Mundial de Clubes

Quem é o lateral do Auckland que aprendeu a jogar no Brasil e precisou fazer prova durante o Mundial

Lateral fez intercâmbio no Brasil em 2016 e trabalha em uma loja de artigos para jardinagem na Nova Zelândia

A jornada dos atletas do Auckland City no Mundial de Clubes foi um tanto desafiadora. Os jogadores do time semiprofissional da Nova Zelândia dividem a rotina de treinos e jogos na equipe com outros empregos. É o caso do lateral-direito Adam Bell, de 21 anos.

Mas o que poucas pessoas se lembram na trajetória de Adam é que o jogador foi um dos cinco meninos a participar de um intercâmbio de 20 dias no Brasil, em 2016. O neozelandês esteve no Colégio Santa Cecília, em Santos, para aprender a jogar futsal.

— Eu achei que fosse ser só jogar futebol em todo lugar, e tem sido do que eu vi –, disse Adam Bell em entrevista ao jornal da TV Universitária de Santa Cecília na época.

— Como ele já visitou o Brasil no passado, ele arranhava um pouco português, então ele acabava nos ajudando no dia a dia, passeava com a gente, sempre se mostrou um cara muito receptivo nas adaptações dos brasileiros, das pessoas de fora — contou o brasileiro Werick Cardoso, que conheceu Adam durante um período em que jogou futebol na Nova Zelândia.

Segundo a escola Santa Cecília, a ideia do intercâmbio surgiu do professor Callum Christopher, que conheceu o técnico de futsal do Colégio Santa Cecília, Fabrício Pereira Monte, e convidou-o para ir à Nova Zelândia ensinar o futsal os alunos.

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Adam Bell (camisa número 4) à direita da imagem, durante intercâmbio no Brasil, treinando futsal no Colégio Santa Cecília (Foto: Colégio Santa Cecília/Divulgação)

Em entrevista ao site da instituição de ensino, o professor neozelandês explicou que teve a ideia de trazer jogadores de seu país para o Brasil porque lá não há uma cultura de futsal. Segundo ele, a ideia em trazer os garotos era para que pudessem treinar, elevar seu nível individual e fazer uma transição para o futebol de campo.

“Quero usar o futsal para desenvolver os jogadores para o futebol de campo. O Brasil é o país que eu mais considero para obter o conhecimento do futsal. Sei que o Brasil tem o melhor futsal do mundo, portanto, acho que é a melhor opção para a garotada aprender. Talvez eu vá para o Chile ou Portugal, porque eu já falo português, então seria mais fácil para me comunicar”, afirmou em entrevista para a escola, em 2016.

A ideia do treinador Callum Christopher deu certo e guiou Adam para o principal desafio da sua carreira, até o momento. A disputa do Mundial de Clubes de 2025, onde o Auckland City enfrentou o Bayern, o Benfica e terá como próximo desafio o Boca Juniors.

— Fico muito feliz em ver aonde ele está chegando, jamais imaginei ter um conhecido jogando contra os melhores jogadores do mundo. Então, eu fico muito feliz, é uma pessoa que merece, sempre me ajudou muito e estou torcendo para o Auckland, para o futebol da Nova Zelândia, para eles evoluírem e cada vez mais estar nesse tipo de competição — declarou Werick Cardoso.

Licença do trabalho e prova universitária durante o Mundial

Adam Bell é filho de Phillip Bell, um DJ famoso na cena Hip-Hop conhecido como Sir-Vere, e de Heidi, uma professora de escola primária. O jogador tem origem indígena em uma tribo maori Ngati Tuwharetoa, povo indígena que habitava a Nova Zelândia antes da colonização britânica.

— Ninguém na minha família jogava futebol de verdade. Meus irmãos odiavam, mas eu continuei. Minha mãe me apoiou o tempo todo. É um privilégio estar aqui como jogador de futebol maori, sei que meus ancestrais ficariam orgulhosos — contou Adam em um conteúdo divulgado pelo Auckland City.

Além da trajetória nos gramados, o lateral-direito cursa administração e trabalha na Bunnings, uma grande rede de lojas de produtos de ferragens e jardinagem. Com a liga da Nova Zelândia ainda considerada amadora, os jogadores frequentemente se dividem na atuação no futebol e em outros trabalhos remunerados, onde precisam entrar em acordos pela liberação para disputa de jogos.

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Adam Bell em treino do Auckland City (Foto: Auckland City/Divulgação)

Para competir no Mundial, Adam esgotou os dias de licença remunerada na empresa para atuar no clube em compromissos no exterior. Com isso, precisou abrir mão da remuneração para participar de treinos e jogos incluindo a viagem aos Estados Unidos para a disputa da Copa do Mundo de Clubes.

Durante a disputa do torneio, o lateral-direito aproveitou a passagem pelos Estados Unidos para agendar uma prova com o objetivo de ingressar iniciar um curso superior na área de administração, gestão e negócios. A prova foi realizada dois dias após a derrota para o Bayern por 10 a 0 no hotel em que a equipe estava hospedada no Tennessee.

Eliminado da próxima fase da competição após a derrota para o Bayern e pela goleada sofrida pelo Benfica por 6 a 0, o Auckland City se despede do Mundial de Clubes nesta terça-feira (24), contra o Boca Juniors. A partida será realizada às 16h, no Geodis Park.

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Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.
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Andrey RaychtockColaborador

Colunista da Trivela. Mais angustiado que um goleiro na hora do gol. Jornalista com passagens por Globo, Esporte Interativo (atual TNT Sports) e Cazé TV. Percorrendo os becos e vielas do futebol alternativo e dividindo o que encontrei.

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