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Wenger quer calendário de março a novembro, menos datas Fifa e Copa do Mundo a cada dois anos

Arsène Wenger quer fazer uma revolução no calendário do futebol mundial, com várias mudanças significativas. O ex-treinador do Arsenal ocupa atualmente o cargo de chefe de desenvolvimento global de futebol na Fifa e, entre outras coisas, tem estudado mudanças que possam impactar positivamente o esporte. Entre elas, quer unificar o calendário mundial no ano solar, quer Copa do Mundo e Eurocopa a cada dois anos e concentrar o período de Eliminatórias em um período menor, reduzindo as datas Fifa.

Desde que assumiu o cargo na Fifa em novembro de 2019, Wenger tem estudado fazer mudanças importantes no futebol. Como a proposta de alterar a regra do impedimento, invertendo a lógica: se uma parte do seu corpo está em posição legal, então a posição do jogador é legal. Hoje, é o inverso: se o jogador está com uma parte do corpo à frente (exceto pelos braços), ele está impedido. Falamos sobre essas propostas de Wenger em outubro de 2020. A ideia de Wenger está sendo avaliada.

Wenger quer um calendário unificado mundialmente e, para isso, considera que a melhor opção seria usar o ano solar, como acontece em países como o Brasil, por exemplo. “É meu sonho, sabe, é um sonho que eu não compartilho com muitas pessoas no momento, mas eu penso que tenho a vantagem de ter trabalhado no Japão”, disse. Wenger foi técnico do Nagoya Grampus em 1995 e ficou até agosto de 1996, quando foi convidado a dirigir o Arsenal.

“Nós jogamos de março até novembro e era perfeito. Não teríamos mais isso de ‘ele ganhou o campeonato de 2018/19’. Não, o campeonato foi ganhado em 2018 ou 2019 e em 2020. Na verdade, eu acredito também que temos que reorganizar completamente o calendário. Na Fifa, com [Gianni] Infantino, nós tentamos fazer reuniões com todas as partes interessadas do jogo para reorganizar completamente o calendário anual, porque é preciso planejar no futuro onde você talvez tenha que viajar menos”, disse Wenger em entrevista à BeIN Sports.

A Copa do Mundo de 2022 será realizada pela primeira vez em novembro e dezembro por causa do clima do Catar, quente demais nos meses de junho e julho, quando tradicionalmente o torneio de seleções é disputado. Para Wenger, seria uma boa oportunidade para remodelar a temporada do futebol mundial, mas sabe que isso não vai acontecer.

“Era uma boa oportunidade [para remodelar a temporada do futebol] com a Copa do Mundo em novembro… Mas não é o caso, então não vai acontecer. Nós teremos uma consulta mundial começando em março”, disse Wenger.

“Estou convencido que para harmonizar o calendário mundial, alguém terá que ceder e é ou a Europa, ou o resto do mundo. Isso tornaria as coisas mais simples. E vamos lembrar que as paradas no verão [europeu, em junho/julho] vem de uma época que as pessoas não eram profissionais, tem mais de 100 anos. Hoje os jogadores não saem de férias na temporada”. Ele se refere a jogadores que disputam competições de seleções e acabam trocando as férias por Copa do Mundo, Eurocopa, Copa América ou outras competições como essa.

“O segundo problema que temos, se você olhar no mundo do futebol, é que há um abismo entre a Europa e o resto do mundo e ter mais seleções indo para a Copa do Mundo irá desenvolver o futebol nos países menores porque eles têm mais oportunidades de ir e jogar em um nível mundial”, analisou Wenger.

“Talvez a Copa do Mundo de Clubes possa ajudar também a gerar mais dinheiro para organizar os campeonatos, mas de novo, você precisa tomar cuidado para que não vá para os grandes clubes e que parte do dinheiro que poderia gerar vá para a estrutura e melhora em países menores”, continuou.

O francês de 71 anos já tinha criticado a Liga das Nações em outubro e acredita que a distância entre uma Copa do Mundo e outra é muito longa. “Se você olhar os times na Copa do Mundo, habitualmente a média de idade é de 27, 28 anos. Como a Copa do Mundo é apenas a cada quatro anos, há poucas chances para ganhar novamente, porque quando eles voltam na próxima Copa do Mundo, eles já têm 32 ou 33 anos”, avaliou o lendário treinador do Arsenal.

Desde que foi criada, em 1930, a Copa do Mundo é disputada a cada quatro anos. Houve apenas uma exceção: as edições de 1942 e 1946 não foram jogadas devido à Segunda Guerra Mundial.

“É por isso que nós deveríamos organizar a Copa do Mundo a cada dois anos e a Eurocopa a cada dois anos e descartar o resto. Organizar apenas competições que importam. Jogue fora todas as outras competições. As pessoas devem entender o que está em jogo e termos apenas jogos que importam”, afirmou Wenger.

“Com as exigências físicas que os jogadores precisam hoje, eu acredito ser necessário e importante que tenhamos quatro semanas de férias. Eu diria que uma das soluções que nós iremos discutir é reduzir as eliminatórias”, afirmou Wenger.

“Em vez de jogarem em setembro, outubro, novembro, março e junho, nós reagrupamos as eliminatórias todas em um mês ou duas datas quádruplas em outubro e fevereiro. Ao menos os jogadores podem dedicar esse tempo ao clube de março até junho e nós ganharíamos quatro datas”, explicou Wenger.

A ideia é interessante. As datas Fifa de fato são um problema em termos de calendário mundial. Seria melhor termos menos datas Fifa, mais concentradas. Vale lembrar que isso já foi assim. O atual formato de datas Fifa foi introduzido em 2000. Antes, a negociação para a liberação de jogadores era direta entre clubes e federações e já gerou muitos problemas.

Até a Copa de 1994, as Eliminatórias eram concentradas em poucas datas, quase como uma Copa América. Para a competição que foi disputada nos Estados Unidos, as Eliminatórias da Conmebol foram do final de julho até o começo de setembro. No Grupo A, com quatro clubes, foram seis jogos para cada equipe; no Grupo B, com cinco seleções, foram oito jogos para cada.

A ideia de Wenger vai nessa direção, seria concentrar os jogos em menos datas. Parece melhor. Tanto no caso da Conmebol quanto no caso da Uefa, seria possível reduzir em datas mesmo as Eliminatórias. O formato da Conmebol é longo demais, enquanto o da Uefa reúne times de patamares muito diferentes. Poderia haver fases prévias, como faz a Concacaf, por exemplo, ou mesmo a AFC, da Ásia.

Ainda que as ideias de Wenger pareçam um pouco exageradas, ao menos se levarmos todas elas em conta, ao menos gera boas discussões sobre problemas que de fato existem no futebol mundial. No fim, seria curioso que a Europa adotasse o calendário solar, de março a novembro, mas isso é altamente improvável de acontecer. Talvez a discussão ajude a criar alternativas que sejam mais viáveis.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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