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Morre Chuck Blazer, o homem que transformou a Concacaf e o delator que derrubou a Fifa

Na Copa do Mundo do Brasil, Joseph Blatter desfilava como um chefe de Estado dos mais importantes. Passados três anos e a pouco menos de um ano da Copa do Mundo de 2018, tudo mudou. Blatter está banido do futebol, assim como Michel Platini, da Uefa. Diversos dirigentes caíram e muitos estão presos, como José Maria Marin, da CBF. Tudo isso começou por causa de um americano: Charles Gordon Blazer, o Chuck Blazer, que morreu nesta quarta, dia 12 de julho, por um câncer. Foi a partir do acordo de delação do americano com o FBI que se desenrolou a investigação que culminaria no Fifagate, em 2015. Deixa um legado de transformação no futebol da Concacaf e de envolvimento profundo com esquemas de fraude, extorsão e corrupção – crimes pelos quais foi condenado e como se tornou delator do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

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Natural de Nova York, Chuck Blazer tem uma carreira extensa no futebol, que começou desde a base do futebol dos Estados Unidos aos mais reservados escritórios da Fifa, como representante da Concacaf no agora extinto Comitê Executivo. Foi vice-presidente da US Soccer, a federação de futebol dos Estados Unidos, ainda em 1984. Blazer teve um papel fundamental para a o sucesso da candidatura americana a sede da Copa do Mundo de 1994.

Seu cargo na US Soccer o levou à diretoria da Concacaf onde ele encontrou o parceiro perfeito para o crime: Jack Warner, de Trinidad e Tobago. Foi Blazer quem convenceu Warner a concorrer à presidência da Concacaf em 1989. Mais do que isso: coordenou a vitoriosa campanha do trinitino. Warner ficou no cargo de 1990 a 2011, quando deixou o cargo acusado de corrupção. Mas ainda havia muito por acontecer. E Blazer tinha tudo a ver com isso.

Blazer é um dos principais responsáveis por uma reformulação muito importante para a Concacaf. Depois de ajudar Warner a se eleger, ganhou o cargo de secretário-geral da entidade. Transformou a confederação antes pouco organizada e pouco rentável em um negócio de muitos milhões de dólares, com torneios rendendo uma boa grana e mais força às seleções associadas, já que antes só o México tinha alguma relevância.

Os Estados Unidos se tornaram uma potência regional e outras seleções passaram a ter mais preparo. Ele supervisionou a criação da seleção de futebol feminina, que passou a render ainda mais que a masculina e se tornou a melhor do mundo – inclusive sendo atual campeã do mundo. Aumentou significativamente o número de jogos da seleção americana, o que ajudou o time a ter mais ritmo, mais preparo e os americanos se classificaram para a Copa de 1990,  algo notável para um país que já não tinha mais liga profissional depois da falência da NASL.

Os direitos de TV subiram às alturas. Blazer ficou conhecido como “Mr. Tem Per Cent” (Senhor Dez Por Cento). A razão é o óbvio: ele cobrava 10% em cada contrato que era realizado na sua gestão como secretário-geral da Concacaf. É verdade que o aumento das receitas da Concacaf se multiplicaram na sua gestão como nunca visto antes, mas isso não o exime de fazer da entidade que dirige o futebol da América do Norte e Central uma forma de enriquecimento ilícito.

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Com o seu cargo na Concacaf e o sucesso da candidatura americana à Copa de 1994 e da realização do Mundial em si, chegou ao Comitê Executivo da Fifa em 1996. Com isso, ganhou muito mais poder e até criou um blog de viagens, onde mostrava seus encontros com altos dirigentes do futebol pelo mundo, além de chefes de Estado. Esteve com nomes como Nelson Mandela e o príncipe William, do Reino Unido.

Só que o “Senhor Dez Por Cento” também tirou a sua parte na Fifa. Blazer e Warner recebiam propina, como os US$ 10 milhões pagos pela África do Sul, com objetivo, teoricamente, de apoiar a “Diáspora Africana”, mas que serviram mesmo como pagamento pelos votos para que os sul-africanos recebessem a Copa de 2010.

Chuck Blazer controlava tudo na Concacaf e seus rendimentos vindos da entidade chegaram a US$ 21 milhões de 2006 a 2011. Mais do que isso: a entidade pagava por suas contas pessoais. Ele gastou quase US$ 30 milhões em um cartão corporativo da entidade, que pagava por suas casas em Bahamas, Miami e na Trump Tower, em Nova York.

