México

Não chores por mim, Argentina

Na última década, o clichê básico de se analisar a Libertadores é afirmar que os brasileiros e argentinos sempre são favoritos, com uma eventual surpresa podendo aparecer de outro país. A avaliação tem uma origem lógica: a de que Brasil e Argentina são os dois países com mais tradição no futebol, têm mais representantes na competição e – excetuando o México – uma situação econômica melhor, apesar de todos os problemas internos. Mas, vendo os resultados em campo, já não dá nem para sustentar o chavão.

A Libertadores continua sendo uma competição razoavelmente aberta a times não-argentinos ou não-brasileiros. Tanto que Once Caldas, Olimpia e LDU Quito já conquistaram o título e o Cruz Azul foi finalista neste século. Em 2009, não seria a maior surpresa do mundo se Chivas de Guadalajara, Colo-Colo ou Libertad chegassem até as semifinais. O que merece ser relativizado é a ideia de colocar a Argentina, automaticamente, no mesmo patamar do Brasil.

Isso já ficara um pouco marcado nos últimos anos, ainda mais depois que o River Plate se afundou em uma grande crise institucional e técnica. Nesta temporada, o desempenho argentino tem sido frustrante. Três dos cinco representantes alvicelestes estão seriamente ameaçados de eliminação, sendo que – o mais grave – nenhum está em um grupo particularmente difícil.

A situação mais caricata é do River Plate. Os Millonarios parecem uma equipe comum no cenário internacional. Aceitam derrotas com naturalidade, sofrem para se impor em casa e não dão a menor pista de que podem pensar em título. A derrota por 3 a 0 para o Nacional de Montevidéu deixou os riverplatenses em uma situação quase humilhante: terão de suar para ficar à frente dos pequeno Universidad San Martín e Nacional paraguaio.

O momento do San Lorenzo não é tão diferente. No papel, o Ciclón tem uma equipe mais forte que o River. Além disso, mantém um trabalho consistente desde o ínicio do ano passado. No entanto, era um equilíbrio delicado. A perda do goleiro Orion – que se contundiu na partida contra o Libertad em Assunção – deixou a defesa insegura, sentimento que passou para o resto do time. Com isso, os liberteños assumiram de vez o papel de grande força da chave e já asseguraram a classificação.

Sorte da equipe de Boedo é que o San Luis, teoricamente o adversário mais forte do grupo, tem sentido demais a perda de seus principais jogadores (clique aqui para entender). Os mexicanos parecem mais preocupados em manterem um desempenho decente no campeonato doméstico do que se esforçar no torneio continental. Assim, a briga do San Lorenzo é diretamente com o Universitario, que até montou um elenco interessante para os padrões peruanos, mas não inspira tanta confiança.

A situação do Lanús é a mais complicada. Com dois pontos em quatro partidas, os Granate só se classificam se uma hecatombe vitimar Chivas, Caracas e Everton do Chile. Líder do Clausura, a equipe da grande Buenos Aires tinha obrigação de fazer uma campanha mais consistente, até porque Everton chileno e Caracas não deveriam criar dificuldades para uma das forças argentinas dos últimos anos.

Apesar de terem feito uma Libertadores decente em 2008, os lanusenses não escondem sua inexperiência. Isso ficou evidente nas partidas contra o Everton. Em Viña del Mar, os argentinos venciam, sofreram o empate e, quando deveriam administrar o marcador, deixaram o jogo ficar caótico e aberto. Não sofreram a virada por detalhes, como o fato de o árbitro não ver um possível pênalti de Valeri (salvou a bola com a mão em cima da linha) e um chute desequilibrado de Miralles quando o goleiro Bossio já estava batido.

Na partida de volta, o Lanús novamente saiu na frente. E, de novo, não soube controlara vantagem. Sofreu o empate no segundo tempo e, no último minuto, levou o gol da virada.

