Cinco ideias malucas para tornar o futebol de seleções mais legal
Torcedor se preocupando mais com os jogadores que seu clube perdeu do que em incentivar sua seleção, audiências baixas para partidas que ninguém sabe o que valem e equipes desfiguradas em campo por excesso de substituições sem sentido. Os jogos de seleções perderam muito de seu apelo, e as data Fifa viraram mais um incômodo no calendário do que um momento para se empolgar com outro modelo de competição.
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Durante esta semana, nós apontamos os diversos problemas que o futebol de seleções têm enfrentado. Agora é o momento de propor soluções. Elas são bastante radicais, até malucas. Mas entendemos que é realmente preciso mudar bastante o modelo atual, e só com criatividade e ousadia é possível restabelecer uma relação saudável entre seleções, clubes e torcida.
Saem datas Fifa, entram duas janelas anuais
Esqueça as datas Fifa. São blocos de duas semanas espalhados pelo ano que tomam muito tempo. São três potenciais datas de jogos (dois meios de semana e um fim de semana), mas só duas são usadas (normalmente sexta e terça). Ou seja, a cada data Fifa, uma potencial data de jogo é desperdiçada para que as seleções possam se encontrar e dar uma treinada.
A cada ano, são cinco datas Fifa, que permitem dez jogos em dez semanas. Isso sem contar o período em que as seleções estão reunidas para seus torneios continentais (Eurocopa, Copa Africana, Copa América…). É muito desperdício de datas.
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A ideia
Concentrar todos os jogos de seleções em dois momentos do calendário: janeiro (pode ser algo como de 10 de janeiro a 10 de fevereiro) e junho. Nesses períodos do ano, as competições de clubes seriam interrompidas para que as seleções ficassem várias semanas juntas. Pegando quatro semanas em janeiro e quatro em maio/junho, é possível agrupar várias rodadas de eliminatórias e diminuir o desperdício de datas. Por exemplo, a cada quatro semanas seria possível dar uma semana para as equipes se encontrarem, treinarem e ainda realizar seis ou sete jogos a cada janela. Em duas janelas (um ano) seria possível realizar todas as Eliminatórias europeias, por exemplo.
O sistema também ajuda para competições que não se encaixam no calendário europeu. A Copa Africana e o Sul-Americano Sub-20, por exemplo, seriam disputados dentro da janela de janeiro, o que não prejudicaria os clubes da Europa (pois estariam parados e para que as seleções de seus países joguem as eliminatórias). Os Mundiais sub-17 e sub-20 poderiam entrar na janela de junho nos anos ímpares.
A vantagem para as seleções é que elas ficariam um mês inteiro juntas, tendo mais possibilidade de se entrosar e desenvolver seu estilo. Além disso, elas dominariam o noticiário esportivo durante dois meses do ano, aumentando a exposição a seus patrocinadores, monopolizando a atenção do torcedor e ganhando importância como evento para a TV.
Para os clubes também seria vantajoso. Alguns países, como Inglaterra, França e Alemanha já têm menos jogos de liga em janeiro. Um dos motivos é o frio, mas jogos de seleções são mais fáceis de contornar. Afinal, a federação pode marcar as partidas do começo do ano em cidades menos frias (como Sochi no caso da Rússia, Marselha na França) ou com estádios climatizados (Gelsenkirchen no caso da Alemanha). Um clube de região fria não tem como fazer isso em seu campeonato nacional. A janela de maio/junho não teria alteração com o calendário atual, pois já é um período do ano reservado a torneios de seleções.
Haveria vantagem também no caso de contusão. Se um jogador se lesionar na primeira semana da janela de seleções, ele teria três semanas para se recuperar antes de seu clube voltar a campo. E, no caso da janela de janeiro, os jogadores que não fossem convocados ficariam em seus clubes em uma intertemporada, se recondicionando fisicamente para a reta final dos torneios.
Além disso, todo o resto do ano seria de competições contínuas de clubes. Assim, as equipes não precisam parar duas semanas periodicamente, quebrando alguma linha de trabalho ou interrompendo uma boa fase.
Mudar a regra para troca de nacionalidade de jogadores

A Fifa flexibilizou as regras de mudança de nacionalidade, permitindo que um jogador troque de país se nunca tiver feito um jogo oficial por sua primeira seleção. A regulamentação permitiu que Diego Costa se tornasse espanhol depois de defender o Brasil em dois amistosos.
A medida é compreensível, pois não prende um jogador a um país só porque ele fez um ou dois jogos insignificantes por outro quando tinha 20 anos. O problema é que alguns países começaram a “reservar” garotos com dupla nacionalidade para garantir eternamente a nacionalidade dele. Assim, convocam garotos promissores de origem africana, mesmo que ele não tenha mostrado serviço suficiente para estar na seleção principal (Munir é o exemplo mais claro). O objetivo é apenas colocá-lo em um jogo de Eliminatórias (ou seja, partida oficial) contra uma Andorra ou Malta e assegurar que ele nunca mais poderá defender outra nação.
