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A obscura parceria entre Abramovich e superagente que transformou jogadores em mercadoria

Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) revelou empresa de Roman Abramovich, ex-dono do Chelsea, com o agente Zahavi nas Ilhas Virgens Britânicas para aquisição de jogadores

Quando Roman Abramovich adquiriu o Chelsea em 2003, contou com a intermediação do respeitado Pini Zahavi, um empresário de sucesso, com carreira iniciada na década de 1970 e conhecido por ser a ponte para ida de Neymar ao PSG em 2017. A parceria entre o oligarca e o superagente não parou com a compra do clube inglês e, em 2011, eles se juntaram para lucrar em cima de talentos emergentes do futebol. Entenda essa história revelada por uma investigação jornalística entre o Bureau of Investigative Journalism, o jornal inglês The Guardian e outro veículos a partir de documentos vazados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) por conta da investigação Consórcio Chipre – país que também terá um capítulo nesse caso Abramovich/Zahavi.

21 jogadores fizeram parte da rede de Abramovich e Zahavi, que se aproveitava da “escravidão moderna” no futebol

A empresa da dupla é a Leiston Holdings, fundada nas Ilhas Virgens Britânicas – país conhecido por abrigar offshores – no nome do bilionário russo. O objetivo do empreendimento era adquirir direitos econômicos de jogadores jovens. Essa prática chamada é chamada de “propriedade de terceiros” e é proibida no futebol desde 2015. Certa vez, ainda como secretário-geral da Uefa, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, definiu essa aquisição de atletas como “escravidão moderna” porque os jogadores perdem o direito de tomar decisões na carreira, que ficam a cargo dos investidores. No caso do oligarca e do superagente, eles tomavam as decisões da carreira dos atletas – por vezes, sem comunicá-los, tratando como se fosse uma mercadoria – e lucravam a partir de transferências.

A Leiston investia até 10 milhões de euros nas contratações, dava um contrato anual de 50 mil euros para os jogadores (bem abaixo do glamour do futebol) e Abramovich e Zahavi dividiriam os lucros caso conseguissem uma transferência para um clube maior.

A prática de investidores comprarem os direitos econômicos de um jogador foi o caminho para Abramovich e Zahavi conseguirem mandar e tirar do trilho ou estagnarem a carreira de 21 atletas, boa parte menores de idade, segundo o ICIJ. A presença do superagente israelense era uma forma de atrair os talentos, visto a reputação de Zahavi no mundo do futebol, e ele era quem buscava os prospectos.

Foi assim que o zagueiro Emir Dautovic virou uma das vítimas da dupla. Zagueiro talentoso, atuando no modesto NK Maribor, da Eslovênia, ele recebeu a oportunidade de fazer um teste no Manchester City por uma semana em 2012, quando tinha 17 anos, e chamou atenção dos ingleses, que ofereceram 600 mil dólares por seu passe. O modesto clube esloveno recusou, e nesse momento apareceu um intermediário representando Zahavi, se oferecendo para agenciar a carreira do defensor e se gabando que poderia “negociar com o Chelsea” rapidamente.

– Foi como entrar no caminho da minha carreira. Eu não sabia que uma empresa estava me comprando. Tudo o que me foi dito foi que Pini Zahavi se tornaria meu agente e isso foi a melhor coisa que poderia acontecer comigo.- detalhou Dautovic, aos jornalistas da investigação internacional.

O zagueiro teve seus direitos econômicos vendidos do Maribor à Leiston Holdings por 1 milhão de euros no mesmo ano, por meio da prática de propriedade de terceiros. A partir disso, tudo na carreira do esloveno passou às mãos do superagente, que via o jogador apenas como uma “peça de xadrez”, segundo o próprio Dautovic. Ele só foi saber que Abramovich estava envolvido na empresa quando foi questionado pela investigação.

Mesmo com esse interesse inicial do City, a carreira de Dautovic não teve grande sucesso. Do Maribor, ele passou por clubes na Sérvia, Holanda e Bélgica, e atualmente joga na quarta divisão da Áustria.

