Na Bancada

Futebol, ofensas e ofensivas na Inglaterra: o que não se entende na revolta dos torcedores

*Por Irlan Simões

Em março de 2020, publicávamos aqui, na coluna do Na Bancada na Trivela, o artigo “Futebol, ofensas e ofensivas na Alemanha: o que não se entende na revolta dos torcedores”. A ideia explorar, como o título bem diz, a falta de entendimento  sobre os fenômenos que aconteciam naquele momento.

Era bem nítida a dificuldade que muitos analistas do futebol no Brasil tinham em entender o pano de fundo da revolta dos torcedores alemães contra Dietmar Hopp, o “proprietário” do Hoffenheim, atacado por inúmeras arquibancadas em todo o país. Acontece praticamente a mesma coisa agora, quando falamos da revolta dos torcedores ingleses.

O último domingo (2 de maio) ficará na história pelas cenas protagonizadas por torcedores do Manchester United durante a invasão do Old Trafford, trajando verde e ouro, usando fumaças, xingando os Glazers, exigindo o “50+1”, denunciando o roubo de mais de um bilhão de libras do clube, cercando o estádio e sendo reprimidos pela polícia.

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Por um lado, muitos resumiram a revolta aos maus resultados do clube nos últimos anos (com uma queda considerável de disputas e conquistas de títulos no certame local e internacional), enquanto outros, mais afeitos ao lado “negócio” do futebol, reduziram toda aquela mobilização a um “problema de comunicação” entre proprietários e os consumidores dos espetáculos promovidos pelo seu clube-empresa.

Bastava uma rápida pesquisa para entender que o movimento contrário aos Glazers, família proprietária do United, se arrasta desde a chegada destes ao controle do clube em 2005, com grande resistência de torcedores que já se organizavam contra a venda do clube para um grupo estrangeiro ainda em meados de 1998, desde a fracassada tentativa de aquisição do clube por Rupert Murdoch.

O buraco é tão mais embaixo, que nem os longos mágicos anos da Era Ferguson arrefeceram ou esvaziaram os protestos daqueles torcedores que usaram o verde e ouro para simbolizar a luta dos torcedores do clube por maior participação – ou mesmo retomada – do controle do Manchester United, reivindicando as cores de fundação do clube.

Como os protestos recentes contaram com o gatilho da breve vida da famigerada “Super League”, pareceu fácil apontar que esses movimentos surgiram única e exclusivamente da ação espontânea das redes sociais, de jovens torcedores desses clubes ou, como alguns usaram para desqualificar os movimentos, da existência de um punhado de “torcedores de legado”.

O processo na Inglaterra é profundamente distinto daquele que avaliamos no texto sobre a Alemanha, mencionado no início do texto, mas a matéria-prima é basicamente a mesma: torcedores, organizados em coletivos, grupos ou movimentos, protestam contra os proprietários ou mandatários dos seus clubes, demandam reformas estruturais no futebol atual, reivindicam um papel mais importante como atores do futebol e do processo histórico de formação dos clubes enquanto instituições sociais coletivas.

Qual o principal motivo do ódio aos Glazers? – trecho da Live “Acabou a paz no Man United”

Não foram apenas os grupos ligados ao “Big 6” que estiveram protestando, e nada disso se resume aos atos dos últimos dias. Pelo contrário, eles estão apenas reproduzindo um longo histórico de manifestações de torcedores na Inglaterra, existente do topo à base da pirâmide do futebol inglês.

São décadas de existência de entidades como a Football Supporters Association, organização que busca congregar torcedores e representar seus interesses; e esteve presente nos debates pela melhoria das condições dos estádios e mudança na política de segurança dos jogos, ainda na década de 1980 (sim, antes de Hillsborough!).  

