Eliminatórias da Eurocopa

Excesso de datas, desnível técnico e os jogos de seleções ficam menos atraentes

“Não tem jogo hoje? É só isso mesmo?”. Esse é o time de questionamento que recebemos em alguns sábados de data Fifa. O número de jogos diminui bastante no futebol internacional, que se concentram na sexta, às vezes até antes, na quinta ou na quarta – o Brasil, por exemplo, jogou na quarta, dia 12 de novembro, depois na terça, dia 18. No fim de semana, sem jogos. Sem jogos na TV, muitos se sentem órfãos. Os jogos de seleção tornaram-se enfadonhos encontros entre seleções que muitas vezes têm um desnível enorme entre si, ou amistosos sem muita relevância, ou mesmo precisam assistir à sua seleção de longe, porque nem jogar no país ela joga. O interesse do público nos estádios também tem diminuído. Nem mesmo na Inglaterra, país que se notabiliza recentemente por estádios cheios, consegue preencher todos os lugares em jogos de seleção. Na foto que abre esse post, a Inglaterra recebeu a Noruega e só levou

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O ano de 2014 foi de Copa do Mundo, o que torna o ano do calendário de futebol internacional especial. Só houve uma data para amistoso no primeiro semestre, no dia 5 de março. Depois, as seleções jogaram amistosos, já com o grupo que iria à Copa do Mundo – ou como adversários de seleções que iriam para o Mundial. No total, foram quatro das chamadas data Fifa, além, é claro, da Copa do Mundo em si. É muita data para jogos que não dão nem tempo do torcedor sentir um pouco de falta. Nem criam disputas de verdade.

Tirando a primeira das datas Fifa, que só teve um jogo amistoso, as outras três tiveram duas datas de jogos e já envolvendo Eliminatórias para a Eurocopa, no caso das seleções europeias. A Alemanha entrou em campo para um jogo oficial 56 dias depois de conquistar o tetracampeonato mundial no Brasil. Levantou a taça no dia 13 de julho e esteve em campo novamente no estádio Signal-Iduna Park, em Dortmund, no dia 7 de setembro. O torcedor nem teve tempo direito de curtir o título. Isso sem falar que no dia 3 de setembro, quatro dias antes, tinha enfrentado de novo a Argentina em um amistoso – perdeu por 4 a 2.

No calendário internacional da Fifa, uma das datas mais criticadas é justamente essa no começo de setembro, quando os campeonatos nacionais europeus ainda estão no começo e quando os jogos de torneios grandes, como foi a Copa do Mundo em 2014, ainda estão muito recentes. A Copa do Mundo, um dos eventos mais intensos, não tinha nem dois meses de terminada. E uma das razões da enorme intensidade do torneio é que ele só acontece de quatro em quatro anos, o que cria uma aura de sagrado. Fora da Copa, sem ser em Copa América, Eurocopa ou uma outra competição continental, os jogos são bem pouco atrativos.

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Jogos competitivos nem tão competitivos assim

A Uefa aumentou o número de participantes da Eurocopa de 16 para 24 a partir da próxima edição, em 2016. Com isso, as Eliminatórias ganharam mais vagas. Na prática, significa que ficou mais fácil classificar-se para o torneio. Ótimo para as seleções menores, que ficam mais perto de disputar um grande torneio, o que pode ser bom para o futebol do continente. O ruim é que os jogos tornaram-se ainda mais enfadonhos.

A Espanha, atual campeã europeia, é a cabeça de chave do Grupo C, que tem ainda Eslováquia, Ucrânia, Macedônia, Bielorrúsia  e Luxemburgo. Nenhuma dessas seleções oferece um grande desafio aos espanhóis. A Ucrânia e a Eslováquia são seleções médias que podem até conseguir dar algum trabalho, mas estão claramente abaixo da Espanha. Em um grupo que duas dessas seleções vão direto à Eurocopa e a terceira ainda disputa uma repescagem, é praticamente impossível a Espanha não se classificar.

Vale o mesmo para todas as grandes seleções. A Alemanha tem no seu grupo Escócia, Polônia, Irlanda, Geórgia e Gibraltar. Mesmo que Escócia, Polônia e Irlanda mostrem bom nível – como mostraram até aqui –, estão longe do nível da campeã mundial. Os jogadores acabam desmotivados, os jogos perdem a graça e o torcedor, no fim, fica só com saudade do seu campeonato nacional.

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Brasil e Argentina, estrangeiros até como mandantes

Para o torcedor brasileiro e argentino, a data Fifa é ainda pior. A começar que os campeonatos, tanto lá quanto cá, não param por conta dos jogos de seleção. Com isso, se eventualmente os jogadores que atuam por aqui são convocados, desfalcam o seu time. O torcedor acaba ficando bravo porque o seu time é prejudicado em função da seleção. Perde a vontade de torcer pelo selecionado nacional.

Tem ainda o problema da concorrência. No dia que o Brasil enfrentou a Turquia em Istambul, no dia 12 de novembro, dois jogos atraiam o torcedor local. O mais importante deles o jogo de ida da final da Copa do Brasil entre Atlético Mineiro e Cruzeiro. Além desse jogo, São Paulo e Internacional jogaram pelo Campeonato Brasileiro.

