edgar Macedo e Rui Silva, em seu capítulo no livro ‘Clube Empresa’: “De 1999 até o final de 2012, o Belenenses viveu momentos de maior êxito esportivo (com destaque para a participação na final da Taça de Portugal em 2007) e outros de desastroso desempenho. A lógica própria das ‘sociedades anônimas desportivas’ foi enfim afastando os belenenses do Belenenses, com uma progressiva e cada vez mais acelerada erosão associativa e queda acentuada no número de torcedores presentes no estádio, o que veio acentuar e dramatizar a situação financeira da SAD e do clube. É precisamente essa dinâmica negativa, agravada pela incapacidade diretiva de trazer de volta os sócios e torcedores ao clube, que culmina na venda da posição majoritária do clube na SAD”.

Com o Belenenses fragilizado, os novos investidores surgem como “esperança de tempos melhores”. Ao todo, 51% das ações foram adquiridas pelo grupo Codecity, do empresário Rui Pedro Soares. As promessas não fugiam muito daquilo que se vê nesse tipo de negociação, com a previsão de grandes investimentos na equipe e a melhora nas estruturas. Não foi o que aconteceu. Na verdade, Rui Pedro Soares centralizou as decisões do futebol profissional em suas mãos e pouco estava interessado no que pensava o clube. Faltava qualquer tipo de diálogo, apesar das tentativas de sócios e dirigentes do clube em estabelecerem pontes com a SAD.

Fernando Borges, em seu capítulo no livro ‘Clube Empresa’, traz detalhes: “A relação entre investidor e clube nunca foi positiva. Dentre as várias queixas do clube em relação ao comportamento da SAD estão a falta de investimento (a grande maioria dos jogadores que foram contratados veio a custo zero ou foram emprestados); os custos de manutenção do estádio eram suportados integralmente pelo clube, entidade sem fins lucrativos, sem compensação pela SAD; a não utilização de jogadores que vinham das escolas de formação do clube (pois implicava o pagamento da SAD ao clube que detém o futebol de base); e o desagrado pelo envolvimento do nome do clube, por intermédio do presidente da SAD, Rui Pedro Soares, em investigações de corrupção”. Até mesmo a agressão a sócios foi outro problema grave.

Entre tantos entraves, os associados e os torcedores eram alijados dos processos decisórios da SAD. A Codecity aumentou sua participação na sociedade anônima e deu seu golpe ao vencer um imbróglio judicial. Existia uma cláusula no contrato entre investidor e clube que permitia, até uma data limite em 2017, a recompra do capital integral por parte dos associados. Nos tribunais, a SAD derrubou esta possibilidade. Desta maneira, estava mais do que claro que os Azuis não voltariam mais a ser de seus verdadeiros donos, os torcedores.

O rompimento aconteceu em 2018, quando o clube Belenenses e a SAD se tornaram duas entidades isoladas. A SAD queria rever o protocolo de relações com o clube, o que foi denunciado pelos sócios. Sem qualquer conversa, o Belenenses SAD deixou o Restelo e passou a gerenciar seu time profissional de maneira paralela. Já o clube Belenenses formou um novo elenco contando com os jogadores da base e foi reescrever sua história a partir da liga distrital de Lisboa – a base da pirâmide no Campeonato Português, equivalente à sexta divisão nacional.

Sabe aquela história de resguardar os bens materiais e imateriais? Então: o Clube de Futebol “Os Belenenses” recomeçou no amadorismo com o Estádio do Restelo e com o centro de treinamentos, assim como preservando o seu escudo, o seu uniforme e os demais elementos históricos – além das outras modalidades praticadas pelo clube fora o futebol. Por sua vez, o Belenenses SAD ficaria com o elenco profissional, a vaga na elite do Portuguesão e as receitas mais abastadas. Mas precisou criar um novo emblema, uma nova camisa e os demais símbolos. Começou a atuar no Estádio Nacional do Jamor, pertencente ao estado português.

Logo em sua primeira temporada, em 2018/19, o clube Belenenses protagonizou uma campanha arrasadora na sexta divisão e conquistou o acesso. Parte considerável da torcida começou a acompanhar esta equipe, registrando públicos expressivos para as ligas distritais. Em sua estreia, foram 5 mil nas arquibancadas. Já o Belenenses SAD viu os espectadores minguarem. Ainda muitos torcedores mantiveram o apego ao time na elite e compareceram aos jogos no Jamor. De qualquer maneira, a média de público caiu quase 20%, de 3,3 mil espectadores por jogo em 2017/18 para 2,7 mil na atual temporada.

Em setembro de 2019, o Belenenses comemorou o seu centenário. As principais ações foram comandadas pelo Clube de Futebol “Os Belenenses”, o detentor da história, com apenas referências menores feitas pela SAD. Os Azuis afirmavam publicamente o rompimento completo com a SAD, sem mais qualquer ligação do clube fundador com a gestão do futebol profissional da elite. Mas restavam aqueles 10%. Por isso mesmo, o que aconteceu na última Assembleia Geral foi tão importante. Agora, não há mais nenhum laço oficial entre o clube Os Belenenses e o Belenenses SAD.

O clube Belenenses tentará ampliar sua história gloriosa com uma grande ascensão. O campeão português de 1946 enfatiza o seu caráter singular e o seu passado rico na caminhada para subir os níveis amadores o mais rápido possível. Com o apoio dos associados, a reaproximação da torcida e até mesmo um marketing forte por trás, dá para aguardar os Azuis de volta ao profissionalismo em pouco tempo – e sem cometer os mesmos erros. Já o Belenenses SAD continuará como um negócio, de destino bem mais incerto se o público seguir se reduzindo ou se os investidores desistirem de seu brinquedo. Ainda é uma equipe de elite, mas que ocupa apenas o 14° lugar na atual temporada e corre o risco de rebaixamento. Se cair, dentro de todas as circunstâncias, pouca gente sentirá falta.

*****

Por fim, fica a sugestão de live realizada pelo ‘Na Bancada’, com os autores dos capítulos sobre o Belenenses no livro ‘Clube Empresa’. Acontecerá na próxima sexta-feira.