Melhor ator coadjuvante, Diego outra vez foi o trunfo que mudou o jogo ao Flamengo

A troca se repetiu como em Lima, mas sem a mesma urgência no placar e sem a contusão de Gerson. Por pura escolha, Jorge Jesus preferiu mudar o seu meio-campo ao introduzir Diego. E o camisa 10, mais uma vez, transformou sua trajetória no Flamengo. Transformou a própria trajetória do Flamengo – ainda que em escala bem diferente do que ocorreu na Libertadores. A participação do veterano foi tudo o que o rubro-negro precisava para desamarrar o jogo contra o Al-Hilal e conquistar uma classificação que pareceu em risco. Trunfo no banco de reservas, Diego permitiu aos flamenguistas contarem uma nova história, com a classificação à decisão do Mundial de Clubes, após participar diretamente de dois gols na vitória por 3 a 1.
Diego por muito tempo simbolizou um Flamengo que não saía do lugar. Um time com doses de soberba, que não parecia levar a sério os problemas que atravancavam sua evolução dentro de campo. As entrevistas do meia eram tudo o que o torcedor não queria ouvir após mais uma campanha decepcionante – e elas foram constantes. Já neste ano redentor ao Fla, o camisa 10 se lesionou gravemente contra o Emelec e parecia nem fazer falta à engrenagem azeitada por Jorge Jesus. Pois ele renasceu à final em Lima, recuperando-se em tempo recorde. E renasceu também ao que representa para o Fla.
Nestas últimas semanas decisivas, Diego se tornou o reforço inesperado ao Flamengo. Gerson parecia uma peça insubstituível no meio-campo. Com a volta de Diego, o time ganhou um jogador funcional para o lugar do jovem e que também agrega por suas características distintas. O que aconteceu contra o River Plate fala por si. As circunstâncias do jogo deram espaço ao camisa 10, que organizou o time como homem mais recuado no meio. E ele seria um diferencial na inacreditável virada dentro do Estádio Monumental “U”. Já nesta terça, de novo, auxiliaria providencialmente os rubro-negros em sua provação no Catar.
É difícil imaginar que Diego pudesse fazer alguma coisa no primeiro tempo em que o Al-Hilal empurrava o Flamengo com sua intensidade. Os rubro-negros tinham problemas na saída de bola, mas porque faltava velocidade nas ações, algo que o camisa 10 não costuma oferecer. Todavia, a energia dos sauditas caiu no segundo tempo e a partida virou, para favorecer o veterano. Sua participação a partir dos 29 do segundo tempo marcaria a superioridade dos rubro-negros. E ele precisaria de somente oito minutos para clarear o caminho ao Fla.
No xadrez dentro de campo, Jorge Jesus reagiu à mudança das peças feita por Razvan Lucescu. Sebastian Giovinco saiu no limite de ser expulso, mas era um cara que dificultava a saída de bola do Flamengo por sua combatividade. Omar Khribin não faria o mesmo serviço e os espaços na cabeça da área se tornaram maiores. Assim, Diego entrou para ocupar exatamente aquela faixa. Tinha mais brechas para pensar o jogo e para organizar o ataque com passes incisivos. Justamente o que fez. Muito participativo logo nas primeiras ações, possibilitou dois gols ao Fla, o segundo e o terceiro.
No segundo tento, em partes, Diego fez exatamente o que Giovinco havia visto no primeiro gol do Al-Hilal. O veterano tocou à passagem do lateral e aproveitou os espaços para abrir a defesa adversária. Rafinha, outro de atuação excelente, cruzou para Bruno Henrique, o melhor em campo, cabecear às redes. E o terceiro gol teria mais de Diego, ao puxar a marcação nos arredores da área, antes de dar o tapa a Bruno Henrique.
Diego chamou o jogo para si, como fez em Lima, mas como nem sempre aconteceu em momentos importantes do Flamengo. Diego teve o tempo perfeito de bola, justamente algo que muito se cobrou do meia em suas frustrações, pela forma como prendia a posse e atrapalhava a equipe. Pela segunda vez, Diego foi o homem certo na hora certa. Com a aparição brilhante de Bruno Henrique, o camisa 10 encaminhou a classificação.
Diego sustenta a mística da camisa 10 do Flamengo nestas últimas partidas decisivas. E a discussão não está em qual a importância do veterano na história do Fla ou no quanto está distante da sumidade que divinizou o número, um tal de Zico. À sua maneira, Diego marcou o seu nome e lavou sua alma. Isso basta. De alma lavada também estão todos os rubro-negros, críticos ou partidários do meia, que agora reconhecem seu valor como um personagem decisivo neste 2019 histórico.
O passo desta terça pode nem significar tanto, a depender do que acontecerá no sábado. O mais importante foi evitar o medo de uma surpresa, por mais força que o Al-Hilal tenha demonstrado no primeiro tempo. Diego, de qualquer forma, reafirma seu papel central na trama que será recontada pelos rubro-negros por tantos anos. Se nunca se firmou como o protagonista que um dia se pensou no clube, o medalhão merece um Oscar como melhor ator coadjuvante. Pela segunda vez, foi o escada aos heróis, numa virada marcante ao Flamengo.