A situação argentina só não é mais crítica porque o Estudiantes tem usado sua experiência internacional para se impor diante do fraco Universitario de Sucre e do problemático Deportivo Quito (jogadores estão em atrito com diretoria pelo atraso de salários). Ainda assim, a principal força do grupo é o Cruzeiro, o que deixa a sensação de que os laplatenses não devem lutar pelo título continental. Assim, o único time argentino que realmente merece atenção total é o Boca Juniors, que é financeiramente muito mais forte que os compatriotas e se prepara especificamente para a Libertadores.

Em um aspecto mais amplo, dá para entender essa queda argentina. Como ocorre no Brasil, a Argentina também vê seus bons e outros não-tão-bons talentos saírem do país ainda jovens. No entanto, os platinos têm uma população menor e, principalmente, um futebol muito concentrado em Buenos Aires, o que diminui muito a capacidade de revelar jogadores aceitáveis em ritmo industrial. Algo que os brasileiros ainda mantêm.

Para agravar mais a situação, as forças tradicionais estão em baixa: o Independiente dedica forças à construção de seu novo estádio, o Racing tenta evitar nova falência, o River Plate virou uma bagunça e o San Lorenzo depende de um empresário – Marcelo Tinelli, apresentador de TV na Argentina que se transformou em uma Traffic ou Sonda para o Ciclón – para montar elencos competitivos. O Boca é o único grande a carregar a bandeira do futebol argentino no momento.

Em médio prazo, há uma boa chance de o futebol argentino se reorganizar um pouco e recuperar seu status continental. No momento, porém, dá para dizer que a Argentina está um ou dois degraus abaixo do Brasil na Libertadores. E seria mais correto revisar o clichê: “na Libertadores de hoje, os favoritos naturais são os brasileiros e o Boca, com alguma outra surpresa podendo aparecer de outro país”.

Gosto caribenho

Imaginava-se que, com a criação da Concachampions, o futebol da Concacaf se deslocasse definitivamente para a América do Norte. De fato, os semifinalistas da competição são todos de ligas norte-americanas (três do México e um da USL, espécie de segunda divisão dos Estados Unidos). No entanto, o centro de gravidade dessa primeira edição pode ser o Caribe.

As semifinais foram abertas com Puerto Rico Islanders (que joga a USL) x Cruz Azul em Bayamón. Em uma atuação sofrível dos mexicanos, o time portorriquenho se impôs: 2 a 0 e uma vantagem considerável para a partida de volta, na Cidade do México. A classificação da Tropa Naranja para a final seria histórica. Não apenas pelo inusitado, mas pela possibilidade de representar uma nova fase do futebol em Porto Rico, ainda que apenas três jogadores sejam nativos.

A quarta maior ilha do Caribe é quase um deserto futebolístico. A proximidade cultural com os Estados Unidos explica o fato de beisebol e basquete serem os esportes mais populares entre os portorriquenhos, mas a penetração do futebol é desproporcional, mesmo para os padrões estadunidenses.

Pelo elenco que têm, os cruzazulinos têm uma certa obrigação de vencer em casa. Se seus principais jogadores estiverem inspirados, até a vitória por três gols de diferença – e a classificação para a decisão – é acessível. Mas o cenário ficou muito favorável aos portorriquenhos, por mais surpreendente que seja.

Na outra semifinal da Concachampions, o Santos Laguna venceu o Atlante por 2 a 1 em casa. O jogo foi bastante equilibrado e mostrou duas equipes que não vivem um grande momento. Os laguneros abriram o marcador nos minutos iniciais, mas foram dominados pelo adversário durante boa parte do jogo. O placar final foi algo injusto, e dá a sensação de que não seria inviável ao time de Cancun (cidade no Caribe mexicano) se classificar.

Alajuelense no fundo do poço

Era 6 de fevereiro. Leonardo Mendes Júnior, editor de esportes do jornal curitibano Gazeta do Povo, me pediu uma ajuda. A Polícia Federal encontrara um carregamento de cocaína no porto de Paranaguá. Não teria nada com o futebol se os pacotes não estivessem com o distintivo de um time misterioso. Minha missão era ajudar a descobrir qual o dono do escudo.

