México

HISTÓRIA | Estádio Mateo Flores, 1996: Sob o signo do pânico

Por Luis Filipe Pereira

De tempos em tempos o mundo da bola é abalado por tragédias, como a ocorrida na última quarta-feira no Egito, que incidem como flechas no coração dos amantes do futebol. Conspirações políticas à parte, as imagens que mostram o final trágico da  partida entre Al-Ahly e Al-Masry, além das drásticas conseqüências para o já combalido futebol  africano – três jogadores egípcios já anunciaram aposentadoria e alguns diretores foram afastados de seus cargos –  trazem à memória alguns episódios que infelizmente mostram o lado trágico do esporte. No Brasil, confrontos entre torcidas organizadas têm se tornado cada vez mais rotineiros, principalmente em clássicos regionais.

No entanto, a ingerência – ou pura ganância – de alguns dirigentes e a condescendência de tantos outros, também fazem vítimas, como aconteceu na final da Copa João Havelange entre Vasco e São Caetano. Na ocasião, uma das arquibancadas de São Januário, completamente abarrotada, não suportou e veio abaixo. Um problema tipicamente brasileiro, onde para tudo sempre há um jeitinho, diriam alguns. E em uma partida com atmosfera de Copa do Mundo? Alguém lembra de algo semelhante?

Si, se puede

O dia 16 de outubro de 1996 era para ser marcado apenas pela disputa entre jogadores de Guatemala e Costa Rica  por um lugar na Copa de 1998. No futuro, os torcedores se recordariam do jogo  por um belo gol, ou por um destaque individual que poderia ter desabrochado durante a partida.  A seleção local passava por um de seus melhores momentos na história, com o 4º lugar conquistado na Copa Ouro, meses antes. E apesar de as Eliminatórias da CONCACAF ainda estarem em sua metade, o famoso si, se puede, entoado por várias torcidas de países hispano-americanos, nunca fizera tanto sentido para los chapines. A Guatemala tinha uma equipe razoável para seus padrões, o que configurava condições concretas de se classificar para disputar o mundial, que pela primeira vez teria a participação de 32 seleções e seria realizado na França. Uma vitória contra um rival histórico, como a Costa Rica, seria algo formidável.

O estádio Mateo Flores, palco da partida, e que completava à época, 50 anos de sua inauguração, tinha capacidade para cerca de 38 mil espectadores.  No entanto, a disseminação e venda de ingressos falsificados fizeram com que um verdadeiro mar de gente – em sua maioria guatemaltecos – fosse ao estádio, naquela noite de quarta-feira, há 15 anos. Evidentemente,  a aglomeração de pessoas  resultou num tumulto generalizado, que fez com que os organizadores – sempre eles- resolvessem abrir os portões.

Sucessão de erros

Decisão no mínimo equivocada, a abertura dos portões resultou numa verdadeira avalanche humana  no setor geral sul. Alguns fatores, como as poucas  saídas de emergência existentes e a falta de preparo das equipes de socorro, contribuíram  para que a catástrofe tomasse proporções ainda mais assustadoras. Ao final,  83 mortos e mais de 200 feridos, vítimas de  asfixia e pisoteamento. Números que não traduzem o caos instalado e a sensação de pânico encarada por quem presenciou o trágico episódio.

A FIFA indicou 13 funcionários, que trabalhavam na administração  do local, como os responsáveis pela tragédia de Mateo Flores. No entanto, não foram encontradas provas suficientemente contundentes contra nenhum deles, e por isso as investigações acabaram não prosseguindo. A capacidade do estádio fora reduzida e desde então sua carga máxima é de 30 mil espectadores.  

Anos depois, descobriu-se que o número total de ingressos emitidos ultrapassava os 45 mil, o que já tornava a situação caótica por si só. Contudo, a emissão de entradas falsas surgiu como prelúdio para a tragédia, fazendo o  problema tomar uma dimensão incontrolável. Suspeita-se que em torno de 53 mil pessoas estavam presentes nas arquibancadas do Mateo Flores, na noite que ficou marcada como uma das  mais tristes para o futebol.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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