Sob aplausos e lágrimas, Totti se despediu da Roma: um domingo terno, eterno
Por sua história e sua grandeza, Roma ganhou a alcunha de ‘Cidade Eterna’. Uma referência que recebe novo significado a partir deste domingo. Afinal, ao longo dos últimos 24 anos, é impossível compreender a identidade da capital italiana sem falar sobre Francesco Totti. Seja pela relação com os romanistas ou mesmo com os rivais, o Capitano carregou consigo a verdadeira essência romana. O dorso vestindo a 10 giallorossa ou a braçadeira com a loba desenhada se tornaram emblemas. O craque eterno, símbolo da paixão por um clube e por sua cidade. Que, depois desta tarde, se guarda definitivamente nos olhos de quem o viu, no peito de quem o amou, na mente de quem o sonhou. E a vitória fantástica sobre o Genoa, por 3 a 2, se tornou uma exaltação a mais em meio a tantas homenagens. Um domingo tocante, que proporcionou cenas de cinema e será descrito em tantos livros. Eternizado como um conto de fadas na história da Cidade Eterna.
O Estádio Olímpico vibrava ao som das 80 mil vozes que cantavam antes da entrada das equipes. Ou melhor, pulsava no ritmo dos corações acelerados, ansiosos para um dia que nunca gostariam que chegasse, mas teria que ser. E da forma mais bonita possível, para uma emoção intraduzível. Os times titulares pisaram em campo, mas poucos se importavam com eles. O maior romanista estava de colete. E, enquanto a cerimônia de abertura do jogo rolava no gramado, sem cerimônia, ele foi se juntar aos seus. Caminhou até a Curva Sud, aplaudiu os torcedores, os reverenciou. Um gesto de retribuição ao que se passaria no restante da tarde. ‘Totti é a Roma’, dizia o mosaico que se erguia.
Totti diz adeus à Roma, e provavelmente ao futebol. Obrigado por tudo, lenda! #SerieA pic.twitter.com/rF8cFroK02
— Futebol Europeu (@ifuteboleuropeu) 28 de maio de 2017
Os sentimentos que não cabiam no peito talvez tenham deixado a Roma nervosa durante os primeiros minutos. Logo aos três, Pietro Pellegri foi lançado em profundidade e abriu o placar para o Genoa. O garoto de 16 anos, a mesma idade que Totti estreou com a camisa giallorossa, e nascido justamente no ano do Scudetto, 2001. Um gol simbólico, que também daria cor ao jogaço no domingo especial. A reação da Roma não demorou a vir, com Edin Dzeko acertando a trave e se jogando na frente da bola para empatar no rebote. Então, os romanistas tiraram o peso dos ombros e começaram a pressionar. Buscavam a virada que, além da justa homenagem a Totti, valeria a vaga direta na fase de grupos da Liga dos Campeões, enquanto o Napoli goleava a Sampdoria. O gol que só sairia no segundo tempo.
As reações de Totti eram sempre filmadas no banco de reservas. As expectativas por sua entrada eram imensas. E, enfim, descarregadas aos nove minutos da segunda etapa. No lugar de Mohamed Salah, o camisa 10 veio a campo. Ovacionado pela torcida, devidamente exaltado. Viveria os últimos momentos no gramado, aqueles que esperava jamais existirem. Ainda assim, o craque tratou de aproveitá-los. De desfrutá-los. De fazer com que todos os presentes também desfrutassem.
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Apesar do nervosismo de todos, havia alguém sereno em campo: Francesco Totti. Distribuindo sua maestria, relembrando o porquê de ser tão engrandecido. Gastou a bola. Deu belíssimos passes e arriscou até um toque com as costas. E, quando estava pronto para arrematar, viu seu “irmão” Daniele De Rossi emendar para as redes, virar o jogo aos 29 minutos. O Capitano demorou a se juntar aos outros jogadores. Logo se embrenharia no meio deles, saltando sobre as suas costas
Mas a partida histórica não seria decidida de maneira tão simples. Darko Lazovic empatou quatro minutos depois, e por muito pouco não retomou a vantagem para o Genoa na sequência. Seria uma frustração imensa para a Roma. Mas não foi. Porque era para ser um épico. E assim se cumpriu. O gol da vitória, enfim, saiu aos 45 do segundo tempo. Quando todos estavam na área, Dzeko ajeitou de cabeça e Perotti arrematou. O herói do momento, quando todos os olhares procuravam por outro herói. Mesmo sem ter balançado as redes, Totti saiu para festejar com a curva. O último gol da Roma que comemoraria em campo.

