México

Renovando a defesa

Na última semana, o técnico do Monterrey, Víctor Vucetich, descartou a contratação do zagueiro Rafael Márquez para compor o setor defensivo da equipe para a próxima temporada. A notícia chamou pouca atenção no país, mas serviu para levantar algumas indagações acerca da participação da chamada velha guarda do futebol mexicano na atual seleção azteca.

A questão aí é menos a necessidade ou não do Monterrey reforçar seu setor defensivo e mais a real importância de um jogador como Rafael Márquez para a seleção do país. Ora, se nem se cogita sua contratação para reforçar um elenco de um clube nacional, como pode o zagueiro ser considerado insubstituível na zaga titular da Tri?

Primeiro, é importante lembrar que os Rayados, atuais bicampeões continentais da Concacaf, possuem, de longe, o melhor elenco do futebol mexicano. Com boas opções em todos os setores, a defesa conta com o jovem Hiram Mier e o capitão argentino José María Basanta como titulares em seu miolo de zaga, além de opções do calibre dos selecionáveis Sergio Pérez e Ricardo Osório. Ou seja, com o posto de terceira equipe menos vazada do último Clausura, pouco se justifica um alto investimento no setor, certamente necessário para repatriar “Rafa”.

Há de se considerar, também, além da idade avançada (33 anos), o fato de que o zagueiro vem de uma péssima temporada no New York Red Bulls. “Contratado a peso de ouro em 2010, junto com seu ex-companheiro de Barcelona, Thierry Henry, o mexicano esteve longe de justificar sua chegada como “Jogador Designado”. Diferente do francês, que conquistou a torcida dos “touros” com gols e hoje é capitão do time, “Rafa” teve participações discretas e acumulou inúmeras polêmicas com declarações que tumultuaram o ambiente do clube em momentos decisivos.

O fato levanta um debate interessante: até que ponto a manutenção dos jogadores experientes da atual seleção mexicana se faz necessária. Convocado para a série de amistosos e as rodadas iniciais das eliminatórias para a Copa de 2014, o zagueiro só não atuou por conta de uma lesão muscular.“Em seu lugar, Héctor Moreno compôs a defesa central da Tricolor ao lado de Francisco Javier Rodríguez.” E não ficou devendo em nada ao dono da posição, marcando, inclusive, o gol da importante vitória fora de casa contra El Salvador e atuando de maneira segura.

Com o setor ofensivo do time, capitaneado por jovens bons nomes como Dos Santos, Chicharito e Guardado, fazendo estrago nos adversários, unindo técnica, entrosamento e juventude, qual a razão para não fazer o mesmo com o setor defensivo da seleção mexicana.

O ponto a ser levantado é que a defesa mexicana é o setor mais envelhecido da renovada seleção de José Manuel de La Torre. Contando apenas o miolo de zaga e o gol, a média de idade (considerando Márquez ao lado de Rodríguez e Jesús Corona no gol) é de 31,33 anos. Os demais setores (meio e ataque) possuem média de 25,33 anos. Isso sem considerar que o único acima de 30 anos em ambos os setores, Salcido, é lateral esquerdo e vem atuando como volante.

É de se questionar se a mesma renovação aplicada nos demais setores não deveria ser estendida à defesa azteca. Com tradição e renome na prospecção de novos talentos, a FemexFut vem revelando bons jovens nas categorias de base, mas boa parte desses, que encontram espaços para atuar em seus clubes graças a regras do campeonato azteca, ainda precisam de experiência na seleção principal para adquirir entrosamento e preparação para atuar em bom nível.

A participação de Rodríguez ainda se justifica, visto que o “Maza” teve boa temporada no Stuttgart. A questão é a permanência de nomes experientes, mas que pouco convencem por seus clubes ou não se justificam como primeira opção para o posto. Esse último é o caso do arqueiro José de Jesús Corona.

Ainda que tenha boa técnica, Corona é extremamente intempestivo e possui menos experiência que Ochoa, mais jovem (26 contra 31 anos) e preparado para ocupar a posição de titular.

Titular indiscutível da seleção, Ochoa transferiu-se para o Ajaccio no início da temporada, após extensa novela com seu antigo clube, o América, mas teve excelente temporada em solo europeu, sendo peça valiosa na manutenção de seu novo clube na elite do futebol francês. Nas últimas partidas, entretanto, inexplicavelmente perdeu a posição para Corona.

Com um nível de Eliminatória que dificilmente exige muito para obter a vaga, o selecionado mexicano poderia aproveitar essas partidas para agregar experiência e tempo de jogo para nomes que chegariam a 2014 no auge de sua forma técnica e física e que possuem margem de progressão até mesmo para atuar na Europa.

