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Para guardar: A íntegra do tributo final a Totti e a carta de adeus lida pelo Capitano

Até parecia que os minutos somados vestindo a camisa da Roma se transformavam em lágrimas. Foram dezenas de milhares as gotas derramadas no Estádio Olímpico durante este domingo. Saudosas, mas justas. Afinal, não eram em vão. Homenageavam Francesco Totti, também de olhos marejados, por todo o respeito e o amor correspondidos naquelas arquibancadas. Ousaria dizer que nenhuma despedida de um grande ídolo, nas últimas décadas, foi tão emotiva. Difícil carregar uma história mais profunda, mais carnal. Mais romântica.

VEJA TAMBÉM: Sob aplausos e lágrimas, Totti se despediu da Roma: um domingo terno, eterno

O intraduzível só poderia ser resumido pelas palavras de Totti. E ele fez isso ao final da cerimônia, lendo uma belíssima carta. “Eu queria começar do final – do adeus – porque eu não sei se serei capaz de ler estas linhas. É impossível resumir 28 anos em poucas sentenças. Eu gostaria de fazer isso com uma música ou um poema, mas não consigo escrever nenhum”, começou, antes de falar sobre as dificuldades de parar e de, obviamente, agradecer.

“Eu estou com medo. Não é o medo que você sente quando está na frente do gol, prestes a bater um pênalti. Desta vez, eu não posso ver como o futuro se parece além dos buracos da rede. Permitam-me ter medo. Neste momento, sou eu que preciso de vocês e todo o amor que sempre me ofereceram. Com o apoio de vocês, eu conseguirei virar a página e me jogar em uma nova aventura”, declarou, em um dos trechos mais emblemáticos. Antes de encerrar: “Agora, eu descerei as escadas e entrarei nos vestiários que me acolheram quando criança e que agora deixo como um homem. Sou orgulhoso e feliz por ter dado a vocês 28 anos de amor. Eu amo vocês”.

Abaixo, a carta na íntegra e o vídeo disponibilizado pela Roma:

Obrigado, Roma.

Obrigado a minha mãe e a meu pai, a meu irmão, a meus parentes e a meus amigos.

Obrigado a minha mulher e aos meus três filhos.

Eu queria começar do final – do adeus – porque eu não sei se serei capaz de ler estas linhas.

É impossível resumir 28 anos em poucas sentenças.

Eu gostaria de fazer isso com uma música ou um poema, mas não consigo escrever nenhum.

Ao longo dos anos, eu tentei me expressar através de meus pés, que tornaram tudo mais simples para mim desde que eu era uma criança.

Falando em infância, vocês podem adivinhar qual era o meu brinquedo favorito? Uma bola, claro! E continua sendo hoje em dia.

Em certo ponto da vida, você cresce – é o que me disseram e o que o tempo decidiu.

Maldito tempo.

Voltando a 17 de junho de 2001, tudo o que queríamos era o tempo passando um pouco mais rápido.

Não podíamos esperar para ouvir o apito final.

Eu continuo me arrepiando agora quando penso de volta nisso.

Hoje, o tempo chegou para me tocar no ombro e dizer:

‘Nós temos que crescer. Amanhã, você será um adulto. Tire esse calção e essas chuteiras, porque a partir de hoje você se torna um homem. Você não poderá mais aproveitar o cheiro da grama, o sol em sua face enquanto parte para cima do adversário, a adrenalina consumindo você, a alegria de comemorar um gol’.

Durante os últimos meses, eu me perguntei o porquê de estar sendo acordado deste sonho.

Imagine que você é uma criança tendo um sonho bom… e sua mãe te acorda para ir à escola.

Você quer continuar sonhando… você tenta retornar ao sonho, mas nunca poderá.

Esse é o momento, não é um sonho, mas a realidade.

E eu não posso mais retornar.

Eu quero dedicar esta carta a todos vocês – a todas as crianças que me apoiaram.

Às crianças de ontem, que cresceram e se tornaram pais, e às crianças de hoje, que talvez gritem ‘Tottigol’.

Eu gostaria de pensar que, para vocês, minha carreira é um conto de fadas.

Isso realmente acabou agora.

Vou tirar essa camisa pela última vez.

Vou dobrá-la, apesar de não estar pronto para dizer ‘basta’ e talvez eu nunca esteja.

Perdoem-me por não dar entrevistas e esclarecer meus pensamentos, mas não é fácil apagar a luz.

Eu estou com medo. Não é o medo que você sente quando está na frente do gol, prestes a bater um pênalti.

Desta vez, eu não posso ver como o futuro se parece além dos buracos da rede.

Permitam-me ter medo.

Neste momento, sou eu que preciso de vocês e todo o amor que sempre me ofereceram.

Com o apoio de vocês, eu conseguirei virar a página e me jogar em uma nova aventura.

Agora, é hora de agradecer a todos os companheiros, diretores, presidentes e a todo mundo que trabalhou comigo nestes anos.

Aos torcedores e à Curva Sud, uma luz que guia todos os romanos e romanistas.

Ter nascido romano e romanista é um privilégio.

Ser capitão deste time é uma honra.

Vocês estão – e sempre estarão – na minha vida. Eu não irei mais entretê-los com meus pés, mas meu coração sempre estará com vocês.

Agora, eu descerei as escadas e entrarei nos vestiários que me acolheram quando criança e que agora deixo como um homem.

Sou orgulhoso e feliz por ter dado a vocês 28 anos de amor.

Eu amo vocês.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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