Serie A

Líder em campo, quebrada fora dele: crise financeira dos donos preocupa a Inter

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Atrasos de salários, balanço negativo, donos precisando levantar dinheiro. Parece o roteiro de uma equipe que luta contra o rebaixamento, mas a situação é o oposto disso: se trata da Internazionale, líder da Serie A e, neste momento, a grande favorita a conquistar o scudetto e quebrar a sequência de nove títulos da Juventus. A crise é resultado de graves problemas vividos pelos donos do clube, o grupo Suning, que busca um novo investidor para o gigante italiano.

A vitória da Inter no clássico de Milão diante do Milan fez com que os nerazzurri abrissem quatro pontos de vantagem na ponta da tabela. O time está na pole position para conquistar o seu primeiro scudetto desde 2010, quando teve aquela temporada fantástica da tríplice coroa, em 2009/10, com a conquista de Copa da Itália, Serie A e Champions League. O time, que gastou tanto nos últimos anos, incluindo a contratação de jogadores como Romelu Lukaku e Christian Eriksen, tem uma folha salarial pesada, que, na Itália, perde só para a da Juventus.

Em campo, a Inter teve vários problemas ao longo da temporada, mas conseguiu melhorar seu desempenho em fevereiro, tomou a liderança e caminha com boas chances de um título importantíssimo. Diante de um cenário desse, faz algum sentido que os donos do clube queiram vendê-lo? Esportivamente, não. Financeiramente, porém, o grupo Suning precisa levantar dinheiro e quer, sim, abrir mão de parte das ações da Inter.

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Os problemas no grupo Suning

Loja da Suning.com, na China (WANG ZHAO/AFP via Getty Images/OneFootball)

Desde o último mês de setembro, a Inter não gasta nada em contratações de jogadores. Inicialmente, o grupo Suning negava qualquer problema financeiro e dizia que os relatos de que buscava um comprador para a Inter eram apenas rumores. Não demorou para os problemas se colocarem de forma inescapável. “É uma situação estranha”, afirmou Conte na última semana. “Não tem sentido esconder. Nós tínhamos um projeto, mas ele parou em agosto.”

O clube mostrou um balanço negativo na última temporada, já influenciado pela pandemia, de mais de €100 milhões. Como em outros clubes, entre eles a Juventus, há um problema de liquidez na Inter. O clube de Turim, de sua parte, anunciou perdas de €113 milhões até aqui na temporada. A diferença para a Inter é que os proprietários da Velha Senhora, o grupo Exor, dono da Fiat e da Ferrari, estão em situação mais sólida. O Suning, por sua vez, vive uma crise financeira, piorada por uma decisão política.

Como cita o Goal.com, o governo chinês impôs um limite aos investimentos estrangeiros em setores não estratégicos como o futebol, algo oposto ao que incentivava há poucos anos. Com isso, a ideia é que o dinheiro investido em futebol seja apenas interno, não mais externo. Colocar dinheiro na Inter, portanto, deixou de ser uma prioridade ao Suning. Além disso, o grupo ainda paga o empréstimo tomado de quando se tornou dono da Inter, em 2016, algo na casa de €350 milhões.

“Devemos concentrar nosso principal campo de batalha, iniciar a subtração, redesenhar a linha de batalha. Vamos nos concentrar no negócio de varejo de forma resoluta, fechar e cortar nossos negócios irrelevantes para o varejo sem hesitação”, disse Zhang Jindong, dono do grupo Suning, no dia 19 de fevereiro. Pessoas ligadas ao Suning afirmaram ao jornal La Repubblica que o comunicado não era relevante à Inter, dizendo respeito apenas a investimentos na China – algo difícil de acreditar diante de todo o cenário desenhado.

Na China mesmo, os investimentos em futebol do grupo Suning serão reduzidos. O Jiangsu FC pode ser dissolvido se não houver um comprador. A venda é simbólica, seria por centavos, e o comprador precisaria assumir as dívidas, na casa de €60 milhões. A maior parte dos compromissos é por salários não pagos. Se não surgirem interessados, o clube poderá ser liquidado.

