Serie A

Poucos prêmios nesta temporada serão tão justos quanto a escolha de Lukaku como melhor da Serie A

Centroavante da Internazionale foi eleito o craque do Campeonato Italiano, depois de conduzir a Inter ao Scudetto

A Serie A apresentou nesta segunda-feira os prêmios oferecidos aos melhores da temporada 2020/21. E não havia escolha mais precisa do que a condecoração de craque do campeonato ser dada a Romelu Lukaku. Não é sempre que se vê um jogador tão preponderante ao desempenho do time como foi o centroavante ao longo da conquista do Scudetto. O belga pode não ter sido o artilheiro da competição, mas sua contribuição ao estilo de jogo da equipe de Antonio Conte é evidente. Acumulou gols, apareceu em partidas decisivas e potencializou um time que teve todos os méritos no título. Se ainda faltava um troféu de primeira grandeza ao atacante, este veio no melhor estilo, com sua marca expressa ao sucesso dos nerazzurri.

Lukaku chegou à Internazionale como uma aposta alta, por €74 milhões. E vinha pressionado por dar uma resposta no mais alto nível, depois das frustrações no Manchester United. Apesar do alto investimento dos Red Devils, o belga não se tornou por lá o astro que se esperava. Pesava um ambiente conturbado, mas também a maneira como o jogador parecia não se encaixar – por vezes acusado de estar fora de forma. Na Inter, Lukaku encontraria um clube onde seria recebido de braços abertos e ganharia as melhores condições para dar seu melhor – o que dependeria de um processo amplo, afinal.

Antonio Conte era um dos principais responsáveis pela contratação de Lukaku. E a ideia do treinador em contar com o centroavante se tornava óbvia, pensando no estilo de jogo aplicado. O belga seria o atacante perfeito na tática vertical e explosiva adotada pelo técnico. Poderia brigar pela bola na frente, se associar com um parceiro de características distintas e aproveitar sua máxima aceleração. Para isso, dependeu também de um trabalho físico, que passou por uma readaptação de sua alimentação e de sua preparação. No fim, os interistas conseguiram a melhor versão do camisa 9 em toda a sua carreira.

“Conte me tornou melhor em todos os aspectos”, disse Lukaku, ainda em outubro. “Se um jogador quer jogar com Antonio Conte, ele precisa entender que é tudo sobre sacrifício, físico e mental, mas você se sente mais forte em campo, o que não foi fácil para mim, porque eu vivo pelo futebol. Eu sempre tenho o objetivo de ser um bom jogador e vencer troféus, mas eu sabia que ele era o treinador certo e que eu poderia me desenvolver neste time. Desde que comecei, dei 100% todos os dias e agora estamos indo bem”.

Além do mais, Lukaku nunca escondeu seu apreço pela Inter. Gostava do clube desde a infância, especialmente por idolatrar Adriano. A oportunidade trouxe outra motivação especial. “Minha cabeça sempre esteve na Inter e no treinador. Quando eu era criança, admirava Adriano, Ronaldo, Christian Vieri. Então, quando a Inter veio, o Conte já tinha tentado me levar para o Chelsea e para a Juve também”, comentou Lukaku, em março de 2020. A partir de então, ele escreveu seu próprio nome com a camisa nerazzurra.

A primeira temporada de Lukaku rendeu 23 gols e uma parceria notável ao lado de Lautaro Martínez, mas a equipe da Inter não estava completamente pronta. Os nerazzurri amadureceram nesta temporada e ganharam consistência, em especial após a eliminação precoce na Champions. O que se viu, então, foi uma campanha arrasadora na Serie A a partir da virada do primeiro turno. Os gols de Lukaku e Lautaro continuaram saindo, mas desta vez dando impulso a um time que não sabia o que era perder e que venceu diversos confrontos diretos. A galopada permitiu que os interistas atropelassem o Milan na liderança e disparassem para a conquista mais tranquila das cinco grandes ligas europeias em 2020/21.

Lukaku marcou 24 gols nesta temporada. Mais importante, foram dez assistências, aumentando sua participação na produtividade do ataque. Ficou mais claro seu poder de criação, elevando o próprio repertório e o leque de jogadas – podendo surgir mesmo como um segundo atacante ou como um ponta. Sua virtude em romper as defesas não era usada apenas a seu favor, mas também dos companheiros que aproveitavam as brechas. Melhor para a Inter, que desfrutou de tamanha imponência de seu camisa 9.

Lukaku já tinha feito um primeiro turno fenomenal, com 12 gols nas primeiras 15 rodadas. De qualquer maneira, foi na arrancada a partir de janeiro, e principalmente na tomada da liderança, que seu protagonismo chegou ao ápice. O atacante anotou nove gols e deu cinco assistências do 20° ao 28° compromisso. Foi neste momento que os nerazzurri emplacaram no topo da tabela. Os dois gols contra a Lazio, seguidos da atuação destruidora no clássico contra o Milan, valeram a consolidação.

Lukaku até chegou a encarar uma seca de cinco rodadas sem gols em abril, mas seu time conseguiu ser campeão mesmo assim. Na reta final, os gols voltaram a acontecer e só refrescaram a memória sobre a fase fantástica do camisa 9. Além de um coletivo muito bem montado por Conte, a Inter dependeu da boa fase de diversos jogadores – como Achraf Hakimi, Nicolò Barella e o próprio Lautaro. Ainda assim, é difícil pensar em outro atleta que represente tão bem a dominância e o espírito dos interistas nesta caminhada do que Lukaku. Foi uma daquelas temporadas para se firmar na história do clube.

O gosto do Scudetto foi ainda mais especial, considerando o contexto. Valeu uma volta por cima de Lukaku não apenas pela forma como saiu do Manchester United, como também pelo deplorável episódio com Zlatan Ibrahimovic. Se o belga já tinha razão na discussão baixa promovida pelo sueco, ele daria uma resposta ainda mais contundente ao se consagrar com a camisa da Internazionale. É um cara que sensacional, por toda a sua história de vida. E que merecia mesmo um título em reconhecimento ao seu talento, algo que não tinha vindo nos tempos de Premier League, por mais que já tivesse até superado a marca de 100 gols no Campeonato Inglês.

É ver como será a continuidade de Lukaku sem Antonio Conte, que tão bem explorou seu potencial. Mas, considerando o que Simone Inzaghi conseguiu com Ciro Immobile nos tempos de Lazio, é bem provável que o belga continue resolvendo muitos jogos à Inter. As últimas duas temporadas mostram como tanto o centroavante quanto o clube se engrandeceram com a parceria. E esse casamento merece continuar por mais algum tempo, para que o belga suba alguns degraus a mais na lista dos maiores atacantes da gloriosa história nerazzurra.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador de anúncios? Aí é falta desleal =/

A Trivela é um site independente, que precisa das receitas dos anúncios. Desligue o seu bloqueador para podermos continuar oferecendo conteúdo de qualidade de graça e mantendo nossas receitas. Considere também nos apoiar pelo link "Apoie" no menu superior. Muito obrigado!