Na Bancada

Por que os clubes da Série C não recebem cotas de transmissão?

CBF alega ter prejuízo com a Série C, mas tem superávit geral e não tem um sistema de distribuição de receitas de direitos de transmissão, mas há formas de melhorar e mudar isso

Por Anderson Santos, do Na Bancada

Recebi de um amigo torcedor do Santa Cruz a pergunta que dá título a este texto. Afinal, a edição de 2021 da Série C do Campeonato Brasileiro terá transmissão da Band, para Norte, Nordeste e interior de São Paulo, do DAZN e da TVN Sports. Desses, apenas o primeiro de forma gratuita. Mas os clubes não ganham nada por isso.

A plataforma de streaming DAZN é a proprietária dos direitos de transmissão da Série C desde 2019, assumindo o lugar do Esporte Interativo, pagando cerca de R$ 20 milhões por temporada para a CBF, que usa este valor para pagar custear a competição.

Para tentar saber o porquê de os clubes não ganharem, em tempo que apontaremos algumas possibilidades, partiremos para receitas e despesas da entidade e para uma discussão sobre o modelo optado no contrato de cessão de direitos de transmissão da Série C.

Opção 1: Não deveria ser “auxílio”!

A confederação brasileira anunciou em 27 de maio o repasse de R$ 200 mil a cada clube que disputa a terceira divisão nacional, como uma “nova medida de apoio a clubes e federações em meio à pandemia da covid-19”. É “nova” porque no ano passado também distribuiu o mesmo valor, mas semanas após 16 capitães de clubes enviarem um abaixo-assinado solicitando auxílio financeiro para suas equipes. Em julho, os 20 clubes pediram novo apoio financeiro e início do torneio junto às Séries A e B, mas foram atendidos apenas na segunda solicitação.

Desta vez, porém, além times das Séries C e D do Campeonato Brasileiro de homens, e das Séries A1 e A2 do Brasileiro de mulheres, as federações também ganharam R$ 120 mil. Vale salientar que é um momento de grande crise interna no grupo político que comanda a entidade há 32 anos. As federações têm maior poder de voto nas eleições da entidade. Com o apoio delas, vence-se a eleição, mesmo que todos os clubes das Séries A e B, que também participam da votação, apoiem outro candidato.

A soma dos auxílios da CBF nos dois anos é de R$ 8 milhões, 25% do que a DAZN pagou pelos direitos de transmissão do torneio. Porém, segundo as “Demonstrações Financeiras 2020” da entidade, os gastos com o campeonato subiram de R$ 33,966 milhões para R$ 42,530 milhões.

Segundo o documento, os custos da competição são os seguintes: “dispêndios com mídias, ações de marketing, arbitragem, exames antidoping, transportes aéreos e terrestres e hospedagens”. Assim, podemos concluir que o valor pago para a transmissão seria insuficiente para manter o torneio. Portanto, nada feito?

Não. Vamos observar por outro lado, o das receitas gerais da confederação. Ainda segundo o balanço publicado pela CBF, a pandemia gerou uma queda de 25% nas receitas quando comparado ao ano anterior (R$ 957,002 milhões X R$ 715,914 milhões). Ainda assim, a demonstração acaba com a seguinte informação: “a CBF obteve superávit de R$ 48.859 (quarenta e oito milhões e oitocentos e cinquenta e nove mil reais), mantendo reservas financeiras que alcançam o somatório de R$ 873.313 (oitocentos e setenta e três milhões e trezentos e treze mil reais)”.

Pensando num torneio que ocorre durante a pandemia de Covid-19, com o necessário fechamento de portões dos estádios, só há a publicidade em camisas como fonte de receitas. Como é na Série C e sem visibilidade de mídia nacional, pode-se imaginar que não é lá grande coisa.

Assim, mais que “auxílio”, deveria ser obrigação da CBF passar recursos para os clubes que disputam o torneio, por mais que o valor das cotas de TV não paguem os custos. Imagina numa crise com essa proporção. Com superávit mesmo em tantas crises dos últimos anos, cabe a ela não só socorrer, mas criar uma forma de fortalecer os clubes.

Opção 2: Melhorar os contratos

Compreende-se que o modelo de negócio da DAZN é de maior risco que o normalmente assumido por emissoras de TV aberta e fechada. É preciso considerar que houve diminuição de investimento em direitos pela plataforma de streaming, especialmente com a pandemia, que não pode se beneficiar de tantos tipos de conteúdo para pagar os direitos mais caros. Além disso, a assinatura mensal baixou nos últimos anos, estando em R$ 19,90, mas vale apenas para metade dos jogos da primeira fase e para os jogos das demais fases.

No ano passado, o My Cujoo cobrou por um pacote de jogos, neste, é a TVN Sports que sublicenciou o direito de exibir a outra metade dos jogos da primeira fase, cobrando um valor único de R$ 59,90. Considerando um tempo médio de 4 meses de competição, isso daria mais R$ 15 por mês.

Assim, até compreendo o sublicenciamento para pagar os custos com os direitos, mas não entendo que essa relação contratual não seja estabelecida de forma mais transparente com os clubes, que estão a mercê do que a CBF define.

No ano passado, com a Série C iniciando sob vigência da Medida Provisória 984/2020, a MP do Mandante, o Londrina tentou usá-la para transmitir seus jogos em casa, chegando a anunciar plataforma própria com esse fim, mas foi barrada pela entidade, que articulou, de última hora, uma parceria com o My Cujoo para os jogos que não teriam transmissão audiovisual.

Há modelos melhores já existentes. Ficando no futebol, a Copa do Nordeste vende os direitos da Copa do Nordeste para o SBT Nordeste, mas com uma margem para um valor maior de acordo com o que a emissora conquistar de publicidade. Isso, por sinal, já estava presente no contrato com a Top Sports/Esporte Interativo assinado em 2010, com modificação em 2013, que garantiu financeiramente a competição.

Quanto ao sublicenciamento, seria uma das mudanças na tentativa de licitação do Clube dos 13 para a transmissão da Série A, em 2011. A partir de determinado valor de revenda, a emissora que adquiriu os direitos era obrigada a repassar aos clubes – trato no meu livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019) como houve a implosão do C13, mas tanto Globo como Band se posicionaram contra isso. Você pode ler a história da ascensão e queda do Clube dos 13 aqui na Trivela.

Outra opção seria um critério de pagamento para clubes a partir de determinado número de assinantes, que pagaria os custos, como ocorre com plataformas de streaming como o Premiere (para a Série A e, em raros casos, na Série B) e no Nordeste FC. Ajudaria, por sinal, a própria plataforma a garantir maior divulgação dos clubes e interesse das torcidas. Afinal, assiná-la seria ajudar diretamente a equipe do coração a ter mais receita.

Ou seja, definir critérios para o sublicenciamento ou qualquer outro ganho a partir de um torneio de futebol já existiu como ideia antes e está em vigor em torneios no país e poderia constar no acordo com a DAZN.

Considerações finais

Na minha avaliação, caminhos para distribuir recursos para participantes da Série C – mas também para as séries D e A1 e A2 do futebol de mulheres – existem, resta saber se há interesse político para dar melhores condições econômicas para os clubes que disputam torneios que, por enquanto, seguem deficitários. Com melhores condições para que os clubes disputem o torneio, mais interesse de marcas para publicidade dele e dos clubes e ainda mais para o público (espectador), incluindo quem não tem times envolvidos, para acompanhar a competição.

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