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‘Símbolo realmente poderoso’: Esse livro mostra como os uniformes explicam o mundo

Jornalista Joey D'Urso, autor de livro que aborda a relação entre camisas de futebol e contextos sociais, conversa com a Trivela sobre a obra

“Toda camisa de futebol conta uma história”. Com essa premissa, Joey D´Urso iniciou há cerca de dois anos uma série de pesquisas ao redor do mundo que geraram o livro “More Than A Shirt: How Football Shirts Explain Global Politics, Money And Power” (Mais Que Uma Camisa: Como os Uniformes Explicam a Política Global, o Dinheiro e o Poder — sem edição em português).

D’Urso é jornalista no britânico “The Times” e conversou com a Trivela sobre sua obra. Na publicação, são retratadas 22 camisas que evidenciam a relação entre futebol e economia, geopolítica, imigração ou nacionalismo.

— Viajei pelo mundo para encontrar todos os tipos diferentes de camisas de futebol. Acho que minha maior lição é que camisas de futebol explicam o mundo e isso é incrivelmente poderoso. Pode nos ensinar muitas coisas. E isso pode nos envolver e nos intrigar mais do que estatísticas econômicas ou ouvir sobre política. Acho que é um símbolo realmente poderoso.

Camisas de times brasileiros são destacadas por Joey D’Urso

Por falar em impacto social, Joey D’Urso ressalta na entrevista um caso que o marcou no futebol brasileiro: o Corinthians e sua camisa roxa de 2021.

Há quatro anos, a Nike, fornecedora de material esportivo, decidiu homenagear a vitoriosa equipe feminina do clube ao lançar um terceiro uniforme na cor roxa. O Corinthians também mencionou na ocasião que 53% da torcida é composta por mulheres.

— A camisa é predominantemente roxa, cor que representou diversos movimentos feministas ao longo da história, como uma homenagem a todas as corintianas que lutam pelo clube e seu espaço no futebol — dizia o comunicado.

O feito chamou a atenção do jornalista por contribuir na luta por equidade de gênero, seja dentro de campo ou nas arquibancadas.

D’Urso considera que o Brasil está à frente da Inglaterra quando o assunto é diversidade de gênero nas tribunas.

Ele acredita que isso tem relação com a cultura do esporte nos países.

— Futebol na Inglaterra foi fortemente enraizado em comunidades de trabalhadores industriais, era muito masculino. Isso tem mudado rapidamente. Mas ainda teve o problema com hooligans, e acho que isso afastou muitas mulheres e famílias. Está ficando mais diverso (gênero), mas nem perto de ser 50 a 50. O Brasil tem uma cultura diferente, um futebol diferente, mais família, ao meu ver — comenta.

O outro time do País mencionado na conversa foi o Palmeiras. “Patrocinado pela Parmalat por muitos anos”, relembra ele.

Rivaldo e Djalminha no Palmeiras na época do patrocínio Parmalat
Rivaldo e Djalminha no Palmeiras na época do patrocínio Parmalat (Foto: Icon Sport)

A parceria da companhia com o Alviverde perdurou de 1992 a 2000 e proporcionou diversas conquistas, como a Libertadores de 1999, o bicampeonato brasileiro em 1993 e 1994 e a Copa do Brasil de 1998. No Brasil, a empresa firmou outros vínculos: Santa Cruz, Paulista, Juventude.

Como isso se alinha ao tema do livro? Bom, a Parmalat foi fundada na Itália e também patrocinou o Parma por décadas. No campo esportivo, teve o investimento recompensado com títulos e, especialmente, o mérito de figurar na elite italiana.

No entanto, a companhia entrou em crise em 2003 e cessou todos os acordos ligados a esportes. A situação foi resultado da descoberta de um rombo de 14 bilhões de euros no balanço da empresa, segundo a imprensa italiana. Revelou-se que a Parmalat teria passado anos fraudando dados de vendas e lucros.

— Essa empresa foi envolvida em um grande escândalo de fraude. É uma história interessante para mim. O time em que jogaram Rivaldo e Roberto Carlos, então, essa é outra camisa brasileira — destaca D’Urso.

Ele encontrou mais uma “história interessante” na América do Sul. Ou melhor, inesperada. O jornalista rememora a trajetória do Envigado, da Colômbia, time que projetou James Rodríguez ao futebol profissional.

— O dono era um líder de cartel de drogas. Não sei a história toda, acho que faz parte da história sobre a Colômbia e a violência por drogas, que eu não tinha a mínima ideia, e tem uma ligação profunda com isso — afirma.

Os estudos na região também levaram a outra conclusão: equipes sul-americanas têm muitos patrocinadores. “É algo específico da América do Sul, não na Europa. Times tem vários patrocínios diferentes na mesma camisa”, comenta ele.

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‘Foi difícil, mas eu consegui’: D’Urso celebra publicação do livro

Joey D'Urso com o livro More Than a Shirt
Joey D’Urso com o livro More Than a Shirt (Foto: Reprodução/Instagram @joeydurso92)

O jornalista fala com empolgação sobre as descobertas ao desbravar as camisas de futebol ao redor do mundo e revela seu entusiasmo por usar a modalidade para aproximar conceitos considerados “distantes”.

Joey D’Urso sentiu que as noites de trabalho mais longas e todo o trabalho no projeto valeu a pena quando o livro chegou às prateleiras.

Foi difícil fazer tudo, mas eu consegui — celebra.

O conteúdo é resultado do apreço pelo esporte, que começou ainda criança, por meio do Aston Villa, seu clube do coração.

D’Urso relembra na publicação seu conjunto de uniforme vinho e azul da equipe com o logo da empresa Rover, que ficava no sudeste de Birmingham, em Longbridge. O local é próximo a Bournville, onde o repórter cresceu.

A união entre o patrocinador e a marca automotiva era “perfeita”, segundo o jornalista, de forma a representar a cidade como motor industrial do Reino Unido. No entanto, em 2005, a companhia foi desfeita.

Thomas Hitzlsperger comemora gol pelo Aston Villa
Thomas Hitzlsperger comemora gol pelo Aston Villa. Foto: Imago

Um ano antes, o grupo alemão DWS, de gestão de capital, ocupou a vaga da Rover na camisa do clube. Ainda assim, o uniforme com o logo da marca automotiva permanece em um lugar especial na memória de D’Urso.

— Essas coisas mudaram minha cidade, mas o Aston Villa, em sua essência, não. Os clubes de futebol proporcionam a muitos de nós uma constante num mundo onde tudo o resto parece mudar. Nenhum membro da minha família vive no mesmo lugar que vivia quando eu nasci, mas o Villa Park ainda está lá, a única constante geográfica da minha vida — diz o texto.

— As mudanças nas camisas vinho e azul do meu próprio time ao longo da minha vida contam histórias sobre o lugar onde cresci e também algumas histórias globais maiores.

Joey D’Urso ressalta que, em um mundo fracionado, dividido por fatores como idiomas e religiões, nada pode ser tão universal. No entanto, “o futebol fica mais perto disso do que qualquer outra coisa”.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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