Serie A

Conte mudou a mentalidade e transformou a Inter em campeã ao seu estilo

De uma quase ruptura para um título que não vinha desde 2010, a Inter teve em Conte o grande maestro do título e pode construir mais a partir disso

“Foi uma jornada linda, mas difícil, de todos os pontos de vista. Se pudermos melhorar, faremos. Se não, veremos. Sei que não quero continuar outro ano assim. É justo que o presidente [Steven] Zhang também faça suas avaliações com base no que vou dizer a ele”. A declaração é de Antonio Conte, logo depois da derrota na final da Liga Europa, diante do Sevilla, em 20 de agosto de 2020, naquela fase final disputada na Alemanha. Parecia que o treinador ficaria só mesmo uma temporada na Internazionale e o trabalho não resultou em título para acabar com a seca – o último scudetto, em 2009/10, completava uma década e o último título, da Copa da Itália, completaria 10 anos em 2021.

Cinco dias depois, o treinador e a Inter se acertaram e decidiram permanecer o segundo ano juntos – o contrato assinado em 2019 era de três anos, mas quem se importa com a duração dos contratos, não é mesmo? O que se sabia era que clube e treinador, enfim, estavam na mesma página. Ou quase, ao menos. “Hoje a reunião entre o clube e Antonio Conte foi construtiva, em coma de continuidade e de uma estratégia compartilhada. Com ele foram estabelecidas as bases para dar continuidade ao projeto juntos”, dizia um comunicado na época.

O recado de Antonio Conte era claro: o time precisava de reforços. A temporada tinha sido um sucesso, ao menos em termos de objetivos primários: a equipe terminou em segundo na Serie A, garantindo classificação à Champions do ano seguinte; foi à semifinal da Copa da Itália; foi vice-campeã da Liga Europa. O problema foi cair na fase de grupos da Champions League. Era preciso de um passo adiante. Dali em diante, era tentar dar ao treinador o que a Inter podia.

Pouco mais de oito meses depois, o time é campeão italiano pela 19ª vez, com quatro rodadas de antecedência. Uma equipe que conseguiu uma arrancada incrível, com 18 jogos seguidos de invencibilidade, que começou justamente no Derby della Madonina, em fevereiro. Conte entregou o que se cobrava dele, o título, e quebrou a hegemonia de nove títulos da Juventus. A sua equipe foi altamente eficiente, voraz, capaz de atacar com estilo, ao mesmo tempo que consegue defender com segurança. Foi preciso percorrer um caminho longo, mas que tanto clube quanto técnico decidiram apostar um no outro.

Os reforços para a temporada

Como adequar as demandas quase insaciáveis de Conte com um clube que não tinha tanto dinheiro para gastar? Oportunidades de mercado. Seria preciso olhar com calma e ver qual o tipo de jogador que o técnico gostaria e qual é possível ser trazido.

O primeiro grande reforço foi uma grande contratação: Achraf Hakimi, que veio do Borussia Dortmund, mas tinha vínculo com o Real Madrid. Custou € 45 milhões, uma quantia considerável, mas se encaixava perfeitamente no que Conte queria para o time de um ala: inteligente, rápido, com grande capacidade de ataque e que sabe se movimentar. Foi um jogador muito importante ao longo de toda a campanha criando e marcando gols. Foram 41 jogos, sete gols e oito assistências.

Achraf Hakimi agora é jogador da Inter (Reprodução/Inter.it)

Hakimi era o único grande reforço possível, ao menos gastando tanto. Por isso, foi preciso olhar para outros jogadores que pudessem compor o elenco e tivessem o espírito e mentalidade que Conte queria. Se na temporada anterior o clube já tinha apostado em Alexis Sánchez, que chegou por empréstimo e acabou contratado em definitivo, desta vez o modelo seria repetido com mais jogadores em situação similar.

O chileno foi bem, se tornou uma peça de reposição importante: em 2020/21, foram 35 jogos, com cinco gols e sete assistências. Por vezes foi importante para rodar o time e também torná-lo mais ofensivo quando era necessário. Os demais reforços vieram nessa linha.

Arturo Vidal chegou do Barcelona como um jogador com a mentalidade que Conte queria. Trabalhou com o técnico italiano nos seus tempos de Juventus e tinha um estilo de jogo com força, mas também capacidade de chegar ao ataque. Aos 33 anos, ele chegou com experiência e sem custos. O seu rendimento em campo acabou justificando a aposta: foram 30 jogos, dois gols e duas assistências. Se tornou um jogador importante na rotação do meio-campo.