Era a Liga Alajuelense, uma das potências da Costa Rica. Aprofundando a investigação, ficou evidente que o clube não tinha nenhuma relação com os traficantes. A ideia deles era usar o distintivo de um time de futebol para tentar convencer a fiscalização de que se tratava de material esportivo. Desse problema, a equipe costarriquenha escapou. Mas foi como um prenúncio de como a maré não era boa em Alajuela.

O ano começou de modo tenebroso para os Manudos (veja bem, é “mAnudos”, nada de “mEnudos”). Após 10 rodadas do Torneo de Verano, a Liga é a última colocada de seu grupo (penúltima no geral), com duas vitórias, dois empates e seis derrotas. Um retrospecto muito pesado para o segundo clube mais vitorioso do país.

A crise foi motivada pelas dificuldades econômicas do clube. Precisando cortar custos, a diretoria dispensou a base experiente e montou um elenco nas divisões inferiores. Para comandá-lo, foi contratado o técnico argentino Marcelo Herrera, que tem bom currículo no trabalho com jovens. Em um primeiro momento, deu muito certo: o time foi vice-campeão do Invierno (equivalente ao Apertura). O encanto, porém, parece ter acabado.

Apesar de o time ter mostrado algum potencial no final de 2008, a inexperiência fica evidente no momento de crise. Os primeiros resultados negativos tiveram impacto muito forte na equipe, que não consegue buscar forças para reagir.

Como, na Costa Rica, só é rebaixado um clube, o que tiver pior soma de pontos em Invierno e Verano, a chance de a Alajuelense cair pela primeira vez em sua história é quase nula. De qualquer modo, 2009 tem sido um ano muito ruim para a Liga. Até os agentes da Polícia Federal no porto de Paranaguá sabem disso.

Convocados

Veja a lista de convocados de alguns países sul-americanos para as duas rodadas da próxima semana nas Eliminatórias para a Copa de 2010:

Bolívia
Goleiros: Carlos Arias (Bolívar) e Hugo Suárez (Jorge Wilstermann); defensores: Miguel Ángel Hoyos (Bolívar), Luis Gatty Ribeiro (Real Potosí), Juan Manuel Peña (Celta-ESP), Ronald Raldes (Cruz Azul-MEX), Ronald Rivero (Universitario), Luis Gutiérrez (Hapoel Ironi Kiryat Shimona-ISR), Edemir Rodriguez (Real Potosí) e Abdón Reyes (Bolívar); meio-campistas: Leonel Reyes (Bolívar), Jaime Robles (Blooming), Ronald García (Aris-GRE), Julio César Hurtado (Aurora), Ignacio García (Bolívar), Walter Flores (Bolívar), Mauricio Saucedo (Universitario), Alejandro Gómez (Blooming), Alex da Rosa (San José), Joselito Vaca (Oriente Petrolero) e Pablo Escobar (Santo André-BRA); atacantes: Marcelo Moreno (Shakhtar Donetsk-UCR), Diego Cabrera (Independiente Medellín), José Alfredo Castillo (Oriente Petrolero) e Joaquín Botero (Correcaminos de la UAT-MEX).

México
Goleiros: Oswaldo Sánchez (Santos Laguna), Guillermo Ochoa (América) e José de Jesús Corona (Tecos de la UAG); defensores: Ricardo Osorio (Stuttgart-ALE), Óscar Rojas (América), Aarón Galindo (Chivas de Guadalajara), Leobardo López (Pachuca), Jhonny Magallón (Chivas de Guadalajara), Julio Domínguez (Cruz Azul), Fausto Pinto (Pachuca) e Carlos Salcido (PSV-HOL); meio-campistas: Fernando Arce (Santos Laguna), Pável Pardo (América), Gerardo Torrado (Cruz Azul), Luís Pérez (Monterrey), Andrés Guardado (Deportivo La Coruña-ESP), Giovani dos Santos (Ipswich Town-ING), Alberto Medina (Chivas de Guadalajara) e Leandro Augusto (Pumas de la Unam); atacantes: Omar Arellano (Chivas de Guadalajara), Nery Castillo (Shakhtar Donetsk-UCR), Carlos Vela (Arsenal-ING), Matías Vuoso (Santos Laguna) e Omar Bravo (Tigres de la UANL).

