México

Final antecipada. Será mesmo?

O clube que muitos já apontam como bicampeão brasileiro enfrenta o atual campeão da Copa Libertadores. Esse é o modo como parte da imprensa sul-americana vê o duelo entre São Paulo e Boca Juniors nas oitavas-de-final da Copa Sul-Americana. Um encontro que já foi chamado de “final antecipada”. Pelo currículo recente das duas equipes, tal status é até justificável. No entanto, uma análise mais profunda mostra que é uma precipitação.

Em teoria, o São Paulo chega como favorito. O time encontrou seu futebol depois de um meio de temporada atribulado, que lhe custou a eliminação prematura na Libertadores. Ao contrário do que vinha sendo comum no ano passado, a grande arma é a defesa. Alex Silva e Miranda se completam, com o primeiro tendo porte físico e o segundo contando com mais técnica e posicionamento. Breno, o terceiro zagueiro do 3-5-2, tem pinta de ser uma revelação na posição.

A venda de Ilsinho e a contusão de Reasco podem tornar a defesa algo vulnerável pela direita, mas o time tem maturidade tática para preencher esse espaço. Tanto que varia do 3-5-2 para o 4-4-2 sem traumas. No caso do lado direito, Souza já tem experiência em jogar pela ala e pode ser o substituto. Simples e eficiente, mesmo sem brilho.

No ataque, falta um artilheiro constante. Borges tem melhorado sua produção ofensiva, mas ainda não desperta total confiança. Dagoberto é bastante talentoso, mas tem sido melhor na movimentação e abertura de espaços do que na finalização. Aloísio se especializou em ser o pivô, que fica de costas para o gol e tabela com quem se aproxima. É eficiente, mas não finaliza. Mesmo assim, o Tricolor tem conseguido fazer os gols que precisa, o que diminui o efeito negativo.

Por mais que seja verdade que o time cresce cada vez mais, ainda tem problemas projetando um encontro com o Boca Juniors. Os volantes Richarlyson e Hernanes têm jogado muito bem, mas são inexperientes e não contam com força caso a partida com os argentinos se torne bastante física. Ambos podem surpreender positivamente, mas é um ponto de possível fragilidade. Além disso, falta um armador nato, sobretudo para conduzir a bola em caso de necessidade de cadenciar o jogo.

Viúvas de Riquelme
O São Paulo pode ter suas falhas, mas o Boca Juniors está pior no momento. A saída de Riquelme ao final da Libertadores teve um impacto muito maior do que muitos imaginavam. Sem ele, os defeitos da equipe ficaram expostos e este início de temporada – os argentinos adotam o calendário europeu – tem por função permitir que um novo sistema de jogo seja montado.

Riquelme era o ponto de equilíbrio entre meio-campo e ataque. Sua capacidade de segurar a bola, ditar o ritmo do jogo e acionar seus companheiros permitia que o meia Néri Cardozo e os atacantes Palacio e Palermo tivessem mais tranqüilidade para encontrar espaço em cada jogada ofensiva. Era um futebol mais fluido, em que os passes eram trocados com naturalidade e inteligência.

Acabou a Libertadores, acabou esse Boca Juniors. O clube fez empréstimo de quatro meses com o Villarreal e foi obrigado a devolver Riquelme. Como o argentino está fora dos planos do clube espanhol, ele pode ir para quem fizer uma boa proposta financeira. Atlético de Madrid e Tottenham teriam se apresentado, mas a diretoria boquense ainda alimenta os sonhos da torcida dizendo que está em negociação. Se der certo, o Boca volta a ser favorito à Copa Sul-Americana. Se não der (o que é o mais provável), o técnico Miguel Ángel Russo continuará na busca por um novo homem de referência na armação e um sistema de jogo.

Para piorar a situação do treinador, o Boca ainda está com problemas na defesa. De uma vez, o elenco perdeu o zagueiro Daniel Díaz e o lateral-esquerdo Clemente Rodríguez. Não são gênios, mas ambos fazem parte da seleção argentina e suas ausências não podem ser ignoradas. Ainda não há substituto à altura e os homens de marcação no meio-campo – Battaglia, Banega e Dátolo – ficam sobrecarregados. A campanha discreta no início do Campeonato Argentino (quatro pontos em três jogos) reflete essa instabilidade xeneize.

