Na Bancada

Novidades não tão novas assim: ideias da Superliga estavam em banho-maria há décadas

As ameaças de rompimento não são novas, sempre rondaram corredores de clubes e federações da Europa

Por João Ricardo Pisani

No dia 18 de abril, o mundo do futebol se viu (mais uma vez) surpreso com a noticia de uma liga composta por um seleto grupo de clubes eclodir na Europa. Não que a proposta de criação de um torneio que reúna as maiores equipes em faturamento do futebol global seja novidade, mas pela primeira vez o anúncio não era apenas um apanhado de reclamações em forma de ameaças e insatisfações. Dessa vez ele vinha acompanhado de uma marca, logo, planos, financiadores, membros e falava até em convidados.

Esse histórico de ameaças de rompimento não é novo, já ronda os corredores de clubes e federações europeus faz algumas décadas. Por isso, é muito importante revisitar alguns desses episódios para entender que essa briga é algo que tem se reciclado com certa periodicidade, e nada impede que, passada essa última bravata, novos capítulos voltem a aparecer.

Em 1998, a agência de marketing esportivo italiana Media Partners, consciente da insatisfação dos clubes com a UEFA, tentou seduzir os grandes clubes europeu a iniciarem sua própria liga continental. Os clubes reclamavam do modo como a entidade máxima do futebol na Europa vinha organizando suas competições e questionavam fortemente se o calendário não poderia ser repensado para se tornar mais lucrativo. Apesar desse episódio não render nada de concreto, nota-se pela primeira vez a ânsia de se criar um novo torneio de meio de semana.

No texto de 2016 “What If a European Super League Had Launched in 1998?”, o jornalista Robert O’Connor vai além, e escreve sobre um futuro distópico onde a proposta da Media Partners se torna realidade. Ali, ele ilustra de forma criativa o impacto avassalador que uma proposta nesses moldes teria no panorama do futebol da Europa e nas suas ligas nacionais. O artigo publicado no site Bleacher Report usa do capítulo de 1998 como pontapé inicial para seu exercício de futurologia, mas também bebe muito na fonte de outras propostas (ou ameaças) que vieram logo a seguir da bravata italiana.

O próximo episódio dessa saga marca a estreia de Florentino Pérez como porta-voz das mesmas críticas em 2009. Recém empossado para seu segundo mandato à frente dos blancos, Pérez alega que uma realidade com mais jogos entre as equipes de maior calibre do continente é algo factível e que a UEFA não faz nada para que isso aconteça. Amparado pelas projeções econômicas que um torneio assim teria potencial de angariar, o mandatário do clube de Madrid não desprezava as ligas nacionais, mas colocava elas em um segundo escalão, menos atrativas financeiramente.

Atenta a essa insatisfação entre seus filiados, e principalmente ao eterno descontentamento dos clubes com maior poderio econômico, a UEFA reorganizou suas principais competições de clubes. Em paralelo a confederação testemunhou de camarote o surgimento do G-14, a evolução desse grupo para a ECA, a famigerada European Club Assotion, entidades que de certa forma sempre recorreram à ideia/ameaça da criação de uma nova liga como poder de barganha nas negociações com a UEFA.

Com bons índices de público e arrecadação, mas sem conseguir desdobrar esses feitos (ou qualquer entusiasmo) para o âmbito desportivo, a International Champions Cup, financiada pelo americano Stephen Ross, mostra que existe uma demanda global para a disputa de partidas entre as potências europeias do futebol. Com jogos espalhados por mercados estratégicos como a América do Norte, Austrália, China e Singapura, o torneio de verão reforça a ideia de que Europa já não basta para os milionários clubes da elite europeia. Cientes de que esse potencial se materializa nos direitos de transmissão internacional, mas que no nível continental o sistema UEFA cobra um pedágio nada singelo, os clubes ingleses também passam a rascunhar suas pretensões para uma liga continental restrita. Apesar de mais contidos em movimentações anteriores, mas donos do principal campeonato de futebol do planeta na atualidade, as equipes da Premier League chegam a discutir com Ross como tirar essa ideia do papel.

