Gazidis: “Fizemos quase tudo de um modo que as pessoas nos diziam que era impossível na Itália”
Depois de um trabalho que sofreu muitas críticas no Arsenal, Gazidis contou sobre o processo de reconstrução do Milan
Ivan Gazidis é o executivo chefe do Milan e foi um dos responsáveis pela reconstrução do clube, que culminou na conquista do scudetto nesta temporada. O clube vivia um jejum que já durava 11 anos, com a última conquista na temporada 2010/11. O dirigente ficou conhecido por sua passagem pelo Arsenal, onde sofreu muitas críticas, e comentou sobre o processo de reconstrução e como tiveram que superar alguns paradigmas no futebol italiano.
“Leva um pouco de tempo para descobrir o significado”, afirmou Ivan Gazidis sobre o seu cargo de executivo-chefe do Milan, CEO, ao Guardian. O título foi uma consolidação do Milan de volta ao topo do futebol italiano. Após a vitória por 3 a 0 sobre o Sassuolo, que garantiu a taça, o dirigente falou sobre as sensações que teve.
“Você está direto na euforia e alegria, mas então percebe que isso é uma conquista monumental não apenas pelo que fizemos, mas como fizemos – o que é muito diferente. Mesmo no início da temporada acreditávamos que havíamos criado algo especial com base na ideia clara de construir um novo Milan em torno de uma equipe muito jovem. Acho que é o time mais jovem da história moderna a ganhar o Scudetto e um dos times mais jovens da Europa. Também tem uma unidade de propósito dentro do clube e com os torcedores”, afirmou o executivo.
Gazidis chegou ao Milan em dezembro de 2018, quando o clube passava por uma crise e em uma situação financeira terrível. Meses antes, em setembro, os rossoneri mudaram de dono, passando ao fundo Elliot. Tiveram que lidar com uma punição da Uefa, banido das competições continentais por uma temporada por infrações do Fair Play Financeiro.
A chegada de Ivan Gazidis ao clube tem a ver justamente com o fundo Elliot, que tem Paul Singer como dono. O americano tem um filho, Gordon, que é amigo próximo de Gazidis. Nascido na África do Sul, Gazidis cresceu na Inglaterra e ocupou o mesmo cargo que tem no clube italiano no Arsenal por 10 anos. Saiu com acusações que a gestão dos Gunners se preocupava mais com o sucesso financeiro do que esportivo. Até por isso havia desconfianças sobre a sua chegada em Milão.
“Não foi meu relacionamento com Gordon que me convenceu. Eu amei a ideia de fazer algo desafiador em um novo ambiente, mesmo pessoalmente, aprendendo italiano e em uma cultura de futebol diferente. E havia a ideia romântica que poderíamos trazer o Milan de volta. As pessoas diziam que era impossível”, contou Gazidis.
“Esqueceram que minha formação está no lado técnico do jogo. Meu papel na Major League Soccer [nos EUA] por 15 anos foi contratar todos os jogadores que jogavam naquela liga e tudo o que acontecia dentro das quatro linhas era minha responsabilidade. Pensei na estratégia e no que precisávamos fazer com a liga como um todo. Então, minha experiência no futebol foi técnica”, explicou o executivo.
“Quando fui para o Arsenal [em 2008], Arsène Wenger estava no comando completo do lado técnico – com razão em virtude de seu incrível histórico. Então, vindo para o Milan, eles me chamaram de sul-africano, que é uma abreviação de ‘ele não sabe nada de futebol’. Acho que o sentimento foi: ‘Aqui está esse cara que não sabe nada de futebol, que ainda não fala italiano, que representa um fundo de hedge de Nova York’”.
O paradigma de não poder ter um time jovem
Paolo Maldini, que se tornou uma peça fundamental da reconstrução do Milan como diretor esportivo, teve uma história longeva dentro de campo. Atuou até os 40 anos de idade, empilhando taças. O clube tem um histórico de prolongar as carreiras de grandes jogadores, mas o dirigente diz que há também nos rossoneri um desejo por inovação. E dá exemplo para isso.
