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Fifa recorre ao homem que ajudou a limpar o COI para liderar reformas éticas

A Fifa formou um comitê para apresentar um pacote de reformas para ser votado no congresso geral de fevereiro, no dia da eleição do sucessor de Joseph Blatter. Isso aconteceu quase dois meses depois da prisão de alguns dos seus mais importantes membros e do anúncio da renúncia do presidente que a comanda desde 1998. Demorou um pouco, mas pelo menos a entidade chegou à festa. À frente do grupo que será formado por duas indicações das seis federações e de patrocinadores estará um dos homens que ajudou a limpar a imagem do Comitê Olímpico Internacional, após o escândalo da candidatura de Salt Lake City para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2002: o suíço François Carrard.

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O advogado de  77 anos foi o diretor-geral do COI entre 1989 e 2003 e era um dos principais porta-vozes da entidade quando se descobriu que a cidade do estado americano de Utah havia trocado presentes por votos. Entre eles, aluguel de apartamento, mensalidade de escolas para os filhos dos integrantes que votavam, férias de esqui e até viagens para ver o Super Bowl. O COI começou o controle de danos negando qualquer irregularidade bem no estilo Blatter. “Não podemos controlar todos os nossos membros”, “são apenas rumores” e outros contorcionismos argumentativos.

A coisa ficou séria quando membros da candidatura de Salt Lake publicaram documentos que comprovavam a transferência de dinheiro. A credibilidade da entidade foi abalada e os patrocinadores ameaçavam pular fora. A reforma passou a ser essencial para assegurar que as Olimpíadas continuassem a ser um dos produtos mais valiosos do mundo. A principal foi impedir que os integrantes com direito a voto visitassem sozinhos as potenciais cidades-sede, ou seja, sem fazer parte da comissão oficial de avaliação. Afinal, nunca estariam tão vulneráveis à corrupção do que passeando sem supervisão à custa dos comitês de candidatura.

O tempo máximo de campanha foi restrito a dois anos. Introduziram também limitações de idade e tempo de mandato para novos membros, inclusive para o presidente, que só pode ocupar o cargo por 12 anos, em contraste com os 21 do mandato de Juan Antonio Samaranch, o chefe na época do escândalo. Dez membros foram expulsos do COI ou forçados a renunciar e outros dez receberam punições. A manobra deu certo, e hoje em dia, apesar de algumas decisões contestáveis, como dar a Olimpíada de 2008 para a China, a entidade tem uma imagem muito melhor com o público.

Carrard, que trabalhava meio período, deixou o COI em 2003 quando o cargo de diretor-geral passou a ser desempenhado em tempo integral. O sucessor de Saramanch, Jacques Rogge, ofereceu-lhe a nova posição, mas o suíço preferiu sair. Desde então, trabalha como consultor com sua firma de advocacia especializada em corporações, bancos, finanças e esportes. Senta no comitê-executivo de várias empresas, inclusive de subsidiárias do próprio COI.

Com a experiência do escândalo de Salt Lake, Carrard corresponde ao perfil que patrocinadores como Coca-Cola e Visa exigiam: alguém “eminente” e “que não fosse do futebol”. Foi sob o seu comando, que o COI pela primeira vez abriu as portas para a supervisão de terceiros, quando um painel de ética foi formado, em 1999, para achar soluções para os casos de doping.

O suíço Domenico Scala preside de forma independente o comitê de Audição e Conformidade desde alguns dias depois das prisões do FBI. Definiu algumas propostas, como limite de mandatos, publicar o salário dos integrantes e checagens de integridade, e todas elas serão levadas em conta por Carrard, que terá o apoio de um conselho particular de cinco pessoas para ajudá-lo, além da companhia de 14 indicados do mundo do futebol. A sua principal missão será convencer a Fifa que ela precisa de mudanças profundas de metodologia, transparência e, principalmente, postura.

Veja quem são os membros do comitê de reforma da Fifa:

África

Hany Abo Rida (EGI), vice-presidente da Federação Egípcia de Futebol e membro do comitê executivo da Fifa

Constant Omari Selemani (COD), presidente da Federação Congolesa de Futebol e membro do comitê-executivo da Fifa

Ásia

Kevan Gospar (AUS), ex-vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional

Sheikh Ahmad Al-Fahad Al-Ahmed Al-Sabah (KUW), membro do Comitê Executivo da Fifa

Concacaf

Victor Montaglini (CAN), presidente da Federação Canadense de Futebol

Samir Gandhi (EUA), sócio de uma empresa nova-iorquina de advocacia (Sidley Austin Law)

Conmebol

Gorka Villa (ESP), diretor-geral da Conmebol e advogado de um dos indiciados do Fifagate, o venezuelano Rafael Esquivel

Wilmar Valdez (URU), presidente da Federação Uruguaia de Futebol

Oceânia

Mai Chen (NZL), sócio-fundador de uma empresa neo-zelandesa de advocacia (Chen Palmer, Public and Employment Law Specialists, Barristers and Solicitors)

Sarai Bareman (NZL), vice-secretário-geral da Confederação de Futebol da Oceânia

Uefa

Alasdair Bell (ESC), diretor-legal da Uefa

Gianni Infantino (SUI), secretário-geral da Uefa

Patrocinadores

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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