Um novo velho fracasso
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É a hora! Esse é o sentimento que sempre acomete os mexicanos, seja na seleção ou nos clubes, quando enfrentam rivais extracontinentais. O momento de mostrar a força, exibir a magia e o fanatismo do país pelo futebol, o porquê da superioridade contra os vizinhos. No fim, invariavelmente, também acontece o mesmo. Tristeza e desculpas por mais uma eliminação ou derrota precoce.
A regra não foi alterada no Mundial de Clubes. Com um agravante. A eliminação, esperada ante o duelo contra o Internacional, foi antecipada para o jogo contra a imprevisível equipe africana do TP Mazembe, nas quartas-de-final.
O Pachuca começou sentindo o forte ritmo imposto pelo Mazembe, que baseou grande parte do seu jogo na parte física. As primeiras chances foram do time africano, enquanto os Tuzos apostavam no contra-ataque. E logo após o time mexicano equilibrar a partida (e acertar uma bola na trave com o meia Damián Manso) o Mazembe abriu o placar. Numa falha da defesa mexicana, Kabangu lançou o meia Beddi livre pela direita, que chutou forte para abrir o placar aos 21 minutos.
O que se viu a partir de então foi uma intensa, porém desorganizada, pressão mexicana, agora com os africanos apostando no contragolpe. E as chances foram boas para ambos os lados, ainda que num jogo tecnicamente fraco. No segundo tempo, o meia Raúl Martínez acertou novamente uma bola na trave do time congolês. Com a expulsão de Sunzu, faltando dez minutos para o fim da partida, o Pachuca intensificou a pressão e teve boas chances dentro da área adversária, mas pecou nas finalizações. Era o fim de mais uma chance mexicana (e terceira tentativa dos Tuzos).
Antes de tentar explicar mais um fracasso mexicano em competições internacionais, vale uma passada nas recentes campanhas dos clubes no Mundial. A melhor posição de um time do México foi o terceiro lugar do Necaxa em 2000, quando o torneio ainda era disputado de forma simultânea com a Copa Intercontinental. Em uma competição ainda pouco valorizada pelos europeus, o time deixou para trás o Manchester United na primeira fase, e venceu o Real Madrid somente nos pênaltis para ficar com o terceiro posto.
No retorno, em 2005, o Saprissa, da Costa Rica, conquistou novamente o bronze, na melhor posição de um clube da Concacaf desde então. A partir daí, somente clubes mexicanos disputaram o Mundial, com desempenhos fracos ou medianos. América (em 2006), o próprio Pachuca (em 2008) e Atlante (em 2009) foram derrotados nas semifinais em partidas fáceis para seus rivais e sempre com a diferença de dois ou mais gols (com o Barça goleando por quatro em 2009).
Nas disputas de terceiro lugar, os mexicanos perderam todas para japoneses, coreanos e egípcios. Sem contar a derrota do Pachuca ainda nas quartas em 2007 para o tunisiano Etoile du Sahel.
Analisando detalhadamente as expectativas da mídia e dos torcedores, alguns fatores tradicionalmente dificultam a vida dos mexicanos em competições internacionais. O primeiro é a falsa ideia de que é “aceitável” a derrota para clubes da Conmebol ou Uefa. Os times convivem com a ideia contraditória de que perder nesses jogos não será problema, mas sentem a pressão após as derrotas, com críticas e demissões.
Outro ponto é a certeza do confronto contras esses clubes. A imprensa mexicana, até mais do que sul-americanos e europeus, já considera garantido antes mesmo dos confrontos iniciais a classificação para a semi. Um clima de “oba-oba” que termina por piorar a situação dos clubes ao se encontrarem em desvantagem nesses jogos e antes mesmo das partidas.
Um fator que parece contraditório é a importância dada pelos mexicanos ao torneio. Fica claro que é mais valorizado do que pelas equipes europeias e menos do que times sul-americanos. Aí também reside um complicador. Como a questão está bem definida para seus adversários, os times do Velho Continente chegam com força máxima nas competições nacionais, enquanto aos sul-americanos classificados é considerado aceitável (e até incentivada) a utilização desses torneios como forma de preparo para o Mundial, como ocorreu com São Paulo, em 2005, e Internacional, em 2010.
Um time mexicano não tem esse “aval” para utilizar reservas na Liga, e ao mesmo tempo tem a “obrigação” de desempenhar bons papeis em torneios internacionais. Uma contradição causada em grande parte pela não-definição por parte dos clubes do que realmente é mais importante para o time e quais os objetivos na temporada.
Problema enfrentado pelas equipes que enfrentam times muito inferiores em seus campeonatos, a falta de duelos acirrados e do clima de competição de nível internacional, o que dificulta as partidas contra times melhores em competições mais importantes, os mexicanos até poderiam usar essa justificativa, caso não disputassem as competições da Conmebol (com o Chivas alcançando a final da Libertadores em 2010 e próprio Pachuca conquistando a Sul-Americana em 2006). Outro argumento que desmonta essa tese é o fato do país ter uma das ligas mais disputadas e difíceis do mundo, com sete campeões distintos nos últimos dez torneios.
É certo que faltam adversários mais combativos em torneios continentais. Até por que os norte-americanos continuam valorizando muito mais a MLS do que competições continentais. Na Concacaf Champions League dessa temporada, os quatro times mexicanos classificados entre os 24 para a disputa fizeram entre si as semifinais, conquistando, no total, 25 vitórias e apenas quatro derrotas em 34 partidas contra adversários dos demais países. Um massacre que evidencia a superioridade continental. Mas complica no acúmulo de experiência internacional.
Aos mexicanos, resta uma reflexão profunda sobre postura, mentalidade e planejamento na temporada. Colocando de forma claro o que é ou não importante para o clube. E livrando jogadores, técnicos, torcedores e imprensa de uma pressão prévia e até suposto “complexo de inferioridade” perante times europeus e sul-americanos. Além disso, os clubes devem precisarão de uma vez por todas se colocarem como favoritos de fato contra equipes menores. E não apenas no papel.
Temporada meia-boca
Para os Tuzos o problema é um pouco mais complicado. Com a participação atual, o Pachuca tornou-se o time que mais vezes disputou o Mundial de Clubes na nova versão. E em nenhuma delas teve um desempenho satisfatório, obtendo, no máximo, um quarto lugar em 2008. São quatro derrotas e apenas uma vitória. E todas contra times longe de serem potências.
Além disso, mesmo mantendo a base do time e investindo com a chegada de bons reforços, o time teve um desempenho mediano na Liga Mexicana, obtendo a classificação para a Liguilla nas últimas rodadas, e sendo eliminado pelo futuro campeão logo nas quarta-de-final, com dois empates.
A saída do treinador Guillermo Rivarola, em agosto, já é vista por parte do corpo diretivo como um erro. Campeão da Concacaf Champions League, em abril, o argentino foi demitido após a derrota por 4 a 1 para o Cruz Azul. Inexperiente, Pablo Marino manteve a base de Rivarola, mas não obteve o mesmo sucesso e seu cargo parece estar a perigo.
De bom na primeira parte da temporada vale frisar a descoberta do promissor atacante colombiano Franco Arizala, bem como a consolidação do artilheiro paraguaio Édgar Benítez. Mas a sensação é que faltou algo ao time na primeira parte da temporada. E esse algo pode complicar a permanência de Marino.