São organizações herdeiras de uma longa tradição de envolvimento e mobilização dos torcedores, desde a década de 1920 presente na National Federation of Football Supporters, que impulsionou e reuniu por muito tempos os chamados “supporters clubs”. Essas associações chamadas “clubes de torcedores” parecem estranhas aos olhos brasileiros, mas constituem parte importante da história do futebol inglês, uma vez que desde clubes locais são empresas com acionistas desde o início do século XX. 

Mas como o futebol muda, a percepção dos torcedores sobre os seus clubes também se alterou bastante. Os anos 1990 testemunharam o surgimento de diversas “Independent Supporters Associations”, organizações críticas às posturas mais aderentes dos “supporters clubs”. A ideia era avançar sobre as fronteiras: conquistar maior poder de decisão, no rastro do abrupto processo de elitização dos estádios ingleses pós-Hillsborough; e do desembarque do capital estrangeiro na recém-fundada Premier League.

Também já são quase três décadas desde a criação da primeira “supporter trust”, tipo de organização “bem inglesa” que busca reunir torcedores para levantar fundos capazes de comprar ações dos clubes e garantir representatividade desses nos conselhos de administração dos seus clubes. A pioneira desse movimento foi a “trust” do modesto Northampton Town em 1992, elaborada após mais uma crise enfrentada pelo clube. 

Como sempre foi comum no futebol inglês, naquele ano torcedores do Northamption foram convocados para levantar recursos e salvar a agremiação. Toparam, mas resolveram ir além: se for para ajudar, que agora façamos parte dos processos de decisão. Lideranças da torcida do Northampton Town então reuniram cerca de 600 torcedores para criar a “trust”, tornando-os “acionistas coletivos” do clube, garantindo poder de decisão na administração e disparando uma nova ideia de organização de torcedores na Inglaterra.

As “trusts” já estão presentes em quase todos os clubes ingleses, ainda que seus casos mais concretos de avanços só estejam visíveis em clubes da base da pirâmide. De todo modo, a filosofia do “fan ownership” (controle dos torcedores) se disseminou pelo país. E é basicamente isso que compõe o pano de fundo dos protesto dos torcedores do United, apenas um dos muitos que acontecem desde o início dos anos 1990.

O próprio processo de resistência à compra de Rupert Murdoch se dá nesses marcos. A Independent Manchester United Supporters Association (IMUSA), que posteriormente vai organizar a Shareholders United Against Murdoch, é discípula do movimento das supporters trusts e da filosofia das fan ownership. Como já dito, apenas uma de inúmeras experiências existentes no futebol inglês.

A projeção desses movimentos foi grande ao ponto de afetar os debates políticos institucionais, com a criação da Supporters Direct em 2000, durante o governo trabalhista de Tony Blair; e vai provocar manifestações públicas do conservador Boris Johnson, nos tempos atuais. O que não quer dizer, por óbvio, que esses grupos políticos tenham compromisso político absoluto com essas pautas, mas é um sinal do impacto que causaram.

Portanto, não se tratam de consumidores revoltados com a qualidade do espetáculo. A história é muito mais complexa. Há uma densa disputa política e de sentidos: contesta-se a própria ideia de “donos” dos clubes, não o “tipo de dono”. Os torcedores ingleses, em que pese o caráter injusto dessa disputa entre torcedores comuns contra bilionários, estão tentando promover uma nova ideia de futebol. E isso precisa ser entendido com maior cuidado e, principalmente, respeito. Se o movimento existe e causa esse barulho, é porque ele é significativo.

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Ainda no dia 02/05 fizemos no canal do Na Bancada a live “PLANTÃO – Acabou a paz no Man United”,   onde discutimos esses e outros pontos sobre o futebol inglês (comparando com outros lugares do mundo). Convido vocês a conferir.

Irlan Simões é criador do podcast Na Bancada (www.nabancada.online), pesquisador do futebol (LEME/PPGCom/UERJ), autor do livro “Clientes versus Rebeldes – Novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno” e organizador do livro “Clube-empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”.

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