No Dia do Amigo, os vizinhos de infância que viraram craques de um time histórico: Puskás e Bozsik

Talvez você não saiba, ou até ache que é em outra data: mas, neste 20 de julho, se comemora o Dia do Amigo – o que é até lei em alguns estados brasileiros. Um marco que pode até ser pouco importante, mas serve de bom pretexto para se falar de futebol. E é difícil se encontrar uma amizade tão marcante na história do esporte quanto a entre Ferenc Puskás e Jozsef Bozsik. Entre os maiores jogadores da história da Europa, o atacante e o meio-campista lideraram a mítica seleção húngara dos Mágicos Magiares. O entrosamento, contudo, vinha de muito antes: do Honvéd, das categorias de base, da escola, dos campinhos do bairro e das casas vizinhas. Praticamente do berço.
ESQUADRÕES DA CORTINA DE FERRO: Honvéd, a armada húngara que revolucionou o futebol
A amizade entre os craques começou quando ambos mal tinham saído das fraldas. A origem de tudo se deu em Kispesti, na periferia de Budapeste. Ferenc Purczeld, pai de Puskás, atuava no clube semiamador do bairro, enquanto conciliava os treinos com o trabalho na companhia ferroviária ou no matadouro. Quando seu filho tinha apenas três anos, vendeu a sua casa para morar em outra ao lado. E os compradores eram justamente os pais de Bozsik, então com cinco anos. Logo, os vizinhos Öcsi e Cucu (os apelidos de Ferenc e Jozsef) se tornaram grandes amigos, especialmente pela paixão ao futebol.
Puskás e Bozsik viveram várias aventuras durante a infância. Quando queriam jogar bola, um apenas batia na parede que separava as duas casas que o outro já sabia qual era o sinal – muitas vezes, chutando as meias “roubadas” de seus pais. Costumavam apostar corrida contra o trem que passava pelo bairro, enquanto participavam das peladas em um terreno de areia na vizinhança. Estudavam juntos, viam filmes de faroeste juntos. E também juntos iam ao estádio do Kispesti. Por mais que o pai de Puskás fizesse parte do clube, mesmo depois da aposentadoria, os garotos muitas vezes pularam a cerca apenas para estar nas arquibancadas.
VEJA TAMBÉM: O jogo mais espetacular da vida de Puskás: Honvéd 9×7 Vörös Lobogó
Como não poderia deixar de ser, Puskás e Bozsik também ganharam uma chance do futebol no mesmo dia, graças à ajuda que um amigo deu ao outro. Os garotos brincavam de bola quando um quando um funcionário do Kispesti foi observar o jogo. O olheiro gostou apenas de Bozsik. Mas, ao ver o parceiro escolhido, Puskás falou: “E eu? Jozsef e eu sempre jogamos juntos e fazemos muitos gols”. O suficiente para amolecer o observador. O problema é que Ferenc tinha 10 anos, dois a menos do que o mínimo para jogar no infantil. E o prodígio falsificou os documentos, rebatizado como Ferenc Kovacs. Um delito que era sabido pelos adversários, mas que não precisou durar muito tempo.
Puskás, Bozsik e os garotos da base do Kispesti faziam sucesso nos torneios pela Hungria. E a Segunda Guerra Mundial acabou acelerando a aparição deles na equipe principal. Aliada dos nazistas, a Hungria sofria com os bombardeios em seu território e ia convocando toda a população masculina para lutar no front russo. O Campeonato Húngaro de 1943/44 foi o último completado antes do fim da guerra, em 1945. Também o que marcou a estreia de Bozsik e Puskás. Ambos menores de idade, não podiam servir as forças armadas. “Em certo sentido, o futebol protegeu-me da guerra. Eu estava tão absorvido pelo jogo que esquecia o que estava acontecendo ao redor”, afirmou Puskás, tempos depois.
VEJA TAMBÉM: O dia em que o velho Puskás provou que sua barriga era muito menor que seu talento
Embora o pai de Puskás fosse o técnico do Kispesti àquela altura, ambos ganharam uma chance na equipe principal muito mais pelo talento do que por protecionismo. E ajudaram a impulsionar o clube, em meio ao clima de euforia com o futebol que se dava na Hungria ao final da guerra. O Kispesti passou a conquistar resultados cada vez melhores: além de frequentar as primeiras posições no Campeonato Húngaro, também fazia sua fama em excursões internacionais. Nesta época, Puskás recebeu uma proposta da Juventus, enquanto queriam levar Bozsik para a França. Mas os dois preferiram continuar na Hungria, próximos de suas famílias. Para que não cedessem às ofertas de fora e dos grandes do país, ganharam do clube uma casa de ferragens, que tocavam juntos para complementar o salário.
A partir de 1949, o time da periferia se transformou. O futebol foi percebido como meio para aproximar o Estado e a população. E o Kispesti se tornou o Honvéd, ‘os defensores da pátria’, controlado pelo exército. Embora não fosse tão popular quanto o Ferencváros, o clube escolhido tinha suas raízes ficada nas camadas populares. Conseguir a adesão do povo em pouco tempo, ainda mais com o talento de Puskás e Bozsik, não seria problema. O que de fato aconteceu, com a equipe se tornando ma grande potência nacional e a principal base da seleção húngara que assombrou o mundo na década de 1950.
VEJA TAMBÉM: Há 60 anos, Hungria e Inglaterra faziam o Jogo do Século
Independente do sucesso, a amizade de Bozsik e Puskás se mantinha. Titulares absolutos do time e da seleção, também eram as duas principais lideranças. Enquanto um dominava o meio-campo, o outro chamava a responsabilidade no ataque. Não à toa, uma das principais jogadas dos húngaros vinha dos passes em profundidade da direita à esquerda, onde os amigos se conectavam. Brilharam na histórica vitória por 6 a 3 sobre a Inglaterra em Wembley. E acabaram derrotados pela Alemanha Ocidental no amargo milagre de Berna, na final da Copa de 1954.
A amizade teve o seu ponto final em dezembro de 1956, durante a Revolução Húngara, quando o Honvéd estava fora do país para a disputa da Copa dos Campeões e para uma excursão pelo Brasil. Enquanto Puskás encabeçou o movimento dos desertores, Bozsik preferiu voltar para casa. Sem o companheiro, se tornou capitão de uma geração enfraquecida, sendo apenas o terceiro jogador da história a superar os 100 jogos pela seleção. Após se tornar deputado, dirigente do Honvéd e técnico da equipe nacional, o meio-campista faleceu aos 52 anos. Deixou um vazio em Puskás, apesar dos anos de distância. “Meu pai morreu quatro anos antes do retorno de Puskás ao país pela primeira vez, em 1982”, declarou Péter Bozsik, que também seguiu os passos do pai como jogador. “Eles se viam como irmãos. A história os separou”.




