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Os mitos do França x Irlanda de 2009, e como a Fifa não precisava subornar irlandeses

A indignação é enorme, ainda mais se considerarmos todo o cenário. A Irlanda estava eliminando a França em St Denis na repescagem das Eliminatórias da Copa de 2010. Até que, no último minuto da prorrogação, Thierry Henry domina a bola com a mão de forma escancarada para dar o passe para o gol decisivo de Gallas. Não havia mais tempo para reação irlandesa. França classificada para o Mundial da forma mais suja possível, e algo precisava ser feito para restabelecer a justiça do campo.

ENTENDA: Mais sujeira: Fifa pagou para Irlanda desistir de processo após mão de Henry em 2009

A indignação é enorme, de fato, e ela engana a memória. Muita gente descreve o França x Irlanda de 2009 como no parágrafo acima. Alguns ainda são capazes de dizer que Henry fez com a mão o gol. Mas há pequenas distorções nessa narrativa, mudanças suficientes para criar um cenário bastante diferente do real.

A Irlanda não estava se classificando para a Copa. Os franceses haviam vencido o jogo de ida por 1 a 0 em Dublin e os irlandeses deram o troco em St-Denis. O segundo confronto estava na prorrogação, e o 0 a 0 do tempo extra levaria a decisão para os pênaltis. A França pressionava, até que, aos 14 minutos do primeiro tempo da prorrogação, Henry dominou a mão com a bola para oferecer a Gallas o gol de empate. Os alviverdes tiveram 16 minutos para tentar o segundo gol, mas não conseguiram.

Isso não diminui o tamanho do erro do árbitro sueco Martin Hansson, nem limpa a barra da França pelo gol irregular, mas deixa claro que, se a justiça tivesse de ser feita, não seria simplesmente dando a vaga à Irlanda. Por mais que se argumente que os franceses poderiam ter a punição agravada pela iniciativa de Henry de iludir o apitador, ela se basearia na presunção de que o domínio com a mão foi intencional e ainda teria de justificar de que modo esse erro foi juridicamente diferente de um jogador que se se atirou dentro da área e conseguiu um pênalti decisivo.

Na história do futebol, não há registro de inversão de placar de uma partida de grande importância internacional apenas pelo fato de o árbitro errar um lance grotesco (a não ser que se prove que tenha havido manipulação deliberada de resultado). Tampouco há casos de partidas refeitas em pedaços, como seria refazer apenas a prorrogação do França x Irlanda. No máximo, houve exemplos de partidas refeitas por completo, inclusive uma em Eliminatórias da Copa. Foi em 2005, com Uzbequistão x Bahrein.

Os uzbeques venciam por 1 a 0 e tiveram um pênalti a favor. Antes da cobrança, jogadores do Uzbequistão invadiram a área, e o árbitro marcou falta ao invés de mandar os jogadores recuarem para o chute. Houve reclamação da ex-república soviética, e o jogo foi refeito. A federação irlandesa chegou a mencionar esse caso em seu apelo contra a Fifa, mas ele não teve final feliz para o Uzbequistão. Ao invés de ficar com a vitória por 1 a 0, foram para um novo jogo, que terminou em 1 a 1, placar fundamental para colocar o Bahrein na repescagem contra Trinidad e Tobago.

O melhor cenário possível para a Irlanda era a Fifa ordenar a realização de um novo jogo contra a França. Ainda assim, o cenário seria muito favorável aos franceses, pois os irlandeses teriam de repetir a atuação heróica e vencer novamente em St.-Denis. Ainda assim, é melhor tentar isso do que simplesmente aceitar a eliminação.

O que isso significa? Significa que a Fifa poderia perfeitamente deixar a reclamação irlandesa rolar. A decisão mais provável seria confirmar o resultado (e a classificação francesa), mas a realização de um novo jogo também não criava um risco tão grande para a organização da Copa de 2010. As chances de a França confirmar a classificação seguiria enorme.

A revelação de que a Fifa pagou € 5 milhões à federação irlandesa por seu silêncio diz muito mais sobre a cultura de banalização de subornos da entidade internacional do que sobre a situação daquele confronto das Eliminatórias. Afinal, a turma de Joseph Blatter preferiu resolver com dinheiro a ter de lidar com um problema que, no final das contas, teria boas chances de se resolver naturalmente.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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