O problema disso é que o garoto tem 19 anos e não vai rejeitar a convocação. Mas a seleção pode não se interessar por ele no futuro, e o jogador fica privado de defender um país por se empolgar em uma convocação que teve o único objetivo de fazer reserva de mercado.
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Ideia
Criar um outro “corte” para a mudança de nacionalidade. Ao invés de delimitar por “fez jogos oficiais ou não”, permitir que um jogador mude de seleção aos 23 anos, desde que ele não tenha feito ao menos cinco partidas oficiais por seu primeiro país e que ele tenha nacionalidade do segundo.
Atenção ao detalhe: ele teria de anunciar essa decisão aos 23 anos. Não adianta ficar em silêncio sobre o tema, especulando sobre suas chances com a primeira seleção e pedir uma mudança aos 26, quando viu que não terá futuro.
Limitar quantidade de amistosos em campo neutro
Os clubes europeus reclamavam das longas viagens que seus jogadores sul-americanos e africanos (asiáticos em menor escala) tinham de fazer para defender suas seleções. Para contornar essa questão, a Fifa estabeleceu que jogadores que atuam fora de seus países só serviriam suas seleções em amistosos realizados no continente de seus clubes.
Com isso, criou-se uma epidemia de amistosos de seleções em campo neutro, com Inglaterra, Suécia e Suíça recebendo inúmeras partidas de equipe de outras nações. O Brasil é um dos exemplos mais claros. O problema é que já não há mais restrição de distância para amistosos (por exemplo, o Uruguai jogou em Montevidéu e Santiago e o Japão enfrentou Honduras e Austrália em casa na última data Fifa e ambos puderam usar seus europeus), mas ainda é comum amistosos em campo neutro.

Ideia
Um dos papéis dos jogos de seleções é dar um sentido de pertencimento a todos os países do mundo, fazer com que cada torcedor tenha uma equipe para chamar de sua (lembre-se que as ligas nacionais são pouco desenvolvidas em muitos lugares) ou que ele mantenha uma relação com os compatriotas que viraram estrelas internacionais. Como manter uma relação saudável de uma torcida com sua seleção se eles só se encontram nas Eliminatórias?
Com as regra das “janelas de seleções” (proposta 1 dessa matéria), a quantidade de amistosos seria reduzida. Mas a Fifa deveria determinar que no máximo 25% das partidas não oficiais de uma seleção fossem disputadas em campo neutro.
Despolitizar a organização
As competições de seleções são organizadas pelas confederações continentais ou pelas federações nacionais. Isso cria uma lista enorme de problemas, como politicagem na organização dos torneios e falta de padrão de qualidade nos diversos níveis de competição, como falta de segurança ou de condições mínimas de jogo em determinados lugares.
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Ideia
A Fifa pode seguir “dona” da Copa do Mundo, a Uefa da Eurocopa e a Conmebol da Copa América, mas o sucesso econômico e de público de cada competição depende muito de escolhas que precisam ser técnicas. Por exemplo: definir as sedes mais viáveis, exigir investimentos mínimos de promotores locais e garantir isonomia (sobretudo nas Eliminatórias).
Assim, as entidades poderiam definir diretrizes básicas para cada competição, mas deixá-la nas mãos de empresas especializadas em organização de grandes eventos. Assim, elas poderiam tomar medidas mais agressivas para aumentar a popularidade e o retorno financeiro dos torneios sem ter de lidar com certas barganhas políticas que atravancam o processo.
Claro que um nível de corrupção e politicagem sempre existiria, mas dificilmente seria pior do que o praticado pela Fifa e pelas confederações continentais.
Ter uma solução clara para os Jogos Olímpicos
A Fifa não morre de amores pelos Jogos Olímpicos e não faz questão que o futebol olímpico seja empolgante. No entanto, ele é muito importante para muitos países (sobretudo os ibero-americanos), que têm de confrontar suas pretensões de medalhas com a margem de manobra para liberar seus melhores jogadores. Afinal, a Fifa não é clara sobre até que ponto os clubes devem ceder atletas (teoricamente, é apenas dos sub-23, sem obrigatoriedade para os três acima dessa idade).
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Ideia
Para o torcedor (e para o COI), a melhor solução seria simplesmente considerar os Jogos Olímpicos como um torneio oficial e botar os melhores jogadores em campo. mas isso não vai acontecer, até porque clubes e Fifa não querem. Então, o ideal seria ter uma definição.
Um caminho viável seria manter a formulação atual, com equipes sub-23 reforçadas por até três jogadores acima desse limite. Os clubes seriam obrigados a ceder todos os jogadores sub-23, mas as seleções só poderiam chamar “veteranos” que atuassem em seu país.



