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Fifa admite corrupção de seus antigos membros, mas apenas para tentar tirar dinheiro deles

A direção pode ser nova, a vontade de reformar o sistema, verdadeira, e o foco em questões esportivas da empreitada que se iniciou agora, inteligente, mas o que a Fifa não parece querer desvencilhar de si é o quanto ela gosta de dinheiro. Atingida pelo escândalo de corrupção que explodiu em maio do ano passado e segue gerando capítulos novos com bastante frequência, a entidade agora busca uma indenização por todos os danos causados pelos crimes de vários de seus antigos membros, atingindo, entre eles, figuras como Jack Warner, Chuck Blazer e Jeffrey Webb, de um total que chega a 41 processados. Dezenas de milhões de dólares, para ser um pouco mais específico.

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Colocando-se como vítima do esquema de corrupção, e não como possibilitador dele, a Fifa busca, em um momento de perda de patrocinadores e gastos legais, ressarcir parte disso, alegando ter sido prejudicada financeiramente pelo desvio de dinheiro de seus membros e pelo dano causado à sua imagem.  A entidade identificou cerca de US$ 190 milhões perdidos pelas ações dos 41 dirigentes e executivos de marketing até agora indiciados no processo da Justiça dos Estados Unidos e US$ nas apreensões relacionadas aos esquemas criminosos dos réus, segundo o jornal Guardian.

No documento em que abre seu pedido de indenização, a Fifa admitiu pela primeira vez acreditar na culpa dos antigos membros de seu comitê executivo nas denúncias de venda de votos nos processos de escolha de sede das Copas do Mundo, referindo-se mais especificamente a um pagamento de US$ 10 milhões da Associação de Futebol da África do Sul a Jack Warner, ex-vice-presidente da entidade e antigo mandatário da Concacaf que hoje luta para não ser extraditado para os Estados Unidos.

O texto cita também a existência de suborno pago por Marrocos na candidatura para sediar o Mundial de 1998, realizado, no fim das contas, na França. A base para esta ação legal da Fifa, segundo fontes próximas ao processo consultadas pelo Guardian, está, é claro, na investigação conduzida pela Justiça norte-americana, mas também em sua própria investigação interna, conduzida desde o início do escândalo em maio.

A opinião comum entre aqueles que cobrem de perto o Fifagate e as medidas tomadas pela Fifa desde então é de que a entidade tenta fortalecer a narrativa de que foi a grande vítima dos esquemas, um ato hipócrita já que está de certa forma processando a si própria ao acionar juridicamente antigos membros seus com quem tem ligações históricas. Se tal estratégia seria difícil de ser imaginada com Joseph Blatter no comando, ela faz bastante sentido com Gianni Infantino, que tem como grande bandeira dar sequência à reforma na Fifa e à repaginação da imagem da entidade. A saber se a narrativa é só uma versão da história ou é um indício de mudança. Céticos que somos, iremos esperar para ver.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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