Paraguai
Goleiros: Justo Villar (Valladolid-ESP), Aldo Bobadilla (Independiente Medellín-COL) e Diego Barreto (Sol de América); defensores: Darío Verón (Pumas de la Unam-MEX), Julio Cáceres (Boca Juniors-ARG), Julio Manzúr (Libertad), Aureliano Torres (San Lorenzo-ARG), Carlos Bonet (Cruz Azul-MEX), Pedro Benítez (Tigres de la UANL-MEX), Paulo da Silva (Toluca-MEX), Denis Caniza (Olimpia) e Miguel Samudio (Libertad); meio-campistas: Enrique Vera (América-MEX), Edgar Barreto (Reggina-ITA), Osvaldo Martínez (Monterrey-MEX), Cristian Riveros (Cruz Azul-MEX), Jonathan Santana (San Lorenzo-ARG), Víctor Cáceres (Libertad), Sergio Aquino (Libertad), Eduardo Ledesma (Lanús-ARG), Marcelo Estigarribia (Le Mans-FRA) e Rodrigo Burgos (Cerro Porteño); atacantes: Roque Santa Cruz (Blackburn-ING), Nelson Haedo Valdez (Borussia Dortmund-ALE), Salvador Cabañas (América-MEX), Oscar Cardozo (Benfica-POR), Edgar Benítez (Pachuca-MEX) e Jorge Achucarro (Atlante-MEX).

Peru
Goleiros: Leao Butrón (Universidad San Martín) e Raúl Fernández (Universitario); defensores: Orlando Contreras (Alianza Lima), Carlos Zambrano (Schalke 04-ALE), Walter Vílchez (Puebla-MEX), Alberto Rodríguez (Braga-POR), Aldo Corzo (Alianza Lima), Juan Manuel Vargas (Fiorentina-ITA), Christian Ramos (Universidad San Martín) e Amilton Prado (Sporting Cristal); meio-campistas: Alexander Sánchez (Alianza Lima), Luis Trujillo (Alianza Lima), Paolo de la Haza (Alianza Lima), Carlos Fernández (Universidad San Martín), Nolberto Solano (Universitario), Miguel Ángel Torres (Universitario), Luis Alberto Ramírez (Libertad-PAR) e Rainer Torres (Universitario); atacantes: Pedro García (Universidad San Martín), Hernán Rengifo (Lech Poznan-POL), Johan Fano (Once Caldas-COL) e Daniel Chávez (Brugge-BEL).

Venezuela
Goleiros: Renny Vega (Caracas) e Rafael Romo (Llaneros de Guanare); defensores: Roberto Rosales (Gent-BEL), Juan Fuenmayor (Valerenga-NOR), José Manuel Rey (Caracas), Gabriel Cichero (Caracas), Franklin Lucena (Caracas), José Manuel Velásquez (Deportivo Anzoátegui), Gerzon Chacón (Deportivo Táchira), Carlos Salazar (Aragua) e Francisco Fajardo (Aragua); meio-campistas: Tomás Rincón (Hamburgo-ALE), César González (Huracán-ARG), Jorge Rojas (New York Red Bulls-EUA), Rafael Acosta (Cagliari-ITA), Guillermo Ramírez (Caracas), Angelo Peña (Estudiantes) y Francisco Flores (Guaros de Lara); atacantes: Juan Arango (Mallorca-ESP), Giancarlo Maldonado (Atlante-MEX), Alejandro Moreno (Columbus Crew-EUA), Yonathan Del Valle (Deportivo Táchira), José Salomón Rondón (Las Palmas-ESP) e Nicolás Fedor (Salamanca-ESP).

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Equipe Trivela

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