Nos minutos finais, a bola buscou Totti. O capitão se encarregou de gastar o tempo na linha lateral, de prender o jogo para que o apito final soasse e a Roma se confirmasse como vice-campeã, classificada à fase de grupos da Champions. Todavia, o próprio tempo parecia não querer correr. A bola não desejava sair daqueles pés. Instantes breves, os derradeiros da lenda.
Então, para sempre. O fim do jogo se seguiu ao eco de ‘Grazie, Roma’, a música que costuma ser entoada depois das vitórias do time no Olímpico. Desta vez, desejando mudar a sua letra e agradecer a Totti. O camisa 10 saiu apressado, com o semblante um tanto quanto fechado. Mas voltaria. Voltaria para ser admirado por cada um dos presentes. Para olhar as centenas de faixas em tributo que se espalhavam pelas arquibancadas. Para emocionar ainda mais. Não houve quem não tenha derramado lágrimas dentro do Estádio Olímpico. E nem mesmo em frente à TV.
The start of an emotional farewell… #TottiDay #ThanksTotti #Totti #ASRoma pic.twitter.com/TzVmOK2HpR — AS Roma English (@ASRomaEN) 28 de maio de 2017
No words. #Totti pic.twitter.com/S3X2yDIZW1
— AS Roma English (@ASRomaEN) 28 de maio de 2017
Totti deu a sua volta olímpica a passos lentos. Degustava o carinho, mas também carregava nas pernas o cansaço do momento em que rompia o cordão umbilical. Olhos marejados a todo o tempo, o Capitano podia observar tantos outros em prantos. Torcedores, obviamente, e jogadores, diretores, antigos ídolos, convidados especiais. Até Luciano Spalletti, vaiado por ser o vilão em uma temporada final menor do que poderia ter sido, e que de sua frieza desabava diante das cenas carregadas de sentimentos. De qualquer maneira, não era um dia para ressentimentos, e sim para elevação. Para elevar aquele homem que por quase 25 anos ofereceu sua alma naquele estádio, e terminaria de se tornar um eterno ao cair da noite.
No centro do gramado, sobre uma camisa 10 enorme, Totti falou. Ao lado dos filhos e da esposa, após receber uma uma placa prateada de seu amigo De Rossi, o Capitano falou. Ofereceu um discurso belíssimo, para acalmar tantos corações. E parti-los em pedaços em alguns instantes. Contou que, sozinho, não deixou de chorar um dia sequer da semana. Que jamais queria viver este dia. Que, por ele, ficaria outros 25 anos naquele campo. Mas também agradeceu o apoio, o respeito, a idolatria. A grandeza de Totti, afinal, se explica através disso. É muito mais do que aquilo que aconteceu entre as quatro linhas. A entrega de quem foi tão ídolo por também ser um deles. O mais brilhante, o mais reconhecido, o mais fiel, o mais dedicado. O mais apaixonado. Que não trocou isso por nada, justamente para continuar na sua cidade, com seus amigos, defendendo o seu clube. E, assim, teve tudo.
Ao final de sua carta, Totti indicou que não deve vestir outra camisa. E talvez por isso, por relutar em parar e por se negar a se separar de Roma, que o adeus foi tão sentido. Afirmou que voltaria aos vestiários que o acolheram desde menino, nos quais se fez homem, se fez ídolo, se fez lenda. Antes de partir, caminhou ao centro do campo, tirou a braçadeira e colocou em um garoto romanista. A metáfora sobre a passagem de bastão para uma nova geração. Ao fundo, a música tema de ‘A vida é bela’ ressoava. Como num filme, Totti se despediu. Belíssimo. Para sempre.
Il Capitano passes on the baton to the next generation. #TottiDay #ThanksTotti #Totti #ASRoma pic.twitter.com/8BJf66ogbe — AS Roma English (@ASRomaEN) 28 de maio de 2017