Ainda há outro caso a se considerar, e isso vale para boquenses e são-paulinos: qual o nível de interesse dos times na Copa Sul-Americana. O Boca Juniors sempre quer vencer competições internacionais, mas a prioridade é montar um time que esteja realmente bem no final do ano, para a disputa do Mundial. Se o preço for sacrificar o início do Apertura ou a Sul-Americana, não haverá problema.

O mesmo raciocínio conta para o São Paulo. O Tricolor pode priorizar o Campeonato Brasileiro e poupar alguns jogadores da Sul-Americana. Como já fez no jogo de ida da fase preliminar, contra o Figueirense. No balanço geral, os paulistas parecem em melhores condições para o duelo entre dois candidatos ao título. Mas fica evidente que há condicionantes demais nas duas equipes para se cravar o rótulo de “final antecipada”.

Poucas surpresas nas outras chaves
Nas outras chaves da Copa Sul-Americana também dá para perceber o porquê de ser precipitado apostar tanto no vencedor de São Paulo x Boca Juniors. Entre os pré-classificados para as oitavas-de-final estão Pachuca, América-MEX e Chivas, times com totais condições de lutar pelo título. O River Plate continua em mau momento, mas tem a tradição a seu lado e também merece ser considerado.

Entre os times que ainda estão na primeira fase, os destaques são Vasco, Botafogo, Estudiantes e San Lorenzo. Os dois cariocas fizeram bons resultados na partida de ida – contra Atlético-PR e Corinthians – e têm boas possibilidades de seguir na competição. No entanto, o fato de estarem na luta por um lugar na Libertadores pode valorizar a Sul-Americana como ensaio, mas também pode tirar importância da competição como eventual meio de desgaste na reta final. Assim, vascaínos e botafoguenses ainda precisam esperar um pouco para ver até onde suas equipes podem chegar.

Os argentinos estão mais fortes. Ambos já estão na próxima Libertadores e têm títulos nacionais recentes. Uma conquista continental, ainda que de segundo nível, seria bem-vinda. Os platenses precisam, antes, se desvencilhar de um problema grená. Perderam do Lanús por 2 a 0 e dependem de uma vitória por três gols de diferença em La Plata para passarem de fase. O San Lorenzo, atual campeão argentino, empatou com o fraco Arsenal em Sarandi e são favoritos à classificação.

Nas demais chaves, poucas surpresas. Depois de perder em casa para o frágil Coronel Bolognesi por 1 a 0, o Millonarios se recuperou e venceu o clube peruano em Tacna pelo mesmo placar. Nos pênaltis, os colombianos venceram. Audax Italiano, Colo-Colo e Olmedo também confirmaram o favoritismo ao passarem por Jorge Wilstermann, Real Potosí e Zamora. Atlético Nacional e El Nacional estão no mesmo caminho (venceram o jogo de ida fora de casa) contra Universitario e Carabobo.

Assim, zebras (ou mini-zebras) só no grupo Uruguai-Paraguai. O pequeno Tacuary bateu nos pênaltis o Danubio, atual campeão uruguaio e time em condições de fazer um brilhareco na competição. Curiosamente, no dia seguinte, a surpresa mudou de lado. O esforçado Defensor Sporting superou o Libertad, equipe que se acostumou a complicar a vida de poderosos brasileiros, argentinos e mexicanos nos últimos anos.

A Copa Sul-Americana ainda não tem uma cara definida. Mas, com os favoritos passando, pode ficar interessante a partir das fases realmente internacionais.

NOTAS

COPA DOS CAMPEÕES DA CONCACAF
– Resultados dos jogos de volta da primeira fase do Torneio dos Campeões da Uncaf, chave centro-americana da competição continental: Belize-BLZ 0x0 Puntarenas-CRC (0x3), Once Municipal-ELS 1×0 Saprissa-CRC (2×5), Isidro Metapan-ELS 0x0 Alajuelense-CRC (0x3), Revolutionary Conquerors-BLZ 2(4)x1(5) Real España-HON (1×2), Xelajú-GUA 1(4)x0(2) Tauro-PAN, Municipal-GUA 6×0 Real Madriz-NIC (2×0), Motagua-HON 3×1 Real Esteli-NIC (2×0) e Olimpia-HON 0x1 San Francisco-PAN (0x0).

– Assim, estão classificados Puntarenas, Saprissa e Alajuelense (Costa Rica), Real España e Motagua (Honduras), Xelajú e Municipal (Guatemala) e San Francisco (Panamá).

– A surpresa é a ausência de times de El Salvador nas quartas-de-final e a classificação do panamenho San Francisco diante do tradicional Olimpia de Honduras.

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Equipe Trivela

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