Tudo errado
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Dificilmente seria pior. A Copa Sul-Americana 2009 começou recheada de fatos negativos, um prenúncio muito ruim do que pode ser a competição até o final. Um fato lamentável, sobretudo se considerarmos que a edição anterior terminou de modo alvissareiro (acho a palavra meio boba, mas fiquei com uma tentação de usá-la…), com uma grande final entre um argentino que seria campeão da Libertadores e um grande clube brasileiro.
Na verdade, os problemas da Sul-Americana tiveram início antes mesmo do pontapé inicial do primeiro jogo. Quando a Concacaf decidiu vetar a participação de clubes mexicanos e norte-americanos na competição da Conmebol, esta viu seu nível técnico cair, junto com o interesse comercial na América do Norte. Parecia o prenúncio do que viria a seguir, simbolizado em três casos.
1) Blowming
Blooming x River Plate-URU não era um jogo de grandes atrativos técnicos. O que não deixava de ser bom para os bolivianos. Sem contar com altitude, a equipe de Santa Cruz de la Sierra sabia que enfrentar o River uruguaio era uma rara oportunidade de chegar a fases mais avançadas de uma competição internacional.
Por isso, uma quantidade razoável de torcedores foi ao estádio Ramón Tahuichi Aguilera. E eles tinham esperança de ver seu time vencer. O que não vinha ocorrendo até a metade do segundo tempo. Os darseneros podem não ser o time mais tradicional do Uruguai, mas eram tecnicamente superiores e estavam em vantagem de 1 a 0.
A torcida cruceña perdeu a cabeça. Um jovem entrou em campo com uma faca e atacou um jogador uruguaio. Depois, as arquibancadas começaram a atirar objetos diversos, incluindo rojões, no gramado. Alguns membros da delegação do River Plate foram atingidos e, claro, o árbitro foi obrigado a encerrar a partida por falta de segurança.
Em relação a violência de torcidas sobre times visitantes, o futebol sul-americano já não vive o pandemônio da década de 1970. Mas um caso como esse mostra que ainda é preciso evoluir. Não apenas na estrutura dos estádios e conscientização dos torcedores, mas na própria concepção das competições da Conmebol.
No dia seguinte ao jogo, a diretoria do Blooming pediu à Conmebol para determinar que o placar ficasse em 1 a 0 para o River. O temor era de a entidade dar uma vitória por 3 a 0 aos montevideanos. Não se sabe se ocorrerá algo com o estádio ou os mandos de campo do clube boliviano.
Fica evidente a falta de autoridade. O próprio pedido do Blooming deixa evidente como as coisas são decididas de modo político, não jurídico. E a Conmebol não sinaliza com medidas efetivas para acabar com esse tipo de acontecimento. Lembrando que, há um ano e meio, o mesmo ocorreu em um Cerro Porteño x Cruzeiro em Assunção. O Cerro não pôde mandar jogos no Defensores del Chaco por um tempo, mas usou La Olla e nada de prático foi feito para aumentar a segurança dos estádios de Assunção.
O papel da Conmebol era promover e induzir o desenvolvimento do futebol na América do Sul. E isso inclui a estrutura dos estádios e o bem estar dos torcedores.
2) Fla-Flu de aspirantes
O Maracanã estava vazio. Apenas 14.221 torcedores pagaram ingresso para ver Flamengo e Fluminense ficaram no 0 a 0 no jogo de ida da primeira fase da Copa Sul-Americana. Um público fraco, mas até compreensível pelo fato de que o Rubro-Negro entrou em campo com um mistão e o Tricolor estava com a equipe reserva.
Os técnicos têm o direito de usar jogadores reservas quando bem entenderem. Faz parte do planejamento que ele tem em mente, do modo de gerenciar o elenco para atingir seus objetivos. Mas a decisão de Andrade e Renato Gaúcho de pouparem seus jogadores mostra um descaso exagerado das equipes pela Copa Sul-Americana.
O Flamengo está no meio da tabela e, ainda que deva continuar sonhando com classificação para a Libertadores, precisa pensar seriamente na hipótese de não conquistar nada no Brasileirão. Assim, não há motivo para desconsiderar a Sul-Americana. Afinal, ela até pode garantir um fim de ano animado para seus torcedores (qualquer dúvida, é só ver como o Internacional gostou de ter vencido a competição em 2008).
A situação do Fluminense não é tão diferente. O clube das Laranjeiras pode argumentar que o fato de estar na zona de rebaixamento faz que cada ponto no Brasileirão seja precioso. Mesmo assim, pelo time que tem, o Tricolor deveria ter mais orgulho próprio para se organizar, sair da rabeira da Série A rapidamente e ainda imaginar que um título internacional possa salvar o ano.
Nesse cenário, usar os reservas foi um modo de as duas equipes fugirem da responsabilidade da vitória em um clássico. Uma pena para ambos, e para a Copa Sul-Americana, que, mais uma vez, é tratada pelos clubes do país mais rico do continente como um obstáculo, não como um objetivo.
3) Por que não Anfield?
O Liverpool é um dos maiores clubes do mundo. Tem uma das torcidas mais numerosas da Inglaterra e é o time de seu país com mais títulos da Liga dos Campeões (é o terceiro na classificação geral, atrás apenas de Real Madrid e Milan). Mas o time que enfrentou o Cienciano, na primeira fase da Sul-Americana, não era esse Liverpool. Era o homônimo uruguaio, um clube bastante pequeno, que tem uma torcida minúscula e concentrada nos quarteirões que cercam sua sede.
Nessas circunstâncias, o mais lógico seria o clube, em sua estreia internacional, usar um estádio pequeno, proporcional a seu tamanho. Mas… nada disso. Liverpool x Cienciano, o jogo de menos apelo de toda a primeira fase da Copa Sul-Americana, foi disputado no enorme estádio Centenario. Claro, as arquibancadas ficaram vazias.
Voltando ao tópico 1, a Conmebol peca por não usar seu poder para promover a melhoria na infraestrutura do futebol sul-americano. Para piorar, ela incorre no preconceito de achar que estádio bom é estádio grande e cria imposições baseadas apenas em tamanho para liberar uma arena (curiosamente, só clubes grandes que queiram jogar em alçapões ficam como exceções).
O Liverpool jogar no Centenario não foi um caso isolado. Na Libertadores, a minúscula Universidad San Martín teve de usar o Monumental de Lima, o frágil Nacional do Paraguai teve de autuar no Defensores del Chaco e o Defensor Sporting também fez suas partidas no Centenario.
Para equipes pequenas, jogar em estádios grandes e vazios é certeza de prejuízo. Se suas próprias casas não têm condições de jogo, seria preferível buscar opções mais viáveis dentro da mesma cidade. Por exemplo, o estádio do Sporting Cristal em Lima, do Cerro Porteño em Assunção, do Nacional ou o Charrúa (da prefeitura) em Montevidéu.
A Sul-Americana já não é o torneio mais atraente do mundo para os torcedores. Se continuar com essa mania de gigantismo, pode se tornar deficitária para os clubes que dela participam. O que pode, em longo prazo, levar a seu fim, como já ocorreu com a Copa Conmebol.