Mundial de Clubes

Fluminense se permitiu sonhar com a bola e perdeu como esperado, não por fetiche

Fluminense se manteve fiel ao seu estilo e perdeu porque era esperado, não por querer ficar com a bola

O Fluminense tentou, teve seus momentos com a bola nos pés, mas a disparidade entre um orçamento de meio de tabela do Brasileirão e uma seleção do mundo tocada por um projeto estatal se evidenciou em vacilos e no desgaste do time brasileiro, dois gols cedidos sem exigir grande esforço da equipe inglesa ainda antes de meia hora e mais dois já correndo atrás depois do intervalo, um resultado de 4 a 0 para o Manchester City que reflete a capacidade de ambos os times nesse encontro pontual na final do Mundial de Clubes.
A equipe de Fernando Diniz tentou construir como sempre, cuidando da posse, rodando a bola com a rara qualidade e paciência de quem o faz desde a linha do gol, e a saída foi bem sucedida, levantando os suspiros da torcida em cada toque passando por Fábio, Felipe Melo e Nino, encontrando os volantes dentro da área, chamando os laterais para procurar um novo fiapo de linha de passe diante de uma das melhores pressões do mundo.
Se essa é a marca deste Fluminense, ela foi apresentada em seu melhor, e em nada tem relação com o placar elástico, pelo contrário – ter a bola diante do City, mesmo depois de um gol sofrido aos 40 segundos, foi o que a apresentação sul-americana teve de melhor na Arábia Saudita.
No segundo momento, o de converter a saída em criação de ataque, surgiu a natural dificuldade física diante da recuperação em nível de gente como Rúben Dias, Stones, Walker, Aké e Rodri. O colombiano Arias ainda fez uma partida dos grandes, mas Keno não deu conta de se firmar no apoio e na explosão, e o duelo ficou ingrato demais para Cano, por exemplo arriscando um chute do meio do campo por impossibilidade de reter para o time sair, muito menos de insistir no um contra um.
O centroavante ainda ficou por centímetros de sofrer um pênalti em passe magistral de Ganso, naquele que seria o maior lance ofensivo do Brasil no torneio desde o gol de Guerrero no Chelsea há mais de década, mas o impedimento salvou a pele de Ederson e vetou um possível empate tricolor no seu melhor momento na viagem à Arábia Saudita. John Kennedy, como sempre, teve seus instantes individuais, esperto conduzindo aqui e ali.
Defensivamente é que as coisas não foram bem e, de novo, não diretamente pela forma com o que o Fluminense joga, e muito mais por um deslize numa virada de Marcelo e depois num desencontro que é a marca do rival, a bola que passa entre lateral, zagueiro e volante no toque de pé em pé, e que vazou num passinho a mais do ótimo André.
O Flu teve muita dificuldade em disputar os rebotes e encurtar as chances europeias nas bolas que chegavam na zona de perigo, um pouquinho espaçado para lidar com tamanha qualidade e faro de gol da turma de azul. Sem a bola, não deu conta, e aí sim ficou devendo um pouco. Faltou alcançar uma noite num nível acima do disputado por aqui, uma jornada histórica que demandava erro quase zero, que pesem as defesas de Fábio mais uma vez.
Não há muito mais o que se alongar sobre a diferença de perspectiva que se coloca nesse jogo eventual que confronta quem pode ter todos os jogadores do mundo contra a nossa liga de talentos aspirantes à Europa, bons jogadores na meia-idade e veteranos em fim de carreira. Não é a derrota que define esse momento mágico do time das Laranjeiras, que assinaria hoje a possibilidade de repetir tal temporada no ano que vem: Estadual com goleada no Fla-Flu, Libertadores conquistada no Maracanã e o direito de ser o time mais feliz da cidade, mesmo tomando um sacode internacional no fim. Não é pouca coisa. É o maior ano de muita gente que veste tricolor.
Os melhores elencos e os maiores orçamentos do continente também não fizeram muito melhor na última década, com quedas precoces, só um gol de pênalti palmeirense e alguma resistência que sucumbiu no fim das partidas vez ou outra. O Fluminense não jogou como sempre por fetiche ou mero prazer estético, mas porque passou assim pelos maiores desafios da temporada e tinha ali sua maior chance de vencer. Jogar e jogar bola até quase a véspera de Natal é o legado desse time, que não achou o dia dos sonhos no seu duelo mais ingrato, mas fica na memória com respeito e uma conversa aberta, boa, sobre quem somos e quem podemos ser num campo de futebol.
Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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