A entidade pagava inclusive por um carro de luxo do dirigente, um Hammer. Mas não foi pelo estilo de vida do dirigente que ele chamou a atenção de autoridades americanas. Foi pelos crimes fiscais que cometia. E em novembro de 2011, ele foi abordado pela primeira vez pelo FBI. Acabou se tornando informante como forma de amenizar a punição pelos seus crimes.

Quando foi julgado, em 2013, Blazer se declarou culpado de extorsão, lavagem de dinheiro, fraude eletrônica e evasão fiscal. Com a sua colaboração, o FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos receberam informações detalhadas sobre propinas e subornos na votação de Copas do Mundo, além de corrupção em contratos de patrocínio e venda de direitos de transmissão, envolvendo agências de marketing esportivo, em toda América. Não por acaso tantos dirigentes da Concacaf e da Conmebol caíram com a investigação.

Os depoimentos de Blazer ficaram em segredo de justiça de 2013 até 2015, quando o Fifagate explodiu com uma ação na Suíça que levou diversos dirigentes presos, incluindo o então presidente da CBF, José Maria Marin. O depoimento de Blazer, sozinho, trazia o nome de nove executivos da Fifa; quatro executivos de empresas de marketing; um executivo de TV. Mesmo com o Fifagate, Blatter foi reeleito em 2015 por aclamação. Quatro dias depois, ele anunciou que deixaria o cargo de presidente da Fifa.

Quando Mohamed Bin Hammam tentou se eleger presidente da Fifa, foi fazer campanha em um Congresso da Concacaf. O catariano, porém, teve o visto negado. Então, articulou com Jack Warner uma reunião às escondidas com membros da União de Futebol Caribenha. Delegados da entidade receberam envelopes com US$ 40 mil cada. Um deles notificou Chuck Blazer. O secretário-geral da Concacaf notificou a Fifa. Bin Hammam e Warner acabaram banidos do futebol pelo caso. Foi o que afundou, de vez, a candidatura do catariano para a presidência da Fifa. Blatter se reelegeria sem problemas. Blazer perdeu seu cargo na Concacaf.

Em 2015, quando seu depoimento veio à tona, Blazer estava em tratamento no hospital. Em 2013, ele alegou ter um câncer no reto, diabetes e doença cardíaca na artéria coronária. A morte de Blazer foi informada pelos seus advogados, que divulgaram uma nota oficial, que diz que “seus erros não devem obscurecer o impacto positivo de Chuck no futebol internacional”.

“Chuck sente profunda tristeza e arrependimento por suas ações. Ele expressou sincero remorso em relação aos seus ex-colegas e a todos os jogadores desapontados por sua conduta”, diz ainda a nota. “Com a liderança e guiado por Chuck, a Concacaf se transformou de uma entidade empobrecida em lucrativa, com benefícios substancial e melhoras para todos os membros, jogadores e torcedores”, continua a nota.

“Por toda a sua vida adulta, Chuck sentiu grande orgulho de servir ao futebol. De fato, ele dedicou 30 anos da sua vida ao futebol em todos os níveis do jogo, com seu envolvimento desde treinar os times dos filhos até servir no Comitê Executivo da Fifa”, continua o texto dos advogados.

Chuck Blazer foi um dirigente muito importante dos Estados Unidos e da Concacaf, transformando, inegavelmente, o futebol do seu país e da região. Isso, porém, não o exime de ter cometido crimes das mais variadas naturezas. Perdeu alguns dos direitos no final da vida e morre pelo câncer aos 72 anos. Foi também por sua causa que o Fifagate transformou-se no maior escândalo da história da Fifa e iniciou transformações que ainda devem repercutir por muito tempo.

Passados dois anos da revelação dos seus depoimentos, a Fifa mudou de presidente e passou a ter uma secretária-geral africana e negra. Foi obrigada, por pressão, a mudar algumas das suas práticas. A entidade está muito longe de ser transparente e confiável, mas algumas mudanças se tornaram imperativas e isso é um avanço. Uma pena que todo o avanço na Conmebol e todas essas mudanças na Fifa tenham vindo a um preço alto. Muito alto.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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