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Van Basten sobre fim do impedimento: “O futebol encontraria um jeito de ser ainda mais interessante”

Você consegue imaginar o futebol sem a regra do impedimento? Marco van Basten consegue. Um dos grandes atacantes do futebol europeu na história, o ex-jogador foi diretor técnico da Fifa de 2016 a 2018 e tinha na cabeça a ideia testar o futebol sem o impedimento, uma regra que, segundo ele, causa muita controvérsia. Ao mesmo tempo, é vista como pilar do que é o futebol atual. O neerlandês voltou a defender que a ideia pode fazer bem ao futebol e um exemplo de onde isso aconteceu foi o hóquei, que acabou com a regra em 1998.

“Futebol é um jogo fantástico, mas eu ainda acho que nós temos muito o que fazer para torná-lo melhor, mais espetacular, mais interessante, mais empolgante. Nós temos que trabalhar nisso”, explicou Van Basten em entrevista à Sky Sports. Em 2017, diante da ideia do então diretor técnico da Fifa, uma revista alemã tentou simular um futebol sem impedimento.

“Se você olha no quão frequentemente as pessoas fazem cera, atrasam arremessos laterais e também nas lesões, isso algo que os torcedores não querem ver. Nós temos que fazer algo em relação a isso. As pessoas querem ação. Há muitas situações em que estamos assistindo a nada. Não é bom para o jogo”, continuou o ex-atacante.

O VAR também foi motivo de críticas. Para o ex-jogador do Milan e seleção holandesa, a forma como o assistente de vídeo está sendo usado não é satisfatória. “Eu estou muito decepcionado em como ele tem sido usado neste momento”, disse Van Basten. “Nós estávamos falando sobre isso na Fifa, mas agora você não ouve nada sobre isso”.

Para evitar a perda de tempo, a chamada cera, Van Basten acredita que seria interessante que o futebol adotasse algo como no basquete, com o jogo cronometrado. “Essas são todas coisas que eu acho que seriam boas para o futebol, nós apenas temos que trabalhar nisso. Ainda é um ótimo esporte, mas nós temos que melhorá-lo ao torná-lo mais honesto, justo e empolgante”, analisou.

“O futebol encontraria um jeito de ser mais interessante”

O ponto mais polêmico das ideias de Van Basten é mesmo acabar com o impedimento. É uma regra considerada tão importante que até a discussão sobre ela já causa insatisfação em muitos. Apesar das críticas desde a primeira vez que ele falou sobre isso terem sido grandes, ele ouviu os críticos e ponderou a sua análise. Mantém o que acredita: poderia ser benéfico para o futebol.

“Os times encontrariam um jeito de jogar sem ela”, argumenta. “Se você acabar com a regra do impedimento, a defesa vai ficar mais atrás. Dirão que não podem deixar ninguém atrás pelo medo dos jogadores ficarem livres nas suas costas. Mas se ficar muito atrás, a grande área ficará uma confusão e o goleiro não conseguirá ver nada, então os times irão saber que esta não é a solução”, analisou o ex-jogador.

“Como resultado, o goleiro vai querer que todo mundo saia e esse é exatamente o ponto que se tornaria mais interessante. Se os atacantes podem se movimentar atrás dos defensores, há muito mais possibilidades de gols. Isso tornará mais difícil se defender”, analisou. “Por outro lado, quando você está defendendo, se não há impedimento, você sempre pode ter um ou dois jogadores bem longe, para que, quando você recuperar a bola, possa acionar seus atacantes no outro campo. O time que estiver atacando terá que estar muito mais atento do que agora, porque o campo ficaria maior”.

“Quando o campo fica maior, há muito mais opções para os jogadores que estão com a posse da bola e para os treinadores criarem a melhor forma de explorar isso. O problema agora é que temos que impedimento e o quão frequentemente estamos falando sobre impedimentos? Muitas vezes”, opinou o holandês.

“Se não há impedimento, há muito menos problemas e os times irão encontrar outras soluções para ter um bom jogo que será tão espetacular quando é hoje, mas sem essa regra ruim. Eu ainda estou interessado nisso. Seria bom testar. Eu tenho certeza que o futebol encontraria um jeito de ser ainda mais interessante”.

