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Construtores de sonhos

Um carro não precisa de um grande projeto para funcionar. Operários não precisam que designers de automóveis do gabarito de um Giorgietto Giugiaro, um Sergio Pininfarina ou do “cultuado Peter Schreyer” para montar uma boa máquina. O projeto precisa ser bom, mas não precisa ser genial. E os operários precisam apenas ser competentes para seguir os passos descritos pelo engenheiro que comanda a linha de montagem e saberem programas os robôs para montar um carro eficiente. Nota 10 para o que foi pensado. Calma, leitor, você não está no lugar errado: essa metáfora cheia de motores, rodas e engrenagens (mas que bem poderiam ser argamassa, ferragens e concreto) descreve muito bem o que é a Juventus de hoje.

A atual Juventus é um time formado a partir de um bom projeto, mas sem qualquer brilhantismo, em uma parceria do diretor técnico Giuseppe Marotta e do engenheiro-chefe, Antonio Conte, dentro de um braço da Fiat, empresa automobilística da qual a Juve foi originada e, até hoje, através da família Agnelli, possui ligações. Os jogadores são ótimos operários, com ótima formação. Uma mão-de-obra qualificadíssima, que tem em Pirlo a figura do profissional mais experiente e mais capacitado, que sabe quando improvisar e aparecer com ideias decisivas. É quase sempre o funcionário do mês, candidato a enriquecer com as próprias forças e até comprar ações da empresa.

Este é o modelo básico de sucesso em toda a história da Juventus. Times marcantes na história recente da Juve, depois que o futebol se modernizou, a partir do fim dos anos 70, se formaram assim e dominaram o futebol italiano enquanto estavam montados. Casos da Juventus de Trapattoni, que teve um grupo de jogadores brilhantes, de Zoff a Scirea, de Cabrini a Tardelli, liderados por um tal Platini. O mesmo aconteceu com as equipes montadas por Lippi e Capello, times com ótimas peças que tinham em Del Piero a sua referência. Esta Juve caminha para um futuro muito semelhante.

Neste fim de semana, a equipe  fez 3 a 0 sobre a boa Atalanta em 27 minutos. Com o jogo na mão, se mexeu muito pouco e, em ritmo de treino, os jogadores tentaram colocar em prática seu repertório de chutes impossíveis, passes arriscados e tudo o mais. A superioridade era tão nítida que a equipe bianconera nem precisou forçar para não correr mais riscos. Enquanto isso, na mesma rodada, Inter e Napoli perdiam e deixavam a Velha Senhora escapar. Agora, são sete pontos de vantagem sobre a Inter, que continua na vice-liderança.

É a maior vantagem da Juventus na ponta desde 2006, ano em que estourou o Calciopoli, e nem mesmo na campanha invicta da última temporada a equipe teve tanta folga. Ressalte-se o fato de que a Juve perdeu duas partidas neste ano – uma delas para a Inter, que a persegue. A diferença é que esta é uma Juve ainda mais sólida, que raramente empata seus jogos. Nas 17 primeiras rodadas do último campeonato, a Velha Senhora tinha sete empates e 10 vitórias. Hoje, o time tem duas derrotas, é verdade, mas já tem 13 vitórias e apenas dois empates – no total, quatro pontos a mais.

A sensação é que ao mesmo passo em que este time é mais regular e mais seguro de si do que o do último ano, os rivais são mais frágeis. Enquanto a Juve é de uma regularidade assustadora, o Napoli tropeça contra os times pequenos e acabou punido pela justiça esportiva em dois pontos. A Inter, ainda em formação, também tem tropeçado demais. Lazio, Fiorentina, Roma e Milan passam por fases de transição e dificilmente poderiam concorrer ao scudetto.

A diferença desta Juventus para os rivais – e para a própria Juve de 2011-12 – é a abordagem em relação às equipes menores. Neste ano, os bianconeri venceram as 11 partidas que tiveram contra equipes pequenas ou médias do Belpaese. No ano passado, até este momento, a Juve já havia empatado com Chievo, Catania, Udinese e Genoa. Pontos que, atualmente, não ficam pelo caminho. Novamente, a maior campeã da história do futebol italiano mete medo na concorrência – e não só em termos locais.

Grande em casa, a Juve está voltando também a ser grande na Europa. O sorteio do seu adversário nas oitavas de final da Liga dos Campeões, nesta quinta, 20, pode determinar a performance da equipe nos próximos dois meses. A depender do grau de dificuldade, veremos se a equipe irá acelerar o ritmo para ampliar a gordura que poderá queimar até o fim do campeonato, ou se poupará com vistas para a competição continental.

Pallonetto

– O Napoli foi penalizado em dois pontos e acabou caindo para a quinta posição, com 31 pontos. A punição aconteceu porque os zagueiros Cannavaro e Grava não denunciaram o goleiro Gianello, que lhes propôs a combinação de resultados em partida contra a Sampdoria. Os zagueiros foram suspensos por 6 meses, enquanto o goleiro já havia pegado gancho de 3 anos e meio.

– Solidez defensiva, um meio-campo objetivo e um matador experiente no ataque. Essa é a fórmula da Lazio, que vem surpreendendo no campeonato. Antes praticamente desconhecido na Itália, o treinador bósnio Vladimir Petkovic tem grande responsabilidade na montagem do time e já detém respeito.

– Ainda sem brilhantismo, o Milan segue conquistando pontos. Depois de bater o Pescara por 4 a 1, contando com a ajuda de dois gols contra da equipe do Abruzzo, os rossoneri já encostaram na Roma, sexta colocada, e estão dois pontos atrás. A conquista de uma vaga europeia, antes distante, é objetivo possível.

– Muitos davam Luca Toni como morto para o futebol, mas ele não cansa de surpreender. Contratado à surpresa pela Fiorentina, já marcou seis gols no campeonato e é artilheiro do time ao lado de Jovetic. Fez dois gols e sofreu um pênalti na vitória por 4 a 1 sobre o Siena.

– Caíram mais dois técnicos na Serie A. Na Sampdoria, Ciro Ferrara tinha o apoio público da direção, mas caiu após a derrota por 3 a 1 ante o Catania, e foi substituído por Delio Rossi. No Siena, Giuseppe Iachini substitui Serse Cosmi, que vinha fazendo o que podia.

– Seleção Trivela da 17ª rodada: Marchetti (Lazio); Portanova (Bologna), Yepes (Milan), Chiellini (Juventus); Kone (Bologna), Pirlo (Juventus), Pizarro (Fiorentina), Pasqual (Fiorentina); Bergessio (Catania), Toni (Fiorentina), Belfodil (Parma). Técnico: Antonio Conte (Juventus).

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