“O Milan também é sinônimo de novas ideias. Pense em Arrigo Sacchi, que reinventou o futebol aqui. Nossa nova visão era encontrar jogadores que não eram grandes nomes. Contratamos jogadores de times rebaixados. Contratamos jogadores que foram descartados ou não tinha um caminho de desenvolvimento”, continuou Gazidis.
“Nós os identificamos usando análises modernas e métodos de aferição modernos e, em seguida, fornecemos um ambiente onde Paolo Maldini os imbuiu com os valores de Milão. Essa combinação tornou o projeto bem-sucedido – assim como o fato de termos a coragem de nossas convicções a cada passo”, explicou ainda o dirigente.
“Eu notei, não apenas na Itália, mas no futebol em geral, a grande narrativa da excepcionalidade. A ideia que essa coisa nova não irá funcionar aqui. Isso aconteceu na Inglaterra quando Arsène estava contratando jogadores franceses e as pessoas diziam: ‘Eles não irão conseguir lidar com uma noite chuvosa em Stoke’”, contou.
“Isso existe na Itália. As pessoas dizem: ‘Você não pode construir um time jovem como esse na Itália’. A expressão que eles usam é la maglia è pesante, a camisa é pesada. Isso significa que este é o Milan e você está jogando em San Siro com tantas expectativas nas suas costas. Como uma pessoa jovem pode lidar com isso? Fizemos quase tudo de um modo que as pessoas nos diziam que era impossível na Itália”.
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Clubes-Estado
O dirigente ainda foi perguntado sobre a questão dos clubes mais ricos e com Estados por trás, como PSG, Manchester City e agora o Newcastle. “Sem valores, o futebol é vazio. São 22 milionários chutando pedaços de couro em um pedaço de grama. Futebol é um sentimento de comunidade e valores comuns”, disse Gazidis.
“Não me importo com o Manchester City, PSG ou Newcastle porque eles têm proprietários que apoiam incrivelmente. Eu me preocupo com o resto do futebol. É muito mais poderoso criar algo do que rezar para que um indivíduo rico ou um estado-nação o salve. É muito importante para todos nós pensarmos nisso profundamente e levar o futebol para um modelo mais sustentável, onde todos possam participar e se basear genuinamente no mérito das ideias e não no acesso ao dinheiro”, continuou.
Superliga
Só que o Milan foi um dos 12 clubes que participaram do movimento da criação da Superliga, algo que tem tudo menos valores esportivos que o dirigente apregoa. “Veja, a verdadeira Superliga é a Premier League, que tem uma audiência global e está se afastando das demais ligas europeias. Se não fizemos nada, esse será o futuro do futebol. Eu vivi nessa bolha e a Premier League tem feito um trabalho fantástico. Mas a proposta da Superliga foi vista de forma bem diferente na Itália em relação à Inglaterra”.
Gazidis, então, foi perguntado se um torcedor da Atalanta poderia relaxar em relação à Superliga. “A Atalanta é uma história maravilhosa. O Leicester é uma história fantástica. Nossa decisão difícil no Milan era simplesmente estar ou não estar [na Superliga]. Nós tínhamos que fazer uma escolha responsável pelo clube. O Milan não estava dirigindo esse trem. No Arsenal, eu era veementemente contra a Superliga e a bloqueei, porque a Premier League é completamente ascendente”, explicou.
“A pressão está sendo gerada na Europa porque eles não poderão competir com a Premier League. Não é o bastante dizer: ‘A Superliga é ruim então vamos continuar como estamos’. Se fizermos isso, essas tensões e pressões irão apenas crescer. Precisamos falar sobre isso. O mais importante é ter um modelo sustentável para o futebol europeu. O Fiar Play Financeiro é um passo nessa direção, mas não é completamente efetivo. Precisamos pensar coletivamente sobre o futuro do futebol. Um futuro dominado pela Premier League globalmente é ótimo se você vive na Inglaterra. Mas o resto da Europa precisa de uma visão mais positiva”.



