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CBF traiu a Conmebol, votou em Blatter na eleição da Fifa e ajudou a rachar a América do Sul

A Conmebol é uma franca apoiadora de Joseph Blatter há muito tempo. Uma articulação que Julio Grondona, ex-presidente da AFA, e Ricardo Texeira, ex-presidente da CBF, articularam há muito tempo com João Havelange, presidente da Fifa até 1998, e que manteve a máquina funcionando com Blatter, a partir de então. Para a eleição de 2015, os representantes dos 10 países sul-americanos chegaram a Zurique, na Suíça, decididos a votar pela continuidade do presidente no cargo.

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A operação do FBI, que tinha mandado de prisão para 14 dirigentes da Fifa e levou sob custódia nove deles mudou isso. Entre os que tiveram sua prisão decretada presos estavam Eugenio Figueiredo, ex-presidente da Conmebol, Nicolás Leoz, outro ex-presidente da entidade, o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, e o venezuelano Rafael Esquivel. A pressão da imprensa e da opinião pública fez com que os membros da Conmebol repensassem seu voto.

Na sexta-feira, a informação que surgiu era que os países do bloco decidiram apoiar o príncipe Ali, o candidato da oposição. A decisão tinha sido tomada na quinta-feira à noite. Os líderes que articularam a mudança foram o chileno Sergio Jadue, presidente da Associação Nacional de Futebol Profissional (ANFP, a liga chilena), e o uruguaio Wilmar Valdez, presidente da Associação Uruguaia de Futebol (AUF).

Jadue recebeu uma ligação do Palácio da Moneda, sede do governo chileno, dizendo que a Conmebol deveria enfrentar uma “operação limpeza” para salvar a sua imagem. Os uruguaios também estavam decididos a mudar o apoio da confederação sul-americana. “Na vida, é preciso saber quando você tem que sair. Figo disso isso ontem. E este caso não escapa disso”, disse Eduardo Ache, membro da comitiva uruguaia, a rádios do país.

Vale dizer que Wilmar Valdez é muito próximo a Francisco “Paco” Casal, empresário que é dono da GOL TV, empresa que tem intenção de concorrer pelos direitos de transmissão das competições sul-americanas, todas nas mãos da Torneos y Competencias. Em 2013, José Chilavert, que também é próximo a Paco Casal, fez denúncias de corrupção na Conmebol que nunca foram adiante. Com o executivo-chefe da TyC, Alejandro Burzaco, com prisão decretada pelo FBI, isto pode mudar. Importante também dizer que a posição uruguaia em relação à Fifa tem sido de estar com um pé atrás. O ex-presidente do país, Pepe Mujica, chegou a dizer após a Copa de 2014 que “a Fifa é uma corja de velhos filhos da puta”. O repórter perguntou se podia publicar isso. “Publica, por mim”.

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A articulação funcionou. Argentina e Chile declararam publicamente que votariam pelo príncipe da Jordânia. O delegado argentino, o presidente do River Plate, Rodolfo D’Onofrio, disse: “Às vezes é preciso fazer mudanças”. Porém, só oito dos 10 votos foram de fato para o opositor. Junto com o Equador, a CBF decidiu por manter o voto em Blatter. Mesmo sem nem ter presente na eleição o seu presidente, Marco Pólo Del Nero, que voltou ao Rio de Janeiro no dia anterior, deixando todo mundo sem entender. Os votos de Brasil e Equador para Blatter mostraram uma rachadura na Conmebol.

“Deve haver uma mudança no futebol mundial. Falarei com os membro da Conmebol para não votar por Joseph Blatter na Fifa. Acredito que as eleições deveriam ser adiadas por causa destas denúncias de corrupção”, declarou o presidente da Federação Peruana de Futebol (FPF), Edwin Oviedo, ao chegar à Suíça. Os ventos de mudança já sopravam entre os dirigentes sudacos.

