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Moratti: “Levará anos para times de Milão voltarem ao topo da Europa”

Era o dia 22 de maio de 2010. Dia da final da Champions League. O que estava em jogo não era só o título do mais importante torneio da Europa e um dos mais conhecidos do mundo. Estava em jogo também uma das vagas da Itália na competição, ameaçada pela Alemanha. Se a Internazionale, surpreendente finalista, não vencesse o Bayern de Munique no tempo normal (nos pênaltis não seria suficiente), a Alemanha passaria a ter quatro vagas e a Itália três. A Inter venceu por 2 a 0, levantou a taça e as quatro vagas italianas foram mantidas. Foi o último título de um time italiano na Europa. E em entrevista ao jornal L’Equipe neste domingo, o presidente do time italiano na época, Massimo Moratti, falou sobre o modelo econômico e como vai demorar anos para que os rivais Inter e Milan voltem ao topo do continente.

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Naquela temporada, a Internazionale conseguiu a glória máxima da sua história, a tríplice coroa. Venceu a Serie A (pela quinta vez consecutiva), a Copa da Itália e a Champions League, este último quebrando um jejum de 45 anos. A Itália manteve as suas quatro vagas na Champions League, mas, como parecia inevitável, só durou mais uma temporada. A Alemanha ultrapassou os italianos, que passaram a ter só três vagas na principal competição do continente. E, desde então, o que se vê é essa distância aumentar. A Itália passou a se preocupar mais com o quinto lugar no ranking do que em voltar a alcançar a Alemanha. Não corre risco de perder mais uma vaga a médio prazo, mas parece distante também de recuperar um posto que foi seu durante anos.

Para Moratti, o sucesso dos clubes italianos eram baseado em um modelo econômico de um dono que injetava dinheiro nos clubes. E os gastos eram altos. “Era uma situação muito diferente. Uma pessoa que simboliza as esperanças, as alegrias, a vida de um clube. Nós não éramos o único clube que trabalhava daquela maneira. O futebol italiano viveu grandes momentos de sucesso graças a esse modelo econômico. No futebol, artistas, show, sonhos, prazer são necessários. Então você realmente têm que gastar muito porque a base é feita pelos grandes campeões”, disse Massimo Moratti.

O dirigente é uma figura histórica da Inter. É filho de Angelo Moratti, o presidente que levou a Inter ao título da Copa das Campeões da Europa em 1964/65. Assumiu o clube em 1995, trouxe reforços milionários e gastou dinheiro por anos até conseguir ganhar títulos em sequência, a partir da queda da Juventus. Foram cinco campeonatos italianos em sequência, quatro Copas da Itália e uma Champions League, além do Mundial de Clubes. Foi um período de glória para a Inter, que acabou sendo sucedido pela queda do futebol italiano em competições internacionais.

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Moratti conta que investir em futebol é uma decisão apenas de paixão. “Eu estou comprometido pela paixão, esta é a única razão pela qual você investe em futebol. Se você faz apenas para ganhar dinheiro, então é melhor evitar. Ao mesmo tempo, aqueles que querem perder também podem entrar”, disse. A sua saída do cargo aconteceu em 2013, quando o grupo do indonésio Erick Thohir assumiu 70{62c8655f4c639e3fda489f5d8fe68d7c075824c49f0ccb35bdb79e0b9bb418db} das ações do clube de Milão. O dirigente acredita que era a coisa certa a se fazer na época.

“Era a coisa certa a se fazer depois desses anos. Eu planejei ficar muito menos tempo, mas depois de 10 anos eu comecei a vencer, então ficou difícil sair. Eu acabei ficando mais alguns anos. Mas para uma empresa é bom, em algum momento, mudar as pessoas e a visão das coisas. Então nós procuramos investidores”, ele contou. Perguntado se ele cansou de gastar dinheiro todo ano com o clube, ele admitiu que sim. “Um pouco, sim, é claro. Mas eu estava acostumado com isso. Eu sempre esperei que as dívidas diminuiriam, mas isso nunca aconteceu”, confessou Moratti.

O modelo econômico de um grande investidor por trás do clube é a razão pela queda dos clubes italianos. A crise atingiu o país com força e quem colocava dinheiro nos clubes não pode mais fazer isso. “A crise dez as coisas ficarem piores, porque você não podia mais ser generoso e gastar como antes. E para um clube acostumado a gastar, essa é uma mudança radical”, analisou o dirigente.

Para ele, a característica da Itália dificulta o crescimento de receitas em outras áreas, como o marketing. “Você não tem que acreditar que nós gostávamos de gastar tanto. Mas há a realidade italiana para se considerar. Merchandising, por exemplo, funciona como uma maravilha na Inglaterra. Na Itália há sempre dificuldades para chegar a esse nível, onde todo mundo vai ao estádio com a camisa do seu time. De país para país, há hábitos de consumidor que mudam. Na Itália, o merchandising tem dificuldade de se desenvolver”, explica Moratti.

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Os estádios são frequentemente apontados como um dos grandes problemas do futebol italiano e Moratti acredita que há um problema de tamanho envolvido. “Isto está atrelado a decisões do país. Os estádios foram feitos para a Copa do Mundo de 1990 e pareciam novos. Na Inglaterra, contudo, eles não construíram grandes arenas, mas sim estádio aconchegantes. San Siro é um estádio magnífico, mas ainda não tem o seu melhor desempenho. E é muito grande. Com um estádio menor, as pessoas ficam com medo de não conseguir um lugar e então se associam para terem certeza que poderão ir aos jogos”, analisou Moratti.

Com tantos problemas, Moratti acredita que os clubes de Milão irão demorar a voltar ao lugar que um dia ocuparam. “Irá levar tempo. Hoje, o futebol italiano está bastante mal. Eu não estou desesperado, mas para ver os times de Milão voltarem ao topo do futebol europeu, na minha opinião, vai levar anos. Hoje, há uma enorme distância de clubes como Manchester United, Bayern e Real Madrid”, opinou o dirigente.

O melhor desempenho recente de um clube italiano na Champions League é da Juventus, que na temporada 2012/13 conseguiu chegar às quartas de final. Acabaria atropelada pelo Bayern de Munique com duas derrotas. O time alemão seria campeão naquele ano. Nesta temporada, só a Juventus sobreviveu e chegou ao mata-mata do principal torneio de clubes europeu, tendo como adversário o Borussia Dortmund. Roma, Napoli, Fiorentina, Internazionale e Torino ainda estão vivos na Liga Europa.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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