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O rei está morto

Um mês atrás, o Milan lançou a campanha publicitária para que os torcedores comprassem os carnês para a temporada. Nunca vendeu tão pouco. Não bastasse a crise financeira europeia, ainda há outro fator fundamental: os garotos-propaganda eram Ambrosini, Ibrahimovic e Thiago Silva. O brasileiro já se mandou para o Paris Saint Germain e, enquanto você lê este parágrafo, o atacante sueco pode estar assinando um contrato que o tira do futebol italiano. Você gastaria tantos euros para ver seu time sabendo que ele poderia perder (e, de fato, perdeu) seus dois jogadores mais importantes?

A resposta para parte significante dos torcedores do Milan é um sonoro “não”. Assim, na próxima temporada, devemos ver um San Siro ainda mais vazio do que aquele do ano passado. Nem a até possível contratação de Kaká seria suficiente para retomar a confiança da torcida. De todos os nomes especulados em Milanello, o único capaz de causar comoção seria o de Cristiano Ronaldo, mas qualquer criança em fase de alfabetização sabe que a chance de o time rubro-negro tirar o astro do Real Madrid é menor do que zero.

A torcida desistiu do time. E com razão. O mercado até agora de baixo custo do Milan representa um grande risco. Montolivo, Acerbi e Traoré são bons jogadores, mas dificilmente estão preparados para assumir rapidamente e em totais condições a titularidade de um clube pressionado, que não pode ver a rival Juventus vencer outra vez. E, pior, não pode aceitar a ideia de ser ultrapassado por uma Inter em reconstrução. Hoje, o melhor Milan possível jogaria com Abbiati; Abate, Mexès, Acerbi, Antonini; Montolivo, Ambrosini, Nocerino; Boateng; Cassano e Robinho, se pudesse contar com a sorte de não ter nenhum deles lesionado. Ridiculamente pouco, mesmo no combalido futebol italiano.

Mas as cobranças da torcida, de certa forma, obscurecem a dúvida real. Em 2012, o que representa o Milan para seu dono? Prestes a completar 76 anos, Silvio Berlusconi está na fase derradeira de sua parábola empreendedora – que vem ruindo aos poucos junto da economia italiana que o Cavaliere ajudou a destruir – e de sua vida política. A camisa rubro-negra sempre significou para ele uma espécie de veículo internacional de comunicação, ainda mais abastecido de craques nos períodos eleitorais ou de crises de popularidade.

O Milan de hoje mais se parece com um bem de família. Algo que pode garantir holofotes a algum filho sem tino para os negócios (leia-se Barbara) sem atrapalhar os setores estratégicos do império Berlusconi – com exceção da primogênita Marina, presidente da financeira Fininvest e da editora Mondadori, nenhum dos outros quatro irmãos mostrou-se capaz de assumir os negócios da família. O clube voltou a ser um instrumento de afirmação familiar, como havia se tornado máquina eleitoral do cacique italiano nos anos 1980.

Berlusconi parece ter entendido que não é mais financeiramente capaz de competir com espanhóis, ingleses e xeques árabes pela conquista da Europa, mas continua colecionando perdas financeiras para obter vitórias pouco festejadas (o título italiano parece valer pouco para quem conquistou o continente várias vezes) ou sofrer tanto com derrotas cada vez mais comuns. Mesmo assim, não aceita vender o clube aos interessados, basta ver que pretende extorquir 1 bilhão de euros daquele que planejar comprá-lo.

Esse misto de aceitação passiva com planejamento preguiçoso e desmotivado arruinou a campanha do Milan no último Campeonato Italiano, depois de uma terrível janela de contratações em janeiro, e fez a torcida ter de engolir o título da rival Juventus. E está prestes a abater os sonhos dos próximos um, cinco ou dez anos do clube, com as irreparáveis perdas de Thiago Silva e Ibrahimovic, únicos responsáveis por tornar a camisa rubro-negra minimamente competitiva em cenário internacional nos últimos meses. O rei, definitivamente, está morto.

PALLONETTO

– Outro time que tem decepcionado na atual janela de transferências é a Roma. A equipe, que perdeu Borini e Juan, já liberou alguns de seus melhores jovens para outras equipes: disse tchau a Viviani, Bertolacci e Stoian, principalmente, mas também a Sabelli, Montini, Caprari e D'Alessandro. E quer contratar o lateral são-paulino Piris.

– O Bologna vem ainda pior. A melhor contratação da equipe foi o zagueiro Roger Carvalho, ex-Figueirense. O ótimo goleiro Gillet será substituído pelo instável Curci (ex-Roma), enquanto as posições do volante Mudingayi e do artilheiro Di Vaio ainda nem sequer têm novos donos.

– Mais um capítulo do escândalo que assombra o futebol italiano: Massimo Erodiani, um dos líderes do grupo mafioso que manipulou partidas no país, afirmou em depoimeno que o presidente da Lazio, Claudio Lotito, sabia do combinado por duas partidas de seu time.

– O Foggia deu adeus ao futebol profissional nesta semana. Sem garantias financeiras para ser aceito na terceira divisão, o time que encantou a Itália no início dos anos 1990 fechou as portas.

– O ex-milanista Gennaro Gattuso estreou na Suíça. Com a camisa do Sion (e a faixa de capitão), liderou a equipe na vitória por 2 a 0 contra o Grasshoper. Levou um cartão amarelo, mostrando que está em forma.

– Fabio Capello aceitou a proposta para treinar a seleção russa. Assim, também encerra qualquer boato de que estaria voltando para o futebol italiano, seja para assumir a Squadra Azzurra ou para atazanar a tranquilidade dos comandantes do trio de ferro.

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Equipe Trivela

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