O mesmo aconteceu com a Argentina. A albiceleste entrou em campo na quarta-feira, dia 12, para um amistoso com a Croácia e venceu por 2 a 1. Em Londres. Sim, em Londres. Naquele mesmo dia, o Tigre enfrentou o Lanús. Venceu por 3 a 0. Naquela mesma noite, o River Plate, líder e melhor time da Argentina, enfrentou o Estudiantes, rival tradicional. O Estudiantes venceu por 1 a 0 no Monumental de Núñez.  CBF e AFA parecem nem fazer questão que o próprio país se importe com a seleção.

Além de encavalar os campeonatos nacionais com os jogos da seleção e passar por cima das datas Fifa como se não fossem nada, há mais um problema. Jogar amistosos em território brasileiro não é costume, porque a CBF resolveu vender os jogos da seleção brasileira para uma empresa estrangeira. É ela que chama as viagens do Brasil de “Tour” com jogos em várias partes do mundo, mas não no Brasil. Acontece o mesmo com a Argentina, que também vendeu seus amistosos para uma empresa, que vende o time que tem Messi, um dos melhores jogadores do mundo. E o público dos dois países, cheio de torcedores apaixonados e crianças loucas para verem seus ídolos, ficam a ver navios.

O Brasil tem estádios modernos, reformados e recém usados na Copa do Mundo. Mas o Brasil jogou, depois da Copa, duas vezes nos Estados Unidos, em Miami contra a Colômbia, e em Nova Jersey contra o Equador, na China, em Pequim, contra a Argentina, em Singapura, contra o Japão, em Instambul, contra a Turquia, e em Viena, contra a Áustria. Nada de jogar em território nacional. E não há nenhum jogo programado para o Brasil.

Na Europa, ao menos há o jogo da seleção local em uma das duas datas, quando não em ambas. A Espanha, por exemplo, jogou contra a Belarus (a famosa Bielorrússia) no dia 15 de novembro, sábado, e depois enfrentou a Alemanha em amistoso na terça, dia 18, em Vigo.  A Alemanha, por sua vez, jogou contra Gibraltar no sábado, em Nuremberg, antes de viajar para jogar contra a Espanha. Ao menos os torcedores têm a opção de acompanhar mais de perto a seleção, o que estreita os laços do público com a seleção.

Jogar em casa é fundamental. Mesmo no caso do Brasil, que acabou de sediar um Mundial no seu quintal. Até porque, desde a época da primeira passagem de Dunga na seleção, nos acostumamos à seleção ter a sua casa em Londres. Criar uma relação de proximidade é também uma forma de valorizar o que a seleção representa, que é o país. Não há sentido em fazer um clássico contra a Argentina em Pequim. Não há sentido em um jogo da seleção ser no mesmo dia de jogos importantes dos campeonatos nacionais. É um claro problema de gestão.

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Perspectivas para 2015 são ainda piores

A criação do calendário internacional para organizar os jogos de seleções foi um avanço. Criado em 2012, ele estabeleceu regras sobre quando os jogos amistosos e competições oficiais entre seleções podem acontecer. Ainda há muito discussão relativa a isso, especialmente com a pressão dos clubes para menos jogos de seleções ou uma compensação financeira grande para isso.

O excesso de jogos de seleções pode ser demonstrado com o calendário 2015 do Brasil. A seleção brasileira pode fazer 14 jogos no próximo ano, incluindo os amistosos das datas Fifa de março, a Copa América de junho, e os amistosos de agosto, outubro e novembro. Isso, claro, se o Brasil chegar até a final da Copa América. E isso sem contar eventuais amistosos que a seleção faça como preparação antes da Copa América. É jogo demais.

CALENDÁRIO DE SELEÇÕES 2015

Datas Fifa (amistosos/Eliminatórias)

– 23-31 de março

– 8-16 de junho

– 31 de agosto – 8 de setembro

– 5-13 de outubro

– 9-17 de novembro

Competições oficiais

– 30 de maio – 20 de junho: Copa do Mundo sub-20

– 11 de junho – 4 de julho: Copa América

– 7-26 de julho: Copa Ouro

– 17 de outubro a 8 de novembro: Copa do Mundo sub-17

Mesmo as seleções europeias terão muitos jogos. Contando todas as datas Fifa, as seleções europeias farão 10 jogos. Isso em um ano que a Europa não terá nenhuma competição oficial a não ser as Eliminatórias. A Alemanha, por exemplo, tem jogos com a Geórgia, Gibraltar, Polônia, Escócia, Irlanda e novamente com a Geórgia. Isso sem falar nos amistosos – os alemães provavelmente enfrentarão os ingleses em novembro. Olhando esse calendário, só o jogo com a Inglaterra é atraente de verdade.

Por isso, a Uefa pensa na Liga das Nações, que já explicamos aqui. A ideia é justamente criar jogos mais relevantes, entre seleções do mesmo nível na própria Europa. Seleções fortes contra seleções fortes. Mais do que isso, dá a chance de negociação de direitos de TV em bloco, o que confere mais força – e mais dinheiro, é claro. É só uma ideia e, como no texto do link no início do parágrafo mostra, ainda cheio de dúvidas. E sem contar que essa é uma ideia para a Europa e o problema é mundial.

A Fifa, as confederações e as federações nacionais precisam rever todo esse calendário para o próximo ciclo. Atualmente, tem sido cada vez menos interessante assistir essa imensidão de jogos, ainda mais com desnível. Os melhores jogos são amistosos e são poucos. Em geral, jogos com as seleções tem servido para pouca coisa. É hora de começar a mudar, antes que seja tarde.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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