Quem também chegou foi o lateral esquerdo Aleksandar Kolarov, da Roma, de 34 anos. Sua contratação também custou pouco, € 1,5 milhão, e ele se tornou uma opção tanta na linha de três zagueiros, atuando pelo lado esquerdo, quanto como ala, pela sua capacidade ofensiva. Foi até titular no começo da campanha, mas, no fim, o sérvio acabou jogando menos do que o esperado. Foram só 11 jogos e uma assistência. Depois de ter Covid, teve problemas de lesão musculares e acabou ficando no banco muitos jogos.

Na linha de jogadores experientes e acessíveis, Conte buscou Matteo Darmian. O lateral direito estava no Parma e chegou à Inter por empréstimo com obrigação de compra. Aos 31 anos, com passagem pelo Manchester United, deu opções ao técnico tanto na ala esquerda quanto na direita e até como zagueiro em poucos momentos. Foram 34 anos, quatro gols e três assistências. Um dos gols foi essencial, na vitória sobre o Verona, na 33ª rodada.

Equilíbrio entre ataque e defesa

Um dos pontos que sempre se fala sobre Antonio Conte é como o seu estilo é pragmático e baseado na defesa. Isso é só parcialmente verdade. Conte é, de fato, pragmático, mas está longe de ser um técnico defensivista. Mas ele sabe que uma defesa consistente e segura é chave para ir longe na liga. Ele provou isso na Juventus e no Chelsea, nenhum dos dois times defensivos por natureza, mas, ao seu estilo, seguros, rápidos e que também sabiam ser muito ofensivos.

Saber equilibrar o ataque e a defesa é sempre o mais difícil. A Inter é, até aqui, o segundo melhor ataque na Serie A, com 74 gols, atrás apenas da Atalanta, que tem 79. Em compensação, é a melhor defesa, com 29 gols sofridos – a Atalanta sofreu 40. A segunda melhor defesa, da Juventus, sofreu 31 gols, apenas dois a mais que os nerazzurri, mas marcou 67 vezes, sete a menos que a Inter. São apenas duas derrotas em 34 jogos, com 25 vitórias e sete empates. Soube vencer duelos decisivos contra Juventus e Milan, fundamentais muito além dos três pontos.

Um dos pontos-chave da Inter de Conte é a sua linha defensiva, mas ela passou por diversas modificações. De Kolarov titular no começo da campanha à recuperação de Milan Skriniar, que tinha perdido o seu lugar entre os 11 iniciais na temporada passada, o técnico conseguiu fazer desse setor a sua primeira arma ofensiva também.

Conte acreditava que Skriniar tinha dificuldades em se adaptar a uma linha com três zagueiros. Começou a temporada na reserva, como na última tinha sido reserva de Diego Godín. Só que o eslovaco voltou a atuar naquele nível que tinha antes mesmo da chegada do treinador italiano e tornou-se impossível não escalá-lo como titular. Stefan De Vrij continuou com as constantes boas atuações e o trio foi fechado por Alessandro Bastoni. O zagueiro canhoto é alto, tem bom passe, que ajudou na saída de jogo, e também se aprimorou nos lançamentos longos, que se tornaram uma opção para quebrar a pressão adversária.

Alessandro Bastoni ganhou importância na Inter (Imago / OneFootball)

No meio-campo foi onde a Inter conseguiu melhorar mais, também por ter mais opções. Marcelo Brozovic foi um pilar no setor. Nicolò Barella cresceu e se tornou um protagonista, sendo o grande articulador de jogadas do time. Arturo Vidal foi importante em diversos momentos, como titular ou entrando no time ao longo dos jogos.

Quem mais merece destaque nesta fase final de temporada é Christian Erikssen. O dinamarqu6es teve um início fraco pela Inter com a metade da temporada passada. Os primeiros meses da atual temporada também deixaram dúvidas, a ponto de ser especulado que ele deixaria a equipe no mercado de janeiro. Não deixou, cresceu, passou a jogar regularmente e ser importante. Contra o Napoli, fora de casa, foi dele o gol em uma partida complicada. Conte conseguiu recuperá-lo e torná-lo importante para a equipe.

Outros tiveram um papel menor, mas ainda relevantes, como Roberto Gagliardini, Stefano Sensi e Matías Vecino, este muito tempo machucado. Entre os coadjuvantes, mesmo os que menos foram utilizados também estiveram à altura, como o zagueiro experiente Andrea Ranocchia, de 33 anos, e o lateral Danilo D’Ambrosio, de 32.