Del Nero deu entrevista coletiva na sexta-feira pela manhã, quando a eleição já acontecia na sede da Fifa. Negou qualquer conhecimento ou envolvimento com os esquemas de propina e pagamento de subornos. Disse também que o delegado brasileiro que votaria na eleição, Mauro Carmélio, presidente da Federação Cearense de Futebol, “acompanharia o voto da Conmebol”. Esta decisão, porém, deve ter sido tomada antes da mudança de posição da Confederação Sul-Americana de Futebol. Ou, o que é mais provável, o Brasil decidiu manter o seu apoio ao suíço à revelia dos demais membros.

“Blatter tem uma grande experiência e um carinho muito grande pelo futebol brasileiro. Tem um trabalho já realizado e o torcedor brasileiro conhece o seu trabalho. O Brasil está confortável com Blatter”, declarou Carmélio depois da reeleição, que manteve o suíço no poder.

Uma oportunidade perdida. O voto em bloco acabou se transformando em liberdade de ação para seus integrantes. Uma votação de 10 a 0 da Conmebol contra Blatter teria sido uma clara mensagem para Blatter que o futebol sul-americano recrimina o Fifagate. Indicaria uma mudança. Não aconteceu. Na verdade, depois da votação, as especulações indicaram que a Conmebol se rachou mais do que o esperado. O cenário mais provável é que apenas seis dos 10 países tenham votado de fato no príncipe Ali: Uruguai, Chile, Argentina, Bolívia, Peru e Paraguai. Três teriam votado a favor do suíço: Brasil, Equador e Venezuela. Um se absteve, a Colômbia. Não há confirmação, porque os votos são secretos, mas este é o cenário provável de como foi a eleição.

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O que sabemos de fato é que a ameaça da perda da meia vaga da Conmebol (que dá direito ao quinto colocado das Eliminatórias Sul-Americanas disputar a repescagem contra um time da Concacaf, Ásia ou Oceania) na Copa do Mundo não se concretizou. A reunião no sábado definiu que não haverá nenhuma mudança na divisão das 32 vagas para as Copas do Mundo de 2018, na Rússia, e 2022, no Catar. É difícil atribuir essa manutenção à rachadura da Conmebol. A Concacaf, uma das maiores apoiadoras de Blatter, esperava que suas três vagas e meia se tornassem quatro. A Ásia, com suas quatro vagas e meia, esperava que se tornassem cinco. Blatter, então, terá que lidar com a potencial insatisfação destes dois continentes.

A ruptura definitiva da Conmebol com Blatter não se concretizou, mas o fato de ter um racha entre os dirigentes já é algo a ser comemorada. Significa que mesmo com a vitória de Blatter, a velha articulação política criada por Havelange e mantida por Blatter no continente foi quebrada. Com oposição na Conmebol e na Uefa, o suíço deverá ter problemas no seu mandato. Até porque, se não bastassem a fervura dos problemas políticos com federações de peso no mundo, a investigação americana promete novos indiciados em breve. Com mais dirigentes ao seu lado caindo diante de denúncias de corrupção, o cenário para Blatter tende a ficar cada vez mais difícil.

O que nos leva a pensar como a CBF irá se portar. Afinal, Marco Pólo Del Nero corre risco. Muito provavelmente estará indiciado em um processo futuro, de acordo com os documentos do Departamento de Justiça americana. Sua renúncia levaria a uma mudança? Talvez seja o momento de isso acontecer, mas não pelas vias tradicionais. Sabemos que quem assume o seu lugar, em caso de renúncia, seria o presidente da Federação Catarinense de Futebol, Delfim de Pádua Peixoto Filho, o dirigente de federação há mais tempo no cargo. A oposição a Del Nero, que já existe silenciosamente, ganharia corpo. E seria difícil conter uma mudança. Resta saber quem irá assumir as rédeas de puxar uma mudança. Pode ser uma chance história para clubes e jogadores terem um papel mais importante. Resta saber se terão vontade política para isso.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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