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Até Copa do Mundo clandestina está na pauta da Uefa para se distanciar da Fifa

Um torneio a cada dois anos com as principais seleções europeias e sul-americanas, organizado pela Uefa, e longe do guarda-chuva da Fifa, esvaziando a Copa do Mundo. Uma proposta drástica que dá a medida do quanto os dirigentes do continente mais rico do futebol mundial desejam se distanciar de Joseph Blatter e seus asseclas durante esse furacão de delatores, investigações, acusações e denúncias de corrupção que está sendo comandado pelo FBI.

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A ideia é do dinamarquês Allan Hansen, membro do comitê executivo da Uefa, que se reunirá ainda essa semana, em Berlim, antes da final da Champions League. Ele considera que a Europa não pode fazer parte de uma Copa do Mundo global enquanto não vierem reformas profundas para limpar a imagem da Fifa. E tem certeza que elas não serão realizadas por Joseph Blatter, reeleito presidente pela quarta vez na última sexta-feira.

Com essa certeza em mente, Hansen soltou a semente antes mesmo do pleito, de acordo com o Daily Mail. A confiança na capacidade de atrair os principais times e craques para esse torneio paralelo vem do perfil da votação que manteve Blatter no poder. A maior parte da Uefa votou a favor do príncipe Ali, candidato da oposição, assim como 80% da Conmebol. Apenas Brasil e Equador traíram a confederação e apoiaram o suíço. Os dois blocos concentram todos os campeões do mundo, a não ser que a CBF decida se isolar no próprio continente. Em termos de mercado, os dissidentes também estariam em vantagem. Os Estados Unidos, liderando as investigações, provavelmente juntariam-se ao grupo. Hansen acha que não seria difícil conseguir bons contratos de direitos de transmissão e de patrocínios.

A Inglaterra apoia essa ideia, caso ela realmente siga em frente. O secretário de Cultura, John Whittingdale, conversou com o presidente da FA, Greg Dyke, sobre o assunto. “Se houver qualquer tentativa série de organizar uma alternativa à Copa do Mundo que existe atualmente, isso só poderia acontecer com um acordo sólido entre as nações europeias e preferencialmente com outras federações ao redor do mundo”, disse. “Uefa e outras grandes federações deveriam considerar competições alternativas para 2018 e 2022”.

O primeiro passo óbvio seria anunciar um boicote às Copas do Mundo que estão planejadas para os próximos anos, algo que Dyke reluta a fazer. Ou pelo menos a fazer sozinho. Afirmou que seria ridículo a Inglaterra desistir do Mundial de 2018 sozinha. Os fãs achariam ruim e não teria efeito prático. Seria muito difícil explicar aos patrocinadores por que diabos os criadores do futebol decidiram ficar em casa enquanto o resto do mundo faz festa, a não ser que o mundo inteiro fique em casa. “Não vamos sair de nada sozinhos, porque se a FA fizera isso, a Fifa vai simplesmente continuar fazendo o mesmo, não vão? Mas se a Uefa quiser sair da Copa do Mundo, nós certamente faremos isso com eles”, disse. Em meio a muitos discursos e pouca ação, o que aconteceu de concreto foi David Gill, ex-dirigente do Manchester United, recusando a vice-presidência do Comitê Executivo da Fifa na última sexta-feira.

O próprio Michel Platini não quis descartar um boicote europeu à Copa do Mundo, semana passada, mas, de acordo com o Telegraph, não defenderá essa ideia na próxima reunião do comitê executivo da Uefa. Nem o torneio paralelo de Hansen. A proposta do francês será muito mais branda, ponderada e, por que não?, inócua. Ele quer que os membros europeus que fazem parte do Comitê Executivo da Fifa deixem de frequentar as reuniões. Talvez não consiga porque pode haver uma cisão entre os seus próprios dirigentes. Apenas três desses oito membros certamente acharão uma boa ideia.

Michel Platini (França): a ideia foi dele, afinal de contas.

David Gill (Inglaterra): praticamente já fez isso.

Wolfgang Niersbach (Alemanha): sem problemas

Os outros tem motivos para recusar.

Angel Maria Villar-Llona (Espanha): amigo de longa data de Blatter, nomeado presidente da comissão de arbitragem da Fifa.

Michel D’Hooghe (Bélgica): é o membro mais longevo do comitê, desde 1988, e sempre apoiou a Fifa. Questionado sobre as investigações, disse que “precisa de mais informações” antes de se pronunciar.

Vitaly Mutako (Rússia): Vladimir Putin viu imperialismo na investigação do FBI e, na Rússia, pouca gente ousa discordar do presidente. Sem falar que Mutako é ministro do Esporte de Putin.

Marios Lefkaritis (Chipre): acredita-se que sua federação votou em Blatter

Senes Erzik (Turquia): mesma coisa que o seu colega cipriota

Com ligações estreias com o Catar, Platini não pode ser considerado o salvador da lavoura e derrubar Blatter atende às suas próprias aspirações pessoas. Mas inegavelmente lidera o grupo de oposição mais poderoso e, sinceramente, o único que pode pressionar por alguma coisa. Sua ideia de esvaziar o comitê executivo é ruim porque afastar-se das tomadas de decisão não parece ser uma tática muito eficiente para mudar o jeito como a Fifa é administrada. Precisa fazer mais, embora uma Copa do Mundo paralela ainda esteja distante de virar realidade. Por enquanto, a Uefa apenas se distancia da entidade máxima do futebol para garantir que ninguém confunda os bois.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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