Itália

Totti ressalta decisão do coração ao permanecer na Roma: “Quando se sente assim, é difícil ir embora”

Em entrevista exclusiva ao Guardian, ex-capitão romanista relembrou momentos em que poderia ter saído do seu clube de coração

O tempo costuma ser a chave mais comum para que os seres humanos tenham uma compreensão melhor sobre sua história e suas decisões no passado. É o tempo que nos permite amadurecer e medir as consequências dos nossos atos, e isso naturalmente não ocorre de um dia, um mês ou um ano para o outro. Requer paciência para ler os fatos de uma maneira distanciada. Mas eventualmente, as respostas aparecem.

LEIA MAIS: Simplesmente Totti: Roma compilou lances marcantes para comemorar os 45 anos do seu eterno capitão

Esse tem sido o mote de uma vida bastante peculiar e que teve seus principais momentos cravados bem no coração de uma cidade histórica: Francesco Totti, síntese de Roma enquanto clube e município, segue escrevendo páginas de um livro que é considerado, para muitos, uma espécie de Bíblia. A Bíblia segundo Francesco não conta sobre milagres, tampouco deseja indicar o caminho à humanidade. Afinal de contas, estamos todos perdidos de qualquer forma, e não seria um cidadão romano que mudaria os rumos da civilização moderna.

Totti, em suma, ajuda a contar a saga de um homem comum que viveu um sonho. E que seguiu seu coração em cada momento crucial de sua vida enquanto atleta. Decisões que afetaram diretamente o seu destino e o de milhões de pessoas ao redor do mundo, que seguiram sua procissão. Até o fim de sua carreira, aquele que hoje é conhecido como “Il Capitano” defendeu apenas uma camisa. Roteiro que pertence a um restrito grupo de pessoas, distintas pessoas que são cada vez mais raras em um esporte que está cada vez mais distante de sua essência.

Mas Francesco não é só coração, como pode parecer. Ele também foi razão. Em entrevista exclusiva ao jornal inglês The Guardian, concedida a Nicky Bandini, o ídolo romanista revisitou momentos de sua trajetória que poderiam ter culminado em uma mudança de ares, não só dentro da Itália, mas também para a Espanha, onde o Real Madrid lhe cobiçou e jamais recebeu um sim como resposta. Essa parte, o mundo do futebol já sabe. Mas o que dizer sobre o convite feito pelo Milan antes mesmo de Totti deslanchar nos juvenis da Roma?

Decisões de um menino convicto

Os eventos de uma carreira profissional que durou 24 anos foram narrados pelo próprio craque, em sua autobiografia recentemente lançada sob o nome de “Gladiator”. Alcunha que ele por vezes respondeu, no alto de seus poderes, por representar o espírito guerreiro de uma cidade que vive pela luta. Como se sabe, o desfecho quase foi diferente, pois houve muita gente interessada em tirá-lo de sua terra natal. Aos 12 anos, o Milan bateu na porta da família Totti, a fim de levar o garoto para Milanello. Depois de alguns dias de reflexão e conselhos de amigos, a resposta foi negativa. E ao contrário do que possa parecer, a palavra final não veio dos pais.

“Honestamente, não. As decisões foram sempre tomadas por mim, com a minha cabeça. Eventualmente, seus pais te aconselham e é correto que você os ouça. Mas no fim, mesmo sendo tão jovem, eu sabia que tinha tempo suficiente e um futuro à minha espera”, comentou Totti, que também admitiu o fato de ter se imaginado algumas vezes com a camisa do Milan quando criança.

Foi a primeira vez que ele se deparou com a possibilidade de ir embora. Ainda ocorreram outras duas situações, as quais ele optou por permanecer em Roma. Uma, antes da consolidação como futebolista, e a outra, já no seu auge. É verdade que, em 1996, sob o comando de Carlos Bianchi, a equipe giallorossa quase se desfez de um jovem e brilhante Totti, e ele pouco poderia ter feito se a diretoria tivesse concordado com o treinador.

Aos olhos do argentino, Francesco não fazia parte dos planos para a equipe e a contratação de Jari Litmanen, estrela do Ajax, era o passo lógico para Bianchi naquele momento. Houve um movimento para que Totti saísse e acabasse cedido à Sampdoria, mas no fim, uma queda de braço interna fez com que o técnico fosse derrotado e posteriormente demitido. Totti ficou e ganhou ainda mais força no fim da década, quando virou protagonista e capitão.