Rede Abramovich/Zahavi atraiu joia de Camarões

Até outubro desse ano, o mais jovem a marcar por La Liga aos 16 anos e 98 dias era o camaronês Fabrice Olinga, feito realizado em 2012. Um ano depois do recorde, ele venceu seus direitos à Leiston, junto de seu compatriota, o atacante Gaël Etock, que passou pela base do Barcelona.

Zahavi prometeu a dupla um futuro brilhante no futebol, cheio de glamour. A Olinga, por exemplo, o contrato previa campanhas publicitárias e royalties por “itens e souvenirs” anunciados na TV e nos cinemas. Os pagamentos de bônus dependiam de transferência para a Premier League ou para a Bundesliga – mas o caminho do jovem camaronês era outro.

Em janeiro de 2014, em sua conta no Twitter (hoje X), Olinga rechaçou que poderia jogar no time Apollon Limassol, do Chipre. Mas não era o atacante que tomava as decisões em sua própria carreira.

Olinga, um dos atletas da rede Abramovich/Zahavi, atuando pelo Málaga (Foto: Icon Sport)

A conexão com o Chipre

A pequena ilha do Chipre, localizada no mar mediterrâneo, tornou-se o caminho de bilionários russos pelo sigilo financeiro das leis no país. O time de futebol Apollon Limassol não tem nenhuma relação com algum investidor russo, mas um dos acionistas, dono de 16% do clube cipriota, era a empresa Sliva Trading, propriedade de… Pini Zahavi.

Os documentos vazados pela investigação jornalística mostraram que a Sliva (Zahavi) solicitou dinheiro emprestado à Leiston (Abramovich/Zahavi) para bancar contratações e salários do Apollon Limassol – um desses nomes foi Olinga, que saiu do Málaga para o pequeno clube aos 18 anos.

Além do camaronês, outros cinco jogadores com direitos econômicos ligados à Leiston jogaram pelo Apollon. Outro contratado através do direito emprestado foi o lateral-esquerdo romeno Cristian Manea, considerado uma promessa, especulado no Chelsea e o mais jovem a ser convocado pela seleção da Romênia.

Somando todos os jogadores agenciados pela empresa de Zahavi e Abramovich negociados com o time cipriota, apenas um deles entrou em campo, sendo em três oportunidades.

Procurados pela investigação, Pini Zahavi negou qualquer irregularidade e não quis dar mais detalhes do caso, enquanto Roman Abramovich e o clube cipriota Apollon Limassol não retornaram aos pedidos de nota.

A carreira de alguns dos jogadores que fizeram parte da Leiston

Negociar os direitos econômicos ligados à Leiston Holdings representou para alguns dos jogadores a estagnação completa da carreira e sem o brilho prometido, como aconteceu com Emir Dautovic. Olinga, outrora o mais jovem a marcar na história de La Liga, hoje, com 27 anos, está no pequeno Botosani, da Romênia, após passar por Sampdoria, Rio Ave e em clubes belgas. Etock, ex-base do Barcelona, está quatro anos sem clube, desde que se desligou do Lahti, da Finlândia.

Manea, alvo do Chelsea, segue jogando no país natal, defendendo o romeno Cluj.

Confira a lista de alguns dos jogadores que pertenceram à empresa de Roman Abramovich e Pini Zahavi.

  • Cristian Manea, ex-FCSB, hoje no Cluj, da Romênia;
  • Fabrice Olinga, ex-Sampdoria, Mallorca e Málaga, hoje no Botoșani, da Romênia;
  • Gael Etock, ex-Barcelona e Sporting, hoje sem clube;
  • Nikola Aksentijevic, ex-Partizan e Vitesse, hoje no Ethnikos, do Chipre;
  • Valentín Viola, ex-Racing, Sporting e San Lorenzo, hoje sem clube;
  • Emir Dautovic, ex-Maribor e Fortuna Sittard, hoje no SV Tillmitsch, da Áustria.
Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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