Venda de ações majoritárias da Inter

O Suning, porém, não quer vender totalmente a Internazionale, mas, sim, encontrar um investidor que se torne majoritário. Além disso, não aceita uma proposta qualquer para isso. O BC Partners, grupo financeiro britânico, ofereceu €750 milhões para controlar o gigante de Milão, oferta que foi recusada. O grupo chinês quer algo em torno de €1 bilhão para vender a maior parte das ações.

Havia uma cláusula de exclusividade entre BC Partenrs e Suning para a negociação de venda das ações majoritárias do clube que se encerrou em janeiro. O grupo chinês passou a considerar outros potenciais interessados, como os fundos de investimentos Ares, Fortess, Equt e Arctors. Não há, por enquanto, nenhuma outra proposta na mesa além da recusada da BC Partners.

A empresa de investimentos britânica deu prazo até o dia 31 de março para as negociações acontecerem, data que permite resolver qualquer tipo de pendência e participar de competições europeias. Segundo o Corriere dello Sport, há uma diferença de €200 milhões entre a proposta da BC Partners e o pedido do Suning. As duas empresas precisarão trabalhar em conjunto para chegar a um acordo.

O grupo Suning deve vender de 20% a 25% das ações da sua companhia de varejo, Suning.com, por algo em torno de US$ 2,5 milhões. A empresa precisa levantar fundos, e é especulado até que pode haver uma troca em seu comando. Entre os atuais acionistas do Suning.com estão o grupo Alibaba, que detém 19,99% das ações desde 2015. A venda de ações do Suning.com foi suspensa em função das especulações. Segundo a agência chinesa Chengxin International Rating Co. reportou em 2020, um braço da Suning.com teve uma perda estimada de €2,45 milhões.

Atraso de salários e folha salarial inchada

Antonio Conte, técnico da Inter (Marco Alpozzi/La Presse/OneFootball)

Há uma negociação da atual dívida do clube, na casa de €400 milhões, e mais um empréstimo de €200 milhões para ter condições de chegar ao final da temporada e cumprir os seus compromissos. Há atrasos no pagamento dos salários dos jogadores, por exemplo. Segundo o Tuttosport, o valor devido pela Inter pelos rendimentos de novembro e dezembro está na casa de €24,8 milhões.

Havia inclusive o risco da Inter ser punida pela Uefa pela falta de pagamento de salários. Clubes inadimplentes com seus jogadores não recebem a licença para atuar em competições europeias. Havia um prazo até o último dia 16 de fevereiro para fazer o acerto em relação a essa questão, mas a Uefa mudou as exigências em razão da pandemia da COVID-19.

Em caráter excepcional, os clubes poderão obter a licença se a quantia não paga de salários não for maior do que 15% do total do rendimento de cada jogador no último ano-calendário. Os clubes precisam enviar um plano detalhado que garanta o pagamento das dívidas até o dia 30 de junho. Para entrar na regra, a Inter precisa pagar cerca de €2,5 milhões dos salários atrasados até o dia 31 de março.

“Como muitos outros clubes no mundo, tanto na Itália quanto no resto da Europa, nós chegamos a um acordo para adiar pagamentos como parte dos esforços para administrar o nosso capital de giro”, afirmou o diretor financeiro da Inter, Tim Williams, na última segunda-feira.

“Normalmente, poderíamos aproveitar para reduzir a folha salarial e gerar mais dinheiro com a venda de jogadores. Neste ano, a situação tornou tudo mais difícil. Embora tenhamos fortalecido a equipe com transferências e empréstimos gratuitos, a folha salarial provavelmente é mais alta do que gostaríamos”, explicou Williams, que também confirmou que o Suning está buscando soluções para ter um novo investidor no clube.

Em meio ao seu melhor momento esportivo desde a temporada 2009/10, a Inter vive também uma situação financeiramente turbulenta, talvez uma das mais complicadas em muitos anos. Nem mesmo as vendas de Massimo Moratti ao empresário indonésio Erick Thohir e também a de 2016, quando o Suning comprou os Nerazzurri, representaram tantas tormentas financeiras, com atrasos de salários, por exemplo.

A fila de títulos pode acabar e, curiosamente, pode ser o ato final do grupo Suning como administrador do clube, contanto, é claro, que a Inter consiga se manter firme em meio ao caos financeiro fora de campo. Será uma prova, até porque as incertezas nos escritórios podem criar problemas dentro das quatro linhas. Antonio Conte tem neste cenário um dos seus desafios.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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