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Nem de graça a Fifa quis oferecer bons gramados para as mulheres na Copa do Mundo feminina

Em setembro do ano passado, a luta das jogadoras que, a partir de junho, entrarão em campo pela Copa do Mundo, no Canadá, foi exposta: diferentemente de seus colegas do futebol masculino, teriam de disputar a mais importante competição do esporte em gramados artificiais. Uma decisão absurda da Fifa e que, como mostramos, poderia ser revertida com um investimento de US$ 2,4 milhões, uma mixaria perto dos US$ 2 bilhões arrecadados pela entidade apenas durante o Mundial de 2014, no Brasil. O ultraje, que parecia não poder ser maior, atingiu um novo nível, com a revelação de Abby Wambach, atleta da seleção americana, de que mesmo de graça a Fifa não quis fazer a mudança para campos normais.

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Em entrevista à jornalista Julie Foudy, da ESPN, Wambach contou que empresas se mostraram dispostas a bancar os custos da substituição dos campos artificiais por grama de verdade nos seis estádios que serão palco da Copa do Mundo feminina, mas que, mesmo assim, a Fifa não cedeu.

“Houve empresas que ofereceram pagar para que esses gramados fossem colocados nos estádios. Elas ofereceram à Fifa e à Federação Canadense de Futebol fazer isso de graça em todos os estádios. Para mim, não se trata de ter grama de verdade ou não, se trata da Fifa não querer fazer nada que todos querem, apenas o que ela quer”, afirmou a jogadora.

Em 2014, mais de 40 atletas de 12 seleções diferentes se posicionaram contra a Fifa, cobrando os mesmos direitos que os homens têm de atuar em grama normal. Não é preciso ser nenhum expert em campos de futebol para saber que a experiência de jogo em uma superfície é muito diferente da outra. Além de prejudicar o aspecto técnico, fazendo a bola correr mais e quicar mais alto, o gramado artificial oferece uma experiência dolorosa para quem se arrisca a carrinhos ou para as goleiras, que, segundo a alemã Nadine Angerer, “precisam pular e aterrissar em concreto”.

A revelação da recusa da Fifa em cuidar do problema causa ainda mais revolta quando complementada pelas declarações de Blatter nesta semana de que era uma espécie de embaixador do futebol feminino. “Eu me considero um pouco como padrinho da organização do futebol feminino na Fifa”, afirmou o presidente da entidade máxima do futebol, que ainda teve coragem de cobrar espetáculo das atletas para que elas próprias vendessem seu peixe. “O futebol feminino precisa fazer seu próprio marketing. É um produto, e o produto precisa ter qualidade. Agora cabe às moças nesta Copa do Mundo mostrar que é um grande evento, porque a cobertura da televisão será feita exatamente como na Copa do Mundo (masculina)”, comentou o suíço.

A um mês do pontapé inicial, o problema parece não ter volta, e a Copa do Mundo feminina deverá mesmo ser jogada em gramados artificiais. Se para este ano restam apenas o aborrecimento e a perplexidade diante da diferença de tratamento, que o posicionamento das jogadoras sirva como catalisador para um maior espaço a suas vozes e como uma nova lente para os olhos de quem preza pelo bem do esporte. Embora nada disso apague o baque da impotência diante da indiferença de quem deveria cuidar da modalidade.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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