O problema é que, mesmo quando se aposta em novos nomes, como Jorge Torres Nilo na lateral esquerda, a possibilidade só aparece pelo fato do antigo dono da posição, Carlos Salcido, estar desempenhando em seu clube outra função, para a qual ele é realocado e passa a ocupar a vaga de outro jovem nome. Há certo receio na comissão técnica mexicana em tirar do time os nomes experientes.

Vale lembrar que Márquez terá 35 anos em 2014. Corona, 33, e Salcido, 34. Nomes como Jorge Torres Nilo, Hugo Ayala, Severo Meza, Israel Jiménez e até Diego Reyes, não poderão ser jogados de uma hora para outra na fogueira e esperar dos mesmos rendimentos semelhantes aos dos demais setores.

Giovani dos Santos, Andrés Guardado, Pablo Barrera, Jesús Zavala e Javier Hernández, todos com idade entre 23 e 25 anos, são presença constante entre os titulares há tempos, o que permite a todos adquirir o fantástico entrosamento visto nas partidas contra o Brasil e nas eliminatórias. Todos tiveram tempo e ainda terão dois anos para aperfeiçoar a forma, provavelmente atuando como titulares. Será justo exigir o mesmo dos demais futuramente?

Se servir de esperança, vale lembrar que essa mesma dificuldade de “troca de gerações” que a defesa enfrenta hoje é uma marca de todos os técnicos que passaram pelo comando do time nas últimas décadas.

Em Copas do Mundo, por exemplo, recorrer aos veteranos é expediente recorrente no selecionado azteca. Os atacantes Guillermo Franco (33 anos), Cuauhtémoc Blanco (37!) e Adolfo Bautista (31) fizeram hora extra no Mundial da África do Sul, em 2010, roubando preciosos minutos de jovens como Vela, Hernández e Dos Santos, esse último demorando a engrenar e o primeiro cada vez mais próximo de garantir status de eterna promessa.

Outros casos como os dos goleiros Óscar Pérez (titular aos 37 anos em 2010) e Jorge Campos (com 35 anos em 2002), do zagueiro Claudio Suárez (37 anos em 2006), dos meias Marcelino Bernal (36 em 1998), Jaime Ordiales (34 em 1998), ou dos atacantes Hugo Sánchez (35 em 1994) e Ricardo Peláez (35 em 1998) reforçam a tese.

Não se discute aqui que o correto é levar os atletas em melhor fase, seja qual for a idade, com o objetivo de se exibir o melhor futebol. E que os ídolos possuem sua parcela de contribuição na maturidade e formação dos menos experientes.

Contudo, se pretende ascender de nível e disputar de igual para igual com as grandes potências, El Tri precisa começar a pensar em preparar um time que esteja no auge justamente nas competições mais importantes. Para isso, certamente não poderá se ver refém de seus ídolos.

Curiosidades Aztecas

Já que na coluna falamos em experiência pela seleção mexicana, vale uma curiosidade interessante acerca dos 10 maiores artilheiros e jogadores que mais vestiram a camisa da Tricolor azteca: dos 19 nomes das duas listas (Blanco aparece em ambas), 17 jogaram pela seleção em algum período da década de 1990.

Apenas o atacante Enrique Borja, que defendeu o selecionado entre 1966 e 1975, e o lateral esquerdo Carlos Salcido, convocado pela primeira vez em 2004, não atuaram naquela década.

O feito é um reflexo claro da época mais dourada do futebol mexicano, quando o país se consolidou como principal força da Concacaf e iniciou a hegemonia que perdura até hoje. Durante esse período, o México conquistou seu primeiro título internacional (a Copa das Confederações de 1999), avançou duas vezes até as oitavas de final da Copa do Mundo e alcançou o vice-campeonato da Copa América de 1993 em sua primeira participação, além de três Copas Ouro, um Pan-Americano, uma Copa das Nações da América do Norte e três medalhas de ouro nos Jogos Centro-Americanos e do Caribe.

Borgetti lidera a lista de artilheiros, com 46 gols, seguido por Blanco (39), Carlos Hermosillo (35), Luis Hernández (35), Enrique Borja (31), Luis Roberto Alves (30), Luis Flores (29), Luis García (29), Hugo Sánchez (29) e Benjamín Galindo (28).

Já na tabela dos jogadores com mais partidas, Claudio Suárez, com 178 jogos, aparece no topo, seguido por Pável Pardo (148), Gerardo Torrado (135), Jorge Campos (131), Alberto García-Aspe (127), Ramon Ramirez (121), Blanco (121), Rafael Márquez (111), Carlos Salcido (103) e Oswaldo Sanchez (99).

– Confira tudo sobre o campeonato mexicano e o futebol da Concacaf pelo twitter: @renanbarabanov

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