Em todas as cinco participações anteriores do Al Ahly no Mundial de Clubes, era o craque da equipe dentro de campo. O maestro simboliza o domínio dos Diabos Vermelhos na Champions Africana e, não só isso, também liderou o Egito em dois de seus três títulos consecutivos na Copa Africana de Nações sob as ordens de Hassan Shehata. A lenda se aposentou em 2013, exatamente após o Mundial, com o senso de dever cumprido após liderar seu clube às glórias depois de presenciar a morte de 74 torcedores no Desastre de Port Said. E, aos 42 anos, o veterano se fez presente no retorno do Al Ahly ao torneio da Fifa após sete anos. Sua presença nas arquibancadas em 2021 é emblemática.

Atualmente, Mohamed Aboutrika é perseguido político no Egito. O craque foi incluído na “lista antiterrorismo” elaborada pelo governo local em 2017. O ex-meia teve seus bens confiscados, assim como o seu passaporte banido, para que não deixasse o país. Porém, no momento em que tal determinação aconteceu, Aboutrika estava no Gabão, onde comentava a Copa Africana de Nações. Passaria a viver como exilado desde então, exatamente no Catar, que recebe o Mundial de Clubes. Durante os últimos anos, o ex-jogador trabalhou como comentarista na BeIN Sports, emissora ligada ao próprio governo catariano.

Graduado em filosofia, Aboutrika sempre se posicionou publicamente sobre suas opiniões políticas e sociais. Nos tempos de jogador, fazia questão de celebrar a identidade árabe e defendia a causa palestina. Além disso, também seria uma voz ativa nos desdobramentos do Desastre de Port Said. Um torcedor faleceu nos braços do ídolo, que pensou em encerrar a carreira naquele momento. Voltou para lutar ao lado dos ultras e representá-los em campo, com o bicampeonato da Champions em 2012 e 2013. Os torcedores foram massacrados premeditadamente em Port Said, com a anuência das forças de segurança, como vingança à participação ativa da torcida na queda do presidente Hosni Mubarak um ano antes.

Aboutrika, além do mais, era partidário da Irmandade Muçulmana – movimento surgido em 1928 e uma das principais organizações político-religiosas do Egito, mas acusado de terrorismo. O craque chegou a promover a candidatura de Mohamed Morsi, eleito democraticamente presidente após a queda de Mubarak. Acusado de centralizar os poderes e perseguir opositores, Morsi sofreu um golpe de estado em 2013, com os militares assumindo a presidência. Logo depois, a Irmandade Muçulmana foi banido pelo governo e ganhou a chancela de grupo terrorista. Milhares de membros do movimento foram presos. A ditadura também dissolveu o principal grupo de ultras do Al Ahly, conhecido como Ahlawys.

Após conquistar a Champions em 2013, Aboutrika se recusou a cumprimentar o Ministro dos Esportes, que representava a junta militar durante a cerimônia de premiação do torneio. Em 2015, p ex-jogador teve bens confiscados sob a alegação de “financiar a Irmandade Muçulmana”. Ainda assim, o veterano desejava permanecer no país para “trabalhar pela prosperidade” da população. Seria obrigado a deixar o Egito em 2017, mesmo afirmando que não tinha laços diretos com a Irmandade Muçulmana. Desde então, passou a morar no Catar, país que logo teria relações diplomáticas rompidas com o governo egípcio – cuja reaproximação só ocorreu no último mês de janeiro.

Apesar do restabelecimento dos laços entre os países, Aboutrika permanecerá exilado do Egito. E o Mundial de Clubes valeu exatamente para aproximar o ídolo de seu antigo clube. Um número expressivo de torcedores do Al Ahly comparece nos estádios do Catar durante a competição, mesmo com as limitações geradas pela pandemia. O lendário meia é o mais ilustre no meio da massa, presente também nas semifinais contra o Bayern de Munique nesta segunda. “Depois de quatro anos me privando de visitar o Al Ahly, o destino trouxe o time para jogar o Mundial de Clubes em Doha, e eu estarei perto deles”, declararia o veterano, que comentou a final da Champions Africana de 2020 na BeIN Sports.

Aboutrika não pôde visitar a delegação do Al Ahly no hotel em Doha, porém. Oficialmente, um dirigente do clube afirmou que a pandemia impediria o contato. No entanto, existem suspeitas também de que restrições políticas foram impostas, para que o clube não ficasse em situação comprometedora em relação à ditadura. De qualquer maneira, alguns jogadores cumprimentaram Aboutrika nas arquibancadas e exaltaram o maior jogador da história dos Diabos Vermelhos. Por conta disso, Mahmoud Kahraba e Hussein El Shahat acabaram suspensos para a decisão do terceiro lugar. Segundo a Fifa, ambos “quebraram os protocolos sanitários” pelo aperto de mãos. O veterano ficou nas tribunas e, aos 22 minutos de jogo, em referência ao número de sua camisa, a torcida cantaria uma música dedicada ao ídolo.

Apesar do reencontro marcante, Aboutrika não usaria a ocasião para promover sua visão política ou para liderar uma campanha pela volta ao país. “Ele é famoso por sua modéstia e por seu comportamento reservado. Provavelmente não gostaria de ofuscar esta geração do Al Ahly na tentativa de escrever sua própria história. A música cantada pela torcida não passará despercebida pelas autoridades egípcias, mas também não deve ter surpreendido ninguém. Aboutrika continua a ser amado e respeitado, dentro e fora do Egito – provavelmente por isso continuam a vê-lo como uma ameaça. Seu status como figura de admiração permanece amplamente inalterado na sociedade egípcia em geral, que não se esqueceu da alegria que ele trouxe em campo e do respeito que conquistou fora dele”, declararia o jornalista Mostafa Mohamed, ao Middle East Eye.

Aboutrika ainda terá a chance de se despedir do Al Ahly e da torcida egípcia nesta quinta-feira, durante a decisão do terceiro lugar contra o Palmeiras. Quando os Diabos Vermelhos terminaram com o bronze no torneio, em 2006, o meia seria também artilheiro da competição. Há uma história que não se esquece e que permanecerá viva na memória, independentemente das imposições de uma ditadura. Não dá para prever quando Aboutrika voltará para casa, mas é simbólico que o Mundial tenha proporcionado essa reaproximação.