Uma das mudanças de regra que mais causaram impacto foi a proibição do goleiro pegar com as mãos as bolas que forem recuadas pelos companheiros, exceto se for de cabeça, com o peito ou com a coxa. “Foi uma boa regra porque tornou o jogo mais rápido”, avalia Van Basten sobre a mudança ocorrida no futebol em 1992. “Todas essas coisas pequenas ajudam e deveriam ser levadas mais a sério para fazer o jogo continuar evoluindo”.

“Eu tenho muitas ideias, não tenho poder de decisão, mas ao menos tenho a iniciativa”, diz Van Basten. “Quando fui para a Fifa, tinha muitas ideias e esperava que pudesse ajudar o futebol, mas foi complicado com toda a política e com a IFAB [International Football Association Board, que gere as regras do futebol]. Eu fui, talvez, um pouco honesto e aberto demais. Eu apenas disse a eles o que estava pensando. Era demais para as pessoas”, admitiu.

Curiosamente, o grande time que atuou, o Milan de Arrigo Sacchi, fez sucesso justamente explorando a linha do impedimento em um tempo que o futebol italiano atuava com líberos. Em um 4-4-2 ousado, o Milan usava a linha de impedimento para complicar os ataques adversários, mantendo a sua linha alta e bem organizada. Esta foi das grandes sacadas de um time que era taticamente muito inteligente. Foi assim, por exemplo, que destruiu o Real Madrid com uma goleada por 5 a 0 em 1989. Não deixa de ser irônico que um dos expoentes daquele time seja defensor do fim do impedimento.

Hóquei de grama: sem impedimento desde 1998

O receio sobre o impacto que a mudança causaria no futebol já foi vivido em outro esporte. No hóquei de grama, havia uma regra de impedimento. Em 1972, a regra foi alterada para restringir o impedimento apenas se o jogador ou jogadora estivessem à frente de dois jogadores adversários, e não mais três. A mesma mudança foi feita na regra do futebol em 1925.

Em 1987, o impedimento passou a valer apenas a partir da marca de 25 jardas (o que seria equivalente à intermediária no futebol de campo). Em 1998, então, veio a mudança mais radical da regra: os impedimentos foram simplesmente extintos no esporte. Uma mudança que causou um impacto grande.

A Sky Sports entrevistou a medalhista olímpica Kate Richardson-Walsh, ouro pelo Reino Unido nas Olimp[iadas do Rio 2016, sobre o assunto. “Foi difícil para algumas pessoas. Não senti a mudança extrema, ao passo que para pessoas que já jogavam há muito tempo foi uma mudança enorme em termos de táticas, formações, habilidades e estilo de jogo”, analisou.

“O jogo estava muito confinado a um espaço curto. Havia uma necessidade de abrir o jogo e torná-lo mais rápido, apenas para desenvolver o esporte. Também coincidiu com o momento que o hóquei começou a ser jogado em gramado artificial ao invés de grama natural. Isso adicionou um elemento de velocidade. Tudo mudou”.

“Os defensores precisavam ser disciplinados para jogar com uma linha alta. Eles precisavam ficar muito atentos sobre a bola passar por cima de você, especialmente nos anos 1980. Essas habilidades, o tempo dessas corridas pelo atacante nas costas do defensor, simplesmente mudaram”.

“Sem impedimento, você tem mais habilidades de corrida, mais dribles com a bola, mais um contra um carregando a bola. Agora você vê aquela grande espaço, alongando o jogo o máximo possível para alongar as defesas para que possa jogar contornando a defesa ou através dela”, contou ainda a jogadora.

“Simplesmente mudou o conjunto de habilidades, as táticas e as formações. A Austrália dominou da década de 1990 até a década de 2000 porque tinha um treinador, Ric Charlesworth, que sabia como usar essa mudança na regra do impedimento”, recordou.

No futebol, o temor é que o jogo regrida para algo que acontecia antes da existência da regra: times amontoados nas duas áreas, em uma espécie de gol a gol. Não se sabe qual seria de fato o impacto, mas pela experiência anterior, há um receio que a regra mate o que é o futebol como conhecemos.

Para os defensores da ideia do fim do impedimento, como Van Basten, o exemplo que o hóquei traz d[a um indicativo que os temores dos críticos podem não acontecer, embora seja um esporte muito diferente em relação ao futebol, especialmente no que diz respeito a bolas longas. Ainda assim, serve como uma forma de tentar projetar o que poderia acontecer.