Mesmo jogadores como Ashley Young e Ivan Perisic, inicialmente sem parecerem tão importantes, tiveram um papel na rotação da equipe. O croata, aliás, cresceu tanto que muitas vezes foi o ala esquerdo titular do time, especialmente quando precisava de força ofensiva. Hakimi foi o destaque, mas Darmian também foi importante.

No ataque, o time continuou deficiente em opções. Andrea Pinamonti voltou para ser opção a Lautaro e Lukaku, mas nunca conseguiu estar à altura nas chances que teve e pouco a pouco perdeu espaço. É um que deve deixar a equipe. Quem melhor correspondeu nessa rotação foi Alexis Sánchez, que entrou bem por ali.

Lukaku, um jogador-chave de Conte

Lukaku comemora com Antonio Conte (Imago / OneFootball)

Contratado logo que Conte chegou à Inter, Romelu Lukaku rapidamente se tornou um destaque do time. Na temporada de estreia pelos nerazzurri, em 2019/20, fez 34 gols em 51 jogos, além de seis assistências. Já foi uma temporada marcante, a melhor de um atacante na sua primeira temporada pelo clube.

Só que Lukaku ainda assim conseguiu subir de nível. O atacante de 27 anos e 1,91 metro mostrou um repertório vasto e foi avassalador. Até aqui, são 41 jogos, 27 gols e nove assistências. Só na Serie A, são 33 jogos e 21 gols, além de nove assistências. Mais do que os gols em si, suas atuações o colocam como um dos melhores da liga.

Seus gols foram fundamentais e por mais que a artilharia esteja distante, já que Cristiano Ronaldo tem 27 contra os 21 gols de Lukaku, o belga foi crucial para o setor ofensivo do seu time também trabalhando para que o time jogasse bem. Seu entendimento com Lautaro Martínez se intensificou na temporada e o argentino já anotou outros 15 gols, o que o coloca em 10º na artilharia da Serie A na temporada. Mesmo número, por exemplo, de Zlatan Ibrahimovic, principal jogador do Milan, e que perdeu jogos por lesão.

Lukaku é rápido, consegue segurar a bola e criar jogadas para os companheiros, além de abrir espaços mesmo quando nem recebe a bola. E quem pensa que o jogador é um grandalhão que só ganha nas bolas pelo alto, Lukaku vai muito além: marcou só um dos seus 21 gols na Serie A de cabeça. Sua jogada característica é uma arrancada, quando parece uma locomotiva que só para no gol adversário. Pará-lo, seja na técnica ou na força, é uma missão dura.

Um dos pontos que torna Lukaku mais difícil de ser marcado é porque ao lado de Lautaro Martínez, ele pode tanto exercer o papel de criador de jogadas quando ser o finalizador. Os dois se alternam nisso o jogo todo. Quando um recua para armar as jogadas, o outro se prepara para receber a bola em condições de finalizar. Por vezes ao longo do jogo, os dois se procuram para criarem jogadas. Ele se tornou mais completo e parece formar uma parceria afiada com Lautaro de uma forma que os dois se beneficiam.

Mesmo sendo um camisa 9 grande e forte, ele por vezes ataca como um ponta, caindo especialmente pelo lado direito e dando muito trabalho para as defesas adversárias. Não é por acaso que vimos tantas vezes a cena de ele receber a bola próximo ao meio-campo e arrancar até marcar o gol. É um tipo de jogada que ele faz bem e que a Inter se prepara para ter.

Embora já seja um jogador reconhecido internacionalmente e com uma boa Copa do Mundo nas costas – o Brasil sabe bem disso, depois de vê-lo ter uma atuação maiúscula nas quartas se final na Rússia-2018 –, chegando até a semifinal, o belga sentia falta de títulos. O seu único na carreira até aqui tinha sido o Campeonato Belga da temporada 2009/10. Curiosamente, o mesmo ano que a Inter conquistou a sua tríplice coroa e última vez que conquistou o scudetto.

Com a conquista deste título italiano, Lukaku coroa uma temporada que teve papel de protagonista e foi o principal nome de um time bem armado por Conte. Mais do que isso, há uma perspectiva que este seja o início de um novo ciclo do clube. Há bons jogadores jovens, como Barella, Hakimi, Lautaro e o próprio Lukaku, que não é jovem, mas ainda tem muito tempo pela frente. Sem falar em Bastoni, um zagueiro que se tornou essencial e ainda tem só 22 anos. Há boas perspectivas para o time. Resta saber para onde caminhará o clube, seja na questão da propriedade, se o Suning conseguirá mais financiamento ou mesmo venderá para outro acionista majoritário. Há um horizonte muito melhor para esta Inter campeã do que havia para aquela em 2009/10. Se a oportunidade será aproveitada, aí já é outra questão.


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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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