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Lenda em Senegal, Bruno Metsu também mudou o Al Ain de patamar

Analisando friamente, o Al Ain demorou para fazer sua estreia no Mundial de Clubes. O principal time dos Emirados Árabes Unidos possui 13 títulos da liga nacional, quase o dobro de Al Wasl e Al Ahli – em segundo na lista geral, com sete taças cada. As edições do torneio sediadas pelos emiratenses em 2009 e 2010, no entanto, marcaram uma das maiores secas vividas pelos violetas – encerrada em 2012, quando a competição da Fifa já havia retornado ao Japão. Além disso, “O Chefe” (como é apelidada a agremiação) conquistou seu único troféu na Liga dos Campeões da Ásia em 2003, às vésperas do estabelecimento do Mundial. Foram vice-campeões continentais ainda em 2005 e 2016. Desta maneira, a longa espera se encerra nesta quarta-feira. Atual campeão emiratense, o Al Ain abre a edição de 2018 como representante do país-sede, recebendo o Team Wellington na fase preliminar.

A história do Al Ain começa no final da década de 1960. O afirmação do futebol na cidade acontece a partir de soldados britânicos, que praticam e ensinam o esporte a jovens moradores locais. O clube se estabelece em 1968 e logo ganha o apoio do Xeique Khalifa bin Zayed Al Nahyan – atual presidente do país, além de meio-irmão do Xeique Mansour, dono do Manchester City. A realeza começa a oferecer materiais e constrói o primeiro estádio. Desde aquele princípio, aliás, os violetas estiveram ligados à ideia de absorver conhecimento de estrangeiros. Eram frequentes os amistosos disputados contra oponentes de fora do país. Assim, a equipe moldou a sua força e, a partir de 1974, começou a acumular títulos. Naquele ano o time faturou a liga de Abu Dhabi. Já em 1977, começou a dinastia no Campeonato Emiratense, com o primeiro de seus 13 troféus.

Os estrangeiros, além do mais, sempre tiveram seu espaço no comando do Al Ain. Dos 49 treinadores que passaram pelo clube, apenas quatro são emiratenses. Ainda na década de 1970, comandantes de outros países árabes se tornaram comuns. Os brasileiros passaram a dominar o banco de reservas a partir de 1982, com menções honrosas a Nelsinho Rosa e Amarildo, ambos campeões nacionais com os violetas. De qualquer maneira, o grande responsável por revolucionar a agremiação foi Bruno Metsu. O francês, reconhecido principalmente por seu trabalho à frente da seleção senegalesa, chegou aos Emirados Árabes justamente após a Copa do Mundo de 2002. Viveu a era mais vitoriosa da agremiação e a ajudou a romper fronteiras, conquistando a Champions Asiática em 2003.

Na temporada 1997/98, o Al-Ain iniciou sua chamada “Era de Ouro”. O clube conquistou três títulos do Campeonato Emiratense até 2002 e investiu em estrelas, com destaque especial a Abedi Pelé, que empilhou gols em seu período com os violetas. No entanto, faltava a afirmação internacional. Faltava romper as fronteiras e buscar a primeira taça na Liga dos Campeões. Por isso mesmo, a diretoria deu um passo ambicioso ao contratar Metsu, logo após o Mundial de 2002. As rusgas do francês com a federação senegalesa facilitaram o negócio, fechado ao final do mês de julho. Contudo, a proposta financeira realizada pela diretoria também se tornou um belo atrativo ao comandante, badalado após a caminhada até as quartas de final da Copa. Assim, desembarcaria com altas expectativas a Abu Dhabi. Não demoraria a cumpri-las.

A Champions da Ásia previa novidades em 2002/03, assumindo definitivamente o formato de liga. E, visando o título, o Al Ain ofereceu a Bruno Metsu um time competitivo o suficiente. Entre os emiratenses, despontavam vários destaques: Salem Johar era a referência no meio-campo; a defesa contava com a liderança de Fahad Ali; Subait Khater aparecia como o especialista nas bolas paradas; e o ataque ainda ganhara Mohammad Omar, um dos mais prolíficos artilheiros do país. Ainda assim, o protagonismo cabia aos estrangeiros. Rodrigo Mendes chegava consagrado do futebol brasileiro, após passagens expressivas por Flamengo e Grêmio. Seria o meia de chute potente e boa chegada ao ataque, responsável por potencializar a linha de frente. Além disso, o marfinense Aboubacar Sanogo desembarcava como uma aposta. Dono de muita potência física, o jovem centroavante se destacava com a camisa do Espérance, quando terminou pinçado pelos violetas. Vinha acompanhado pelo também atacante marfinense Kandia Traoré. Juntos, ajudaram a transformar os rumos do clube.

