Serie A

Promessa do United, Amad Diallo é multado por documentos falsos, em caso que revela fraude com garotos africanos rumo à Itália

Recentemente integrado ao elenco do Manchester United, após acertar sua transferência no início da temporada, Amad Diallo teve sua primeira oportunidade de ser relacionado nesta terça-feira. O ponta de 18 anos permaneceu no banco contra o West Ham, pela Copa da Inglaterra, mas não entrou em campo. E numa semana importante à sua progressão em Old Trafford, após causar impacto no sub-23, o marfinense recebeu uma notícia ruim da Itália, onde atuava anteriormente. O ex-atleta da Atalanta foi multado em €48 mil pela FIGC, a federação italiana, por ter usado documentos falsos em seu registro – dentro de uma fraude que se aproveitava de jovens talentos africanos e o levou à Itália.

A investigação foi realizada pela promotoria de Parma, diante de uma denúncia sobre tráfico de crianças, que chegavam irregularmente da Costa do Marfim. Eles desembarcariam em busca do sonho de se tornarem jogadores na Itália e gerariam dinheiro à fraude. Segundo a apuração, Amad Diallo ganhou documentos que apontavam pais fictícios, em processo para facilitar sua entrada na Itália em 2014. Como os supostos pais já moravam no novo país, o jovem conseguiu residência e pôde se registrar no Boca Barco, uma equipe da região da Reggio Emilia. Depois, seguiria para a Atalanta, onde também assinou seus primeiros contratos com tais documentos.

Amad Diallo não é o único jogador profissional implicado pelo esquema. Também apresentou documentos falsos Hamed Junior Traoré, registrado como seu irmão. O meia de 20 anos defende o Sassuolo na atual temporada da Serie A, embora esteja emprestado pelo Empoli. Ele também jogou pelo Boca Barco em sua chegada ao novo país, usando o documento forjado para o registro. Assim como Amad Diallo, Hamed Junior Traoré foi multado em €48 mil pela FIGC.

Segundo a promotoria de Parma, cinco adultos teriam participado do esquema há seis anos, incluindo Hamed Mamadou Traoré e Marina Edwige Carine Teher, que estavam registrados como pais de ambos os jogadores nos documentos falsos. Anteriormente, havia sido preso Giovanni Damiano Drago, que atuou como representante dos atletas e encabeçava o esquema. Eles enfrentam o processo na justiça. Marina Teher é funcionária da Atalanta, mas o clube não teria qualquer participação na fraude.

Por serem menores de idade na época da mudança, Amad Diallo (então com 12 anos) e Hamed Junior Traoré (com 14 anos na época) não foram acusados pela promotoria de Parma. Em compensação, a punição estava na alçada esportiva da federação italiana. Também há a investigação sobre outros dois jogadores marfinenses que chegaram à Itália em esquema parecido, com pais fictícios diferentes. Um deles é Chris Abou Teher, de 19 anos, que atua na Serie D, enquanto o segundo não teve seu nome revelado por ser menor de idade, embora integre a base do Lecce. A FIGC não definiu sanções a ambos.

Amad Diallo e Hamed Junior Traoré participaram das investigações da promotoria, dando depoimentos e cedendo amostras de DNA. Por conta de um acordo judicial com a FIGC, não haverá uma suspensão, como aplicável em outros casos de falsificação similares. O anúncio oficial da federação também declara que Amad Diallo Traoré utilizou um nome falso em seu contrato com a Atalanta. O ponta deixou de usar profissionalmente o Traoré, após completar 18 anos. Segundo o Corriere della Sera, os dois atletas também podem não ser irmãos e suas idades igualmente podem ter sido adulteradas – ainda que o benefício disto nesse momento, como profissionais, seja mínimo.

A história possivelmente terá novos desdobramentos, mesmo sem implicações na justiça aos jogadores, e apresentará questões mais profundas. Apesar da falsificação de documentos, Amad Diallo e Hamed Junior Traoré também são vítimas, aparentemente submetidos a um esquema de tráfico sob o sonho de se tornarem jogadores. Ambos vingaram por seus talentos, mas nem sempre isso acontece e esses garotos podem terminar abandonados no novo país. Também será importante esclarecer qual a relação dos jovens com a própria família na Costa do Marfim e em quais condições eles deixaram os pais verdadeiros. Que o final seja feliz a ambos dentro de campo, outros garotos não têm a mesma sorte e acabam sofrendo com esses esquemas.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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