Vale ressaltar que as confabulações por uma liga que se desgarrasse do sistema tradicional do futebol não escaparam nem mesmo do famigerado e explosivo Football Leaks, encabeçado pela revista alemã Der Spiegel. Numa série de publicações iniciada em 2018, e baseada em e-mails vazados que mostravam as trocas de mensagens entre os principais mandatários do futebol europeu e suas idas e vindas para contornar, manipular ou moldar o futebol de acordo com suas vontades, as maquinações para uma liga restrita também encontraram abrigo.

Vale destacar aí a participação de Andrea Agnelli. De forma alguma, o herdeiro da Fiat e presidente da Juventus é mais importante que outros personagens que aparecem no Football Leaks, mas dentro do contexto de uma Superliga, as manobras de Agnelli merecem um capítulo único. Sua declaração contra a Atalanta alguns anos depois dos episódios retratados na publicação alemã sintetiza uma visão que passou a ser presente nas atitudes dos clubes que abraçam a proposta de uma liga exclusiva. Irritado com a participação dos Bergamascos na Champions League, em detrimento de clubes com investimentos maiores como a Roma, Agnelli dispara “Respeito muito o que a Atalanta está fazendo, mas eles não têm história internacional nenhuma. Tiveram uma boa temporada e, de repente, ganham acesso direto à maior competição europeia de clubes? Acham isso correto?”. O mandatário ainda arremata com “Eu acho que a Roma, que contribuiu nos anos recentes para manter a Itália no ranking teve uma temporada ruim e está fora. Com isso, acontecem os danos financeiros. Nós precisamos proteger nossos investimentos e gastos”.

O que o futebol assistiu em abril de 2021 foi surpreendente, mas de jeito nenhum o que se viu ali era inédito ou pouco familiar. A recente The Super League, dessa vez encabeçada formalmente por United, Liverpool, City, Chelsea, Arsenal, Tottenham, Juventus, Inter, Milan, Barcelona, Atlético e Real Madrid é a mistura de todos esses elementos em um caldeirão que vem levando em banho-maria seus ingredientes por décadas. Ingredientes como o “novo torneio de meio de semana” da italiana Media Partners, a proposta de “mais jogos entre as equipes de maior calibre no continente” de 2009 de Florentino Perez, o “pedágio caro da UEFA” de 2016 dos clubes da Premier League, e a ideia de que “nós somos a razão do futebol ser uma indústria que movimenta milhões hoje e não mediremos meios para controlar isso” do Footballl Leaks.

Dessa vez a UEFA se mostrou mais firme frente às rebeldias que ameacem o sistema do futebol como um todo. Mas não foi a confederação europeia quem causou toda a convulsão necessária para se barrar a ideia. A comoção popular e principalmente o papel dos torcedores foram essenciais dessa vez, elementos que sempre vão estar ali para resguardar os valores que o futebol deveria prezar sem pestanejar, sendo ele paixão ou indústria. Contudo, fica claro o quanto o modelo atual precisa rever alguns conceitos e tratar de uma vez por todas no divã esse emaranhado de interesses, superegos, ameaças e relações abusivas. Afinal, a UEFA que precisou subir o tom agora, é a mesma confederação que cedeu aos caprichos desses mesmos clubes todos esses anos. É também a mesma entidade que permitiu que esses clubes hoje vistos como rebeldes e mimados, se desgarrassem ainda mais e crescessem exponencialmente em tamanho, relevância e riqueza. Equipes de Portugal e Holanda que nos anos 2000 figuravam nos planos de qualquer proposta que quisesse estabelecer uma liga de elite na Europa, hoje já não gozam de tanto sucesso nos certames continentais. Essa situação ilustra quão danosas essas atitudes podem ser para o ecossistema do futebol.

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