“Depende do técnico e das habilidades do time. Há times que irão jogar com uma defesa fechada e estacionar o ônibus apenas para manter tudo muito fechado. Mas também há times que irão imaginar que podem pressionar realmente mais alto, como no futebol, tentando ganhar a bola ou forçar erros com o time bem adiantado no campo, para que possam recuperar a bola no meio-campo ao invés de trabalhar todo o campo do adversário novamente”, analisou Richardson-Walsh sobre o impacto no hóquei.

A jogadora, inclusive, disse que é assim que ela gosta de jogar. “Eu queria ganhar as bolas o mais adiantada no campo quanto fosse possível. Se um atacante ficasse atrás de mim ficasse perto do gol lá no ataque, eu ainda poderia estar bem adiantada à frente dele e pensar que se aplicarmos pressão o suficiente na bola para impedir que ela seja passada pelo alto, eu ainda poderia tentar com minhas companheiras tomar a bola bem à frente”, continuou explicando a jogadora.

“Se fôssemos organizados como uma equipe e fizéssemos isso bem, a pessoa que se adiantava no campo se tornaria redundante e eu não teria que me preocupar com ela. Esse é o jogo de gato e o rato disso. Devo começar a recuar? Se eu fizer isso, é aí que os espaços para drible se abrem no meio-campo”.

O hóquei de grama tem alguns aspectos que podem se assemelhar ao futebol, como o problema detectado na época que por vezes os times ficavam rondando a área do adversário buscando encontrar um espaço. A mudança de regra foi importante para tornar o hóquei mais dinâmico. Por outro lado, porém, são esportes diferentes e com um espaço diferente: o campo é muito maior no futebol e a precisão dos passes longos também é potencialmente muito maior, o que poderia criar situações diferentes. Porém, ainda assim, é a comparação mais próxima possível. No hóquei, a mudança da regra do impedimento criou mais espaço justamente para os articuladores de jogadas, no meio-campo.

“Simplesmente caiu nas mãos dos jogadores que podiam carregar a bola e jogar lindas bolas com passes em velocidade”, disse Richardson-Walsh. “No hóquei feminino, a melhor jogadora do mundo era Luciana Aymar, da Argentina. Ela foi simplesmente fenomenal e conseguiu passar a bola lindamente pelo meio-campo e jogar essas bolas para as atacantes que estavam atrás das defensoras. Abriu espaço para esse tipo de jogadora”, conta.

“E abriu espaço para atacantes que eram rápidas, podiam driblar e ficavam felizes em enfrentar as jogadoras no um contra um. Ainda ajudou aquelas artilheiras incontestáveis. Você quer aqueles jogadores no seu time, as jogadoras que podem, no futebol, estar dentro e ao redor da pequena área”.

“Para os defensores, a marcação fica ainda mais difícil. Passar os jogadores se torna importante porque você quer ser o mais eficiente possível, agora que os atacantes podem ficar atrás de você o tempo todo. Qual é a posição do seu corpo quando você marca alguém atrás de você? Nada disso estava previsto, se tratava apenas de abrir o jogo e torná-lo mais rápido”.

“É algo tão único no futebol que provavelmente não deveríamos tirar”

Apesar de todos os ganhos no hóquei, Richardson-Walsh, que também é fã de futebol, não gostaria de ver a regra do impedimento ser abolida no futebol. “Eu fico realmente mexida porque há algo sobre a disciplina no futebol de manter a linha de impedimento e cabe aos atacantes tentar manipular isso, forçando os defensores a ir mais para trás, há o tempo dos passes. Você perde tudo isso”, analisou.

“O que você ganharia é o que o hóquei ganhou. Seria apenas diferente. As habilidades mudariam, beneficiaria jogadores diferentes em relação a outros. Como não temos isso no hóquei mais, eu quase sinto que é algo tão único no futebol que provavelmente não deveríamos tirar”, ela avaliou.

A ideia de mexer no futebol para criar mais espaços é interessante, mas tirar algo tão crucial para o jogo quanto o impedimento pode ter um efeito inverso. Seja como for, ainda é possível discutir e é preciso estar aberto para ouvir ideias, mesmo as mais malucas, porque talvez seja a partir delas que se verá mudanças menos radicais, mas fundamentais, como a proibição do recuo ao goleiro em 1992. Com todas as mudanças que o futebol vive nesses últimos 30 anos, talvez seja o momento de estudar novas formas de fazer o jogo evoluir.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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