A falta de badalação pode ser o trunfo do América para surpreender no Mundial

Há dez anos a Liga dos Campeões da Concacaf não sabe o que é um campeão de fora do México. Pachuca, América, Monterrey, Cruz Azul e Atlante dividiram os títulos da competição continental desde 2006, após a conquista do Saprissa em 2005. Há dez anos, os mexicanos chegam para o Mundial de Clubes como favoritos para o primeiro confronto, sempre com uma equipe mais fraca de Ásia, África ou Oceania. Já em 2015, pela primeira vez esse prognóstico não acontecerá. Diante do dinheiro e do forte elenco do Guangzhou Evergrande, comandado por Felipão, o América se prepara para um confronto em que é o azarão. E talvez seja justamente a falta de peso sobre os ombros que permita ao time uma postura mais cautelosa, que faltou em sua primeira participação no Mundial.
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Em 2006, o América tinha uma equipe forte e com nomes bem relevantes no cenário nacional. Guillermo Ochoa e Blanco eram os maiores expoentes do time, que, no ataque, ainda contava com o brasileiro Kléber Pereira. O clima era de confiança em uma boa participação no Mundial daquele ano, e mesmo a vitória magra por 1 a 0 sobre o Jeonbuk Motors, da Coreia do Sul, nas quartas de final, não mudou isso. Com essa postura, o time foi enfrentar o Barcelona na semifinal, e se deu mal.
Os azulcremas começaram a partida mostrando que queriam bater de frente com os catalães, e a primeira chance de gol foi inclusive dos mexicanos. Lançando-se muito ao ataque e sem cobrir a defesa como deveria contra uma equipe do porte do Barcelona, acabou dando inúmeras chances ao adversário desde o início do duelo. Gudjohnsen abriu o placar para o Barça aos 11 minutos, mas até lá o time de Rijkaard já havia criado outras duas boas chances de fazer 1 a 0.
O América seguiu confiante de que podia vencer o jogo ou ao menos complicar a vida do Barça, e a consequência disso foi uma série de oportunidades de gols para os culés. Muito expostos, os mexicanos acabaram sofrendo uma goleada por 4 a 0, que poderia ter sido encerrada com chave de ouro em um lance de genialidade de Ronaldinho, que fez fila e, de fora da área, encobriu Ochoa e acertou o travessão.
A lição que ficou daquela participação é de que é preciso cautela quando uma equipe do porte do América está em uma competição contra um time europeu, e este cuidado poderá ser posto em prática desde o primeiro jogo na atual edição, já que os mexicanos desta vez não são favoritos nas quartas de final. Com um elenco contando com atletas como Elkeson, Paulinho, Robinho e Ricardo Goulart, o Guangzhou, atual pentacampeão chinês, representa um adversário significativamente mais difícil do que o Jeonbuk foi em 2006.
A seu favor, o América conta com bons nomes sul-americanos, como o colombiano Quintero, o equatoriano Arroyo e o argentino Benedetto, entre outros, além do destaque Oribe Peralta, da seleção mexicana. Soma-se a isso a campanha de superação e muitos gols na Concachampions, e os azulcremas têm motivos para acreditar em uma participação melhor do que a de 2006. Tendo, é claro, os pés no chão.
Melhor de seu grupo, o América passou com facilidade pelo Saprissa nas quartas de final, com um 5 a 0 no agregado, e conseguiu uma reviravolta impressionante diante do Herediano, na semifinal. Após perder por 3 a 0 o jogo de ida e estar virtualmente eliminado da competição, logrou um 6 a 0 marcante na volta, chegando à final, em que bateu o Montreal Impact por 5 a 3 no agregado, após empate em 1 a 1 na primeira partida.
Se não transformar a campanha empolgante na Concachampions em motivo para salto alto neste Mundial de Clubes, pode dar alguma dor de cabeça mesmo para o Barcelona, em uma hipotética semifinal. A diferença técnica entre os dois é gigantesca, mas, tratando-se de apenas um jogo, a narrativa de um triunfo improvável é possível. Basta enfrentar os gigantes conscientes de seu próprio tamanho e da postura que deve adotar.



