Tim Vickery: Por que a Bola de Ouro de Harry Kane é o triunfo da tartaruga
Astro do Bayern e da seleção inglesa perseverou e conseguiu merecido reconhecimento
O meu momento favorito na cerimônia da Bola de Ouro foi quando Michael Owen contou como ele soube que ganhou o prêmio 25 anos atrás. Alguém ligou para o clube — na época, ele jogava pelo Liverpool — e o técnico chamou Owen para informar que ele acabou de ser eleito.
Tudo muito diferente de hoje em dia, quando tem um evento grandioso, tamanho do Oscar, cheio de smokings e discursos. E essa mudança reflete uma evolução enorme do marketing esportivo, a maneira que o nosso esporte virou parte da indústria global de entretenimento, e o foco maior que esse processo coloca em cima da figura da estrela individual.
Como a Bola de Ouro mudou ao longo dos anos
Tim Vickery questiona Bola de Ouro: ‘Encantamento não se coloca em número’
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Mas não tenho certeza que o futebol veste bem esse tipo de smoking. Trata-se de um esporte essencialmente coletivo, onde, em termos gerais, o craque só consegue desequilibrar se o seu time for bem arrumado.
Essa tensão ficou bem evidente durante a Copa do Mundo. O torneio se esforçou demais para obrigar a audiência a venerar o conceito de estrela — seja no campo, seja na plateia, onde as câmaras ficaram namorando craques de esportes americanos e astros de Hollywood.
Mas onde se importa mesmo, a coletividade ganhou o dia. O futebol da Espanha — entre os campeões mais decisivos de todos os tempos — é coletivo em sua essência. Verdade, tem bastante talento individual. Mas a grande estrela, Lamine Yamal, ficou bem abaixo do seu melhor nível, mesmo assim contribuindo bastante para o esforço do seu time.
E, na cerimônia de segunda-feira, a Espanha pode ser vista como o grande vencedor. Emplacou muitos prêmios, refletindo uma dominância não somente no futebol masculino, mas feminino também, frutos de um desenvolvimento de uma cultura futebolística que é relativamente recente, e que deve servir como inspiração para outros países.
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A Espanha até merece muito crédito pelo prêmio dado ao Paris Saint Germain como o time do ano. A coleção de estrelas não estava funcionando bem — até a chegada do técnico Luis Enrique, que conseguiu impor um modelo encantador do futebol coletivo.
Mas se a Espanha é inspiradora, a mesma coisa se aplica ao grande vencedor individual da noite — Harry Kane, que levou a Bola de Ouro para casa.
Harry Kane leva Bola de Ouro com ambição silenciosa
O prêmio foi apresentado por Ronaldo Fenômeno, que abre alas para um lindo contraste, nos moldes da história clássica da lebre e a tartaruga.
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No caso de Ronaldo, ficava claro bem cedo que se tratava de um fenômeno mesmo. Foi para a sua primeira Copa com 17 anos, e antes de 20 já era um ícone global — talvez o primeiro nesta época moderna de marketing esportivo.
Numa idade em que Ronaldo já estava na capa de revistas no mundo todo, Kane estava sendo emprestado para tudo que era lugar, lutando para achar espaço que finalmente veio com o Tottenham na temporada 2014-5, quando já tinha 21 anos. Naquele momento, ninguém nem sonhava que, 12 anos depois, ele estaria no palco de Palladium em Londres aceitando um prêmio como o melhor jogador do mundo.
Mas com a força de uma ambição silenciosa, Kane ficava trabalhando, melhorando. A mentalidade dele ficou explícita no início de seu discurso, quando agradeceu os seus companheiros no Bayern de Munique por obrigar ele a desenvolver em cada sessão de treinamento.
A trajetória dele é uma grande história, uma lembrança importante que alguns nascem com grandeza. Outros tem que ralar muito para conseguir. A tartaruga chegou lá!