México

Gigantes adormecidos

É sabido de boa parte dos interessados por futebol que a Primera División mexicana é um dos campeonatos mais equilibrados e indefinidos, principalmente entre as ligas mais fortes e tradicionais. Afinal poucos torneios nacionais contam com 23 campeões diferentes com menos de 70 anos de existência.

No campeonato mexicano, diferente de boa parte dos torneios ao redor do mundo, onde a tendência é o fortalecimento de poucas equipes em detrimentos, nos últimos anos a gama de times que chegam ao título vem aumentando. Nos últimos 12 torneios disputados foram oito vencedores distintos, sendo que nenhum deles obteve três conquistas (e muitos ainda falam do Campeonato Brasileiro!).

Com isso, uma pergunta que geralmente é feita por quem começa a acompanhar o futebol azteca é: e onde estão os times grandes? E não é uma questão nova. Boa parte da imprensa mexicana (e até de torcedores) se questiona o que acontece com os grandes clubes mexicanos.

Antes é importante apontar quem são esses clubes. Apesar de discussões acalorados acerca do tema, dois times são indiscutivelmente os maiores: Guadalajara e América. Em seguida, aparecem candidatos como Cruz Azul, Pumas, Toluca e Atlas. Tudo depende do ângulo sob quais são observados.

Por títulos nacionais, destacam-se as Chivas de Guadalajara (com 11), América (10), Toluca (10), Cruz Azul (8) e Pumas (6). Em número de torcedores, além da liderança de América e Guadalajara, aparecem, com destaque, Cruz Azul, Pumas e, bem atrás, Atlas. Na parte histórica (tradição), vale ressaltar os membros fundadores da Liga: as Chivas, América, Atlas e até o Veracruz, hoje frequentador da Liga de Ascenso.

Donos de times históricos, que conquistaram a hegemonia em suas gerações e tiveram sequências de conquistas (Guadalajara nos anos 1960, Cruz Azul na década de 1970 e América entre 1984 e 1989), o grande problema atual dos grandes aztecas nem chega a ser a falta de títulos ou anos de fila.

Não que o período de secas não perturbe. A fase em branco da Máquina Cementera, que não conquista o título desde o Torneo de Invierno de 1997 pressiona dirigentes, jogadores e torcedores, e vem sendo apontado como um dos grandes motivos pelo qual o time fraqueja em momentos decisivos, que o digam os quatro vice-campeonatos desde então, com destaque para as três finais perdidas nos últimos três anos.

Mas o que mais surpreende analisando o campeonato é a frequência com a qual esses clubes grandes oscilam e decaem entre uma temporada e outra no torneio nacional. Desde o bicampeonato da UNAM, em 2004, nenhum deles quando conquistou a Liga fez na temporada seguinte uma campanha de forma a se candidatar, de fato, ao bi e iniciar uma hegemonia.

As campanhas até começam bem, os times se reforçam e mantém boas perspectivas para o restante do campeonato. Mas na hora H, vira e mexe os grandes clubes aztecas ficam pelo caminho contra clubes menores ou até recém-chegados à Primera División. Clubes que não possuem a mesma receita (e nem potencial para isso).

É certo que dinheiro nunca foi problema para os clubes mexicanos. E mais ainda para os grandes. Com grandes receitas geradas por patrocínios, televisão e bilheteria, os times aztecas pagam os melhores salários da América Latina. Nem uma das possíveis causas para o fortalecimento dos clubes pequenos e médios (e do enfraquecimento das superpotências), o sistema de premiação da FEMEX (Federação Mexicana de Futebol), pode ser apontado como real motivo.

Como os maiores valores são pagos aos clubes que disputam a Liguilla, nem é necessário o título para receber uma boa verba, basta classificar-se. Se por um lado, esse formato privilegia um maior número de times recebendo dinheiro, por outro fortalece os grandes, já eu os clubes menores têm dificuldades para alcançar os playoffs com a mesma frequência.

Essa maior competitividade na Primera División pode até parecer boa de início, mas quando se analisa mais a fundo, percebe-se que a longo prazo é prejudicial para os clubes aztecas em dois pontos principais: internacionalização da marca e competitividade extra-continental.

A falta de verdadeiros esquadrões, reconhecidos mundo afora, dificulta o arrebatamento de torcedores em outros mercados, já que a preferência nesses casos é por times que façam história, deixem marcas e sejam lembrados. Além disso, dificulta a vida de times (e da El Tri), quando saem para duelar com times de outros países. Nisso, é notória a fama de amarelar de clubes e seleção em competições fora da Concacaf.

Federação, times e mídia podem, e devem, pensar na consolidação de times grandes sob esse aspecto. Afinal, não que se queira que somente um clube (ou um pequeno grupo deles) conquiste uma soberania total, mas que de vez em quando faz falta olharmos para um torneio e apontarmos os verdadeiros favoritos, isso faz.

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Equipe Trivela

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