Metsu formou uma equipe com vocação ofensiva, que dominou o seu grupo na fase de classificação da Liga dos Campeões da Ásia. Sob a inspiração de Sanogo, o Al Ain venceu os seus três compromissos, batendo Al Hilal, Al Sadd e Esteghlal. A supremacia contra adversários tradicionais do Oriente Médio aumentou a confiança, rumo às semifinais. Diante dos chineses do Dalian Shide, dois jogos cheios de gols, em que os violetas se classificaram com uma vitória e uma derrota. Por fim, na decisão ante o BEC Tero Sasana, os 2 a 0 nos Emirados Árabes encaminharam a conquista. Não foi a derrota por 1 a 0 na Tailândia que estragou a festa dos visitantes. “The Boss” enfim se tornava o dono do continente.

Metsu ainda viveria mais glórias em Al Ain. Sob as ordens do francês, os violetas conquistaram o bicampeonato emiratense em 2002/03 e 2003/04. Rodrigo Mendes e Sanogo permaneciam como grandes estrelas daquela equipe. Na mesma época, ainda ficou marcada a vitória por 1 a 0 em amistoso contra a Juventus, disputada em Abu Dhabi. Mohammad Omar anotou o gol histórico contra o time que contava com Gianluigi Buffon, Pavel Nedved e Alessandro Del Piero, entre outras lendas juventinas. Após a partida, David Trezeguet foi cumprimentar o treinador adversário e brincou, em referência à Copa de 2002: “Não tenho sorte contra você. Toda vez que te enfrento, eu perco. Agora você precisa vir à Itália”.

O fim da parceria de Metsu com o clube aconteceu em 2004 e iniciou uma seca na liga que perdurou por oito anos. Logo após faturar o segundo título nacional, o comandante aceitou uma proposta do Al Gharafa e levou consigo Rodrigo Mendes, conquistando o Campeonato Catariano em seu primeiro ano. Além disso, Sanogo também não ficaria tanto tempo. Após o vice na Champions de 2004/05, atraiu o interesse dos clubes alemães, com destaque à sua passagem pelo Werder Bremen. Em eleição feita pela imprensa local em 2015, o marfinense foi apontado o terceiro melhor jogador estrangeiro a passar pelo Campeonato Emiratense, com 43 gols em 54 aparições na liga.

Nas temporadas seguintes, outros treinadores renomados trabalharam no Al Ain – incluindo Tite, Walter Zenga e Winfried Schäfer. Já a lista de jogadores inclui Edílson, Mustapha Hadji, Luis Tejada, Dodô, Pedrinho, Jorge Valdívia, Emerson Sheik e José Sand. A reconquista do Campeonato Emiratense aconteceu apenas em 2011/12, com o bi comandado pelo romeno Cosmin Olaroiu. Tempos abastados aos violetas, que viram Asamoah Gyan destroçar as defesas adversárias e contaram com a eclosão do talentoso Omar Abdulrahman, camisa 10 formado em suas categorias de base.

Nos últimos anos, a principal mente por trás do Al Ain foi Zlatko Dalic, que faturou a liga em uma oportunidade e de lá seguiu à seleção croata. Seria substituído pelo compatriota Zoran Mamic, o atual treinador. E o elenco que disputa o Mundial de Clubes tem à sua disposição, além dos atletas locais, opções tarimbadas como o sueco Marcus Berg, o brasileiro Caio (ex-Kashima) e o japonês Tsukasa Shiotani. Serão os responsáveis por honrar a tradição internacional iniciada por Metsu – cujo falecimento em 2013, vítima de um câncer, gerou uma série de homenagens dos violetas. Digna lembrança a quem representa tanto.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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