A maior interrogação: Real Madrid

Quase dez anos depois, campeão da Serie A e da Copa do Mundo, o capitão se viu com outro dilema: assinar ou não com o Real Madrid, que estava em transição no seu período galáctico, tendo se desfeito de parte do núcleo vencedor que havia sido construído em 2000. Na visão de Totti, a balança quase pendeu para o lado dos merengues.

“Claro que pensei a respeito. Vamos dizer que, em alguns dias, eu estive com um pé dentro e outro fora. E aí, como eu já disse várias vezes, a decisão de ficar em Roma foi feita com o coração. Quando você se sente dessa maneira, é difícil ir embora”, respondeu.

Bandini ressalta no texto que, durante a conversa por vídeo, esse foi o momento em que Totti, um homem sabidamente franco, parecia ter mais cuidado com o que falava. Compreensível: não só por estar repassando um instante crucial de sua vida, mas também por lidar com emoções que nem ele mesmo é capaz de racionalizar. Já se passaram 15 anos desde aquele verão e o homem ainda não externou publicamente, sem deixar dúvidas, se aquilo foi ou não uma decisão acertada. As palavras estão aí, no ar, para quem as quiser ler. O que se passa na cabeça de Totti, porém, ninguém sabe.

As respostas estão cada vez mais completas, mas ainda indicam um certo cuidado ao refletir sobre o assunto. E para quem é adepto de uma boa análise de discurso, a questão está bem clara: “O Real Madrid é o único outro time no qual eu poderia ter jogado. O outro time que eu poderia ter defendido, penso. Uma experiência em outro país teria sido algo muito bonito para todos. Para minha família, para mim. Quando você toma uma decisão com a cabeça, nunca pode ser uma decisão ruim, não acha?”, conclui Totti. Freud explica.

O texto também nos indica que, antes de lançar a última sentença, a conexão de internet interrompeu o raciocínio de Francesco. Algo tão comum durante a pandemia e que às vezes vem bem a calhar. Para alguém que sempre controlou muito bem o tempo e o jeito de bater na bola, a instabilidade da internet ajudou na conclusão do lance. Mesmo sem dizer o que está posto e que você já deve ter captado se prestou atenção no texto, Totti emenda mais uma de suas frases grandes, tão grandes quanto sua contribuição à Roma: “Existe um destino à nossa espera. E você tem de ir atrás dele. Com paciência, passo a passo, você entende que certas coisas estão te aguardando”, arremata.

Uma só biografia

Nós só escrevemos uma vez a nossa história. E nos livros sobre Totti, o que ficará é que ele optou por dedicar toda a sua carreira a apenas um clube. Por este motivo, saiu de cena (ainda que contrariado) como o maior de toda a história da Roma e um exemplo inconteste de dedicação e amor. Exemplo, que aliás, fica cada vez mais difícil de ser seguido, já que o que move um jogador nascido depois dos anos 1990 é algo diferente.

“Foram 25 anos no mesmo time, isso não é algo pequeno. Ser o capitão, um dos jogadores mais importantes, isso me fez subir um pouco minha própria régua. Mas comparando o meu tempo com o de hoje, é difícil. Agora [o futebol] é mais negócio. Você vai para onde pode ganhar mais dinheiro. E isso é justo, não?”, refletiu.

Então, sim. Se um Francesco Totti tivesse surgido 10 anos depois, provavelmente ele teria aceitado a proposta do Real Madrid. E certamente não seria um Francesco Totti, mas um jogador de estatura bem menor, não só pelo que entregou em campo, mas também pelo que fez fora dele. E é isso que define o capitão, no fim das contas. Foi esse caminho que ele escolheu e valeu a pena, não valeu? Talvez, a fama e alguns títulos a mais esperassem Francesco no Real, mas quem é que pode cravar se isso seria tão grandioso quanto os rumos que ele de fato tomou? 

A próxima geração da família está vindo aí. É seguro dizer que Cristian, que já desponta nas categorias de base, não terá o mesmo destino. Primeiro porque já não vivemos mais tempos em que um Totti pode fazer o que fez na sua tenra juventude. E segundo, mas não menos importante, porque será outra cabeça traçando planos e nutrindo sonhos que dificilmente serão os mesmos do pai. Quem quer ver como será a vida de um Totti no futebol contemporâneo, pode acompanhar os passos de Cristian até o profissionalismo. Mas Francesco, mesmo, só existe um. Ainda